Já nem o Reino Unido é uma ilha

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Em fevereiro de 2016, o então primeiro-ministro britânico David Cameron anunciou a realização de um referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia. A consulta realizou-se a 23 de junho desse ano e os 51,9% de votos a favor da saída abriram um ciclo político, económico e estratégico, cujas consequências continuam a moldar o Reino Unido e a Europa.

O argumento central dos defensores do “Leave” era simples: recuperar o controlo sobre as leis, as fronteiras e o Orçamento, acompanhado da promessa de celebrar novos acordos comerciais globais.

Uma década depois da decisão de convocar o referendo, a avaliação exige mais do que slogans.

Do ponto de vista económico, o Reino Unido registou menor crescimento relativo face a outras economias europeias avançadas. O comércio com a União Europeia, que constitui o seu principal parceiro, tornou-se mais burocrático e oneroso. Pequenas e médias empresas exportadoras enfrentam novos custos administrativos, as cadeias de abastecimento foram obrigadas a reorganizar-se e o setor financeiro perdeu parte da atividade que se deslocou para Frankfurt, Paris ou Amesterdão. O acordo comercial celebrado com Bruxelas evitou tarifas, mas não eliminou fricções regulatórias, nem compensou a perda de acesso pleno ao mercado único.

No plano político interno, o Brexit reabriu fissuras territoriais. Na Escócia - que votou maioritariamente pela permanência em 2016 e que, no referendo sobre a independência de 2014, a continuidade no Reino Unido foi defendida como necessária para poder continuar na União Europeia - reacendeu-se o debate sobre a relação futura com Londres. Na Irlanda do Norte, o estatuto especial acordado para evitar uma fronteira física com a República da Irlanda criou uma fronteira regulatória dentro do próprio Reino Unido e tornou-se foco de tensão política interna e externa, exigindo sucessivos ajustamentos diplomáticos. A promessa de retomar o controlo traduziu-se, paradoxalmente, em compromissos jurídicos complexos, nos quais Londres acabou por aceitar limitações que antes rejeitava.

No plano estratégico, a ambição de uma “Global Britain” confrontou-se com a realidade geopolítica. O Reino Unido celebrou acordos comerciais relevantes, incluindo a adesão ao Pacto Transpacífico, mas nenhum compensou plenamente a densidade económica, regulatória e proximidade geográfica do mercado europeu. E a guerra na Ucrânia e a intensificação da competição sistémica entre Estados Unidos e China evidenciaram que a interdependência não é uma opção ideológica, mas uma condição estrutural do século XXI.

Nada disto significa que o Reino Unido tenha perdido relevância. Continua a ser potência nuclear, membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, centro financeiro global e ator diplomático de primeira linha. Contudo, a ideia de que poderia prosperar isolando-se do seu redor revelou-se ilusória. As cadeias de valor são transnacionais, os fluxos migratórios respondem a dinâmicas demográficas profundas e os desafios climáticos, energéticos e digitais ignoram fronteiras.

Mas a principal lição do Brexit não reside nos seus custos económicos ou consequências políticas, antes na forma como decisões estruturais podem ser moldadas por clivagens identitárias e perceções de perda de controlo. Democracias maduras não estão imunes a campanhas simplificadoras que transformam questões complexas em escolhas binárias.

Dez anos depois do anúncio do referendo, fica claro que nem o Reino Unido é uma ilha, nem a soberania se exerce pela distância, mas pela capacidade de moldar interdependências. Num mundo em que as certezas se dissipam e o futuro se torna cada vez mais incerto, sair pode ser aparentemente fácil. Reconstruir pontes é mais difícil.

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