Chamava-se João, mas toda a gente o conhecia por Gomes-Pedro. Foi um dos melhores comunicadores que conheci, um homem que falava com os olhos, que nos hipnotizava com as palavras, que nos fazia acreditar num mundo que valia a pena, com mais futuro do que passado, com bebés que pudessem ser melhores do que os seus pais, melhores do que nós.Não o via há muitos anos, mas foi sempre essa a imagem que me ficou do pediatra dos pediatras, um médico total que era clínico, investigador, professor e pedagogo. Morreu no final da passada segunda-feira, uma perda insuperável e que é genuinamente simples de explicar: a forma de receber e tratar as crianças doentes mudou em Portugal por sua influência.Antes só existia a criança e a doença, depois passou a existir tudo o resto, os pais, avós, irmãos, os educadores, professores e amigos. Entendeu, antes de qualquer um, que a doença de uma criança envolvia a atenção de todos os que a rodeavam.Gomes-Pedro foi tudo, atingiu o topo em todas as montanhas que escalou - doutorado, catedrático, diretor de serviço, figura influente no hospital, na cidade e no país. Fez da criança o centro do futuro, a prioridade das prioridades. A voz de cada menino e menina passou a ser considerada, com ele abriu-se também a porta ao combate contra os que tentam, sob todas as formas, matar a infância. As nódoas negras, mesmo as que não se veem, passaram a ser consideradas.Dizia bastas vezes que deveria existir um Ministério da Criança. Teria sido um extraordinário ministro, foi um extraordinário homem.