A imagem do pequeno macaco Punch, rejeitado pela mãe biológica e agarrado com desespero a um simples peluche, percorreu o mundo e despertou em muitos de nós uma reação visceral. Há algo de profundamente humano naquele gesto: a procura instintiva de calor, de toque, de aconchego. Não é apenas um comportamento animal; é um lembrete universal de que o vínculo afetivo não é um luxo, mas uma necessidade básica.A história de Punch remete-nos inevitavelmente para as experiências clássicas de Harry Harlow, iniciadas nos anos 50, que marcaram de forma significativa a compreensão científica sobre o apego. Harlow separou crias de macacosrhesus das suas mães e ofereceu-lhes duas figuras substitutas: uma “mãe” de arame, fria e rígida, que fornecia leite, e uma “mãe” de peluche, macia e acolhedora, que não oferecia alimento. O resultado foi inequívoco: as crias passavam a maior parte do tempo agarradas à mãe de tecido, procurando conforto, segurança e regulação emocional, aproximando-se da mãe de arame apenas para se alimentarem.Estas experiências, hoje eticamente impensáveis, revelaram algo que a ciência ainda não tinha conseguido demonstrar com clareza: o toque, o afeto e a sensação de segurança são necessidades tão fundamentais quanto a alimentação. O vínculo não se constrói apenas com a satisfação das necessidades físicas - constrói-se com presença, previsibilidade, calor humano e disponibilidade emocional.Quando observamos Punch agarrado ao seu peluche, vemos a mesma verdade que Harlow expôs há mais de meio século: o corpo procura aquilo que a mente ainda não consegue pedir por palavras. O toque regula, acalma, organiza. É através dele que o bebé (humano ou não) aprende que o mundo é um lugar seguro e que as suas necessidades serão atendidas.E o que retiramos daqui para as crianças?Em primeiro lugar, que o desenvolvimento saudável não se faz apenas de rotinas, regras ou cuidados básicos. Faz-se de colo. De contacto pele-com-pele. De voz suave. De olhar que acolhe. De braços que seguram. Faz-se de adultos que não apenas cuidam, mas que se sintonizam emocionalmente com a criança e que lhe oferecem um porto seguro.Em segundo lugar, que a ausência de afeto não é neutra. Deixa marcas. A falta de toque, de conforto e de responsividade emocional compromete a capacidade da criança de regular emoções, confiar nos outros e construir relações seguras ao longo da vida. Não é por acaso que tantas crianças negligenciadas do ponto de vista afetivo, privadas de contacto físico consistente e afeto positivo, apresentam atrasos no desenvolvimento, dificuldades nos padrões de vinculação e maior vulnerabilidade emocional. Deixemos, por isso, de minimizar o impacto negativo da negligência emocional, quando comparada com outras formas de maus-tratos.Por fim, a história de Punch recorda-nos que o afeto não é um mimo, não é um excesso, não é algo que se dá “quando sobra tempo”. É uma necessidade biológica. Tal como comer, dormir ou respirar. As crianças não precisam de perfeição - precisam de presença. Precisam de um adulto que lhes diga, através do toque e da disponibilidade emocional: “Estou aqui. És importante. Estás seguro.”