A inteligência emocional não é exclusivamente feminina, mas parece

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Não raras vezes as mulheres são adjetivadas como emotivas, histéricas, sensíveis e facilmente impressionáveis - tudo características que se consideram negativas e impeditivas de alcançar sucesso.

As mesmas mulheres que conseguem passar por dores físicas inenarráveis, como as do parto, por alterações hormonais muitas vezes quase incapacitantes sem nunca deixarem de fazer o que lhes compete, são vistas como fracas se choram em público ocupando cargos de liderança - os homens serão adjetivados como sensíveis e humanos.

Veio-me esta (tão antiga como o mundo) reflexão à cabeça, de novo, quando no domingo passado Ana Abrunhosa resumiu bem a imagem que fazem dela: “Passei de ministra chorona a presidente da Câmara ‘tesa’.” Referia-se ao episódio em que respondeu emocionada a um deputado da Iniciativa Liberal, durante uma Comissão de Inquérito em que foi ouvida, quando era ministra do Governo de António Costa, e aos recentes comentários à sua atuação enquanto presidente da Câmara de Coimbra, quando geriu com pulso firme as operações de prevenção e resposta ao mau tempo.

Curiosamente, Ana Abrunhosa é exatamente a mesma pessoa. Porque - pasme-se - é mesmo possível uma pessoa ser “chorona” e ser “tesa”. Aliás, ser ambas as coisas é sinal de que tem a inteligência emocional certa para lidar com os desafios do mundo.

Esta certeza voltou-me à ideia quando, ao início da tarde de ontem, li as publicações (novamente) descontroladas do presidente norte-americano: no seu estilo de sempre, Donald Trump ameaçou os países que “andaram a brincar” com os EUA com tarifas recíprocas de 15%, com as quais vai tentar contornar o veto do Supremo Tribunal à imposição de taxas.

Até agora, vi poucos comentadores adjetivarem Trump como histérico, sensível ou emotivo (e também não deverá estar a sofrer com alterações hormonais). Ainda que talvez o pudessem fazer, olhando apenas para a forma como reage sempre que as coisas não lhe correm como esperado: como uma criança de 4 anos a quem tiraram o brinquedo e não sabe ainda lidar com a frustração.

Jacinda Arden foi mãe durante o seu mandato enquanto primeira-ministra da Nova Zelândia, e durante uma pandemia que parou o mundo - a Nova Zelândia foi dos países que mais rapidamente mitigou os efeitos da covid-19; Sanna Marin, a mais nova primeira-ministra finlandesa da História, liderou a adesão do país à NATO, numa alteração profunda da política de Defesa da Finlândia após a invasão da Ucrânia por forças russas; Angela Merkel, a primeira mulher a liderar a Alemanha, conduziu (com sucesso) o país durante a crise financeira europeia de 2008; Ellen Johnson Sirleaf foi a primeira mulher a ser eleita presidente de um Estado africado (a Libéria) e garantiu a reconstrução do país após as guerras civis, tendo assegurado um Prémio Nobel da Paz.

Atualmente, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, tem mostrado como a ausência de testosterona pode ser uma vantagem num mundo em que os egos tendem a encher a sala, e a toldar a visão quando se procura construir um mundo melhor. Sem deixar de ser sensível e empática, Von der Leyen tem mostrado também ser firme, mesmo quando homens a desconsideram, não a cumprimentando ou roubando-lhe a cadeira.

A inteligência emocional está subvalorizada, porque as mulheres parecem tê-la mais desenvolvida que os homens, e o mundo não aprecia isso. Mas, ao contrário do que se pensa, é precisamente quem a tiver que vai conseguir levar o mundo a um lugar melhor do que aquele em que está agora. Porque, como é facilmente compreensível, há um momento em que as birras têm de acabar - e em que as pessoas crescidas poderão, finalmente, trabalhar.

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