Imagine uma escola… do futuro?

Imagine uma escola, em Campo de Ourique, no século XXI, em que não é possível um pai ou uma mãe ir buscar a sua filha ou o seu filho de carro, porque não há caminho transitável até lá.
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Imagine uma escola em cujas salas chove. Imagine que, apesar de haver janelas nas salas, muitas não se conseguem abrir e, apesar de haver portas, umas quantas não se podem fechar.

Imagine que em nenhuma das salas há um projetor nem um quadro interativo. Imagine que não há internet nem um único computador.

Para compor o ramalhete, imagine que não é possível um pai ou uma mãe ir buscar a sua filha ou o seu filho de carro, porque não há caminho transitável até lá.

Onde imaginou tal escola no espaço e no tempo? Imaginou-a em Portugal? Neste milénio? O mais provável é tê-la imaginado num país longínquo, sem estradas, ou no Portugal rural e de há muitas décadas atrás.

Na verdade, apesar de parecer tirada de um filme antigo ou de estar em alguma freguesia remota, situa-se no coração da cidade de Lisboa, a capital do nosso país. Sim, lamentavelmente é verdade.

Está numa localização provisória, dizem os responsáveis da junta de freguesia à qual pertence (Campo de Ourique) e aquela na qual se encontra provisoriamente a funcionar (Santo António). Sabemo-lo. Crianças que foram provisoriamente para aquelas instalações quando estavam no 1º ano já estão no 6º ano. Nunca chegaram a ver a “escola velha” nova.

E é esta palavra, “provisória”, que tem dado azo a toda a espécie de abusos por parte da Junta de Freguesia de Santo António, que antes utilizava aquele espaço em exclusividade. Repare-se que, como enunciei, a escola já não é uma escola com condições modernas, e não é irrelevante o facto de estar paredes meias com um posto de limpeza (o que causa o aparecimento esporádico de ratos e baratas), mas o facto de, na semana passada, os pais terem ficado proibidos de ir de carro até ao portão da escola é o golpe final. Não porque não haja caminho – há-o de ambos os lados, apesar de apenas com uma via em qualquer deles – mas porque um esteve sempre fechado aos veículos de quem leva crianças à escola (apesar de por vezes aberto para outras situações), e o outro foi agora fechado.

Não estou a ser exagerada. O golpe final. No início havia um espaço gigante onde chegar de carro, dar a volta, esperar que outros progenitores subissem a rampa, e voltar a descer. No início, quem tivesse disponibilidade, mesmo que fosse de carro, podia ficar ali a trocar algumas impressões com outros encarregados de educação. Podiam “ir à rede dar só a mão e dizer um último adeus até logo” às logo e imediatamente saudosas crianças do pré-escolar.

Depois, os funcionários da Junta de Santo António puseram um gradeamento para vedar o acesso a uma parte do espaço. Como usavam esse espaço? Nunca se percebeu. Passado mais um ano, um novo gradeamento a vedar mais espaço. Passado outro ano, um sinal de proibido estacionar agarrado a esse gradeamento do lado de fora. Outro ano passado, pinos a impedir a utilização temporária de lugares de estacionamento normalmente sem ocupação à hora de deixar as crianças. Um novo ano, um novo gradeamento, desta feita do outro lado. Tudo fomos aguentando, tudo fomos tolerando, pelas crianças, pelos funcionários, porque já só faltava um bocadinho, pouco, para a escola sair dali, e deixarmos de ser alvo de tamanha animosidade e falta de vontade.

Até que chegámos a este ano letivo e fomos confrontados com a decisão unilateral da Junta de Freguesia de Santo António de impedir o acesso a veículos automóveis. Sim, impedir a utilização do único acesso com uma única faixa, aos veículos que levam crianças entre os 3 e os 10 anos à escola. Após grande reivindicação, mantiveram a decisão para a saída, mas permitiram que os veículos subissem de manhã, desde que os condutores não saíssem do veículo, porque um funcionário da Junta de campo de Ourique levaria as crianças desse até à escola.

Ora, desenharam um círculo no chão, em que um carro não dá a volta sem manobras. E puseram grades e pinos e veículos a tapar todos os espaços além dessa rotunda. Todos, todos, todos, mas não no sentido grandioso do Papa Francisco ou do Presidente da República recentemente eleito. E no início alocaram inclusive 2 veículos e 2 agentes da Polícia Municipal para ali estar a vigiar os pais e não os deixar entrar com os carros para ir buscar as crianças à tarde, depois passaram a deixar espaço para apenas uma pessoa passar a pé de cada vez.

Questiono a justiça e o sentido destas decisões. Uma criança que parta uma perna terá que se deslocar todo aquele caminho a pé? Claro que é saudável ir a pé, e certamente todos os que o conseguem o fazem. O que é extremamente negativo é a impossibilidade de ir de carro.

Gostaria que a nossa capital usasse o seu orçamento para melhorar as condições das mais de 150 crianças que ali têm aulas todos os dias e não para pinos, veículos e agentes da polícia.

Estamos a falar de 5 anos letivos de crescente animosidade por parte de funcionários de uma junta de freguesia que, como dizia hoje uma aluna da escola, “de certeza que já foram crianças. Gostavam que os tivessem tratado assim? Mas porque é que eles são tão maus?”.

Realmente não se percebe. Em lado algum, neste milénio. E muito menos se percebe na capital de um país desenvolvido.

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