Vice de Rajoy debaixo de fogo por dizer que PP "decapitou" setor independentista

Junts per Catalunya denuncia Santamaría por prevaricação, alegando que as palavras provam que PP controla tribunais

A lista Junts per Catalunya (JxCat), que é liderada pelo ex-presidente da Generalitat Carles Puigdemont, vai apresentar queixa por alegada prevaricação contra a vice-primeira-ministra espanhola, Soraya Sáenz de Santamaría. Em causa estão as declarações da número dois de Mariano Rajoy, que, num comício no sábado, disse que o Partido Popular (PP) "decapitou" os partidos independentistas e é o único que pode "continuar a liquidar o independentismo". Para os críticos, estas palavras provam que o PP controla os tribunais.

O porta-voz do JxCat, Eduardo Pujol, avisou que apresentará hoje a queixa na procuradoria, alegando que as declarações de Santamaría são a prova de que o governo de Rajoy "põe e tira pessoas da prisão" como lhe apetece. Por seu lado, a presidente do Parlamento, Carme Forcadell (que pagou fiança após passar uma noite na prisão), agradeceu à vice-primeira-ministra, dizendo que com as suas palavras "confirma que não há separação de poderes em Espanha e que há presos políticos".

O ex-governo catalão e os membros do Parlamento são acusados de rebelião, sedição e peculato na organização do referendo de 1 de outubro e consequente declaração unilateral de independência. O ex--vice-presidente, Oriol Junqueras, está preso, tal como o antigo titular da pasta do Interior, Joaquim Forn. Os líderes das associações independentistas Òmnium Cultural e Assembleia Nacional Catalã estão detidos por sedição nos protestos prévios ao referendo.

Rajoy ameaça com o 155º

"O 155.º deixou de ser um fantasma jurídico, todos sabem o que é e o que é preciso fazer para que se ative e o que é preciso fazer para que não se ative", afirmou Rajoy diante de 700 pessoas, num comício do PP em Salou. Este artigo da Constituição espanhola, que nunca tinha sido usado antes, permitiu ao governo espanhol assumir a gestão das instituições catalãs, afastando o governo eleito em 2015, e convocar as eleições autonómicas da próxima quinta-feira.

O 155.º "serenou a vida política", disse o primeiro-ministro no evento de apoio à campanha de Xavier García Albiol. "A Catalunha recuperou a legalidade, a confiança, pode voltar ao caminho da recuperação económica e celebrará eleições com garantia de neutralidade e não o que vimos no passado 1 de outubro", acrescentou Rajoy.

Numa entrevista ao La Vanguardia, o ex-presidente da Generalitat recusou a ideia de que a região esteja "mais relaxada" desde que se foi embora para Bruxelas. "O que existe é uma paralisia do país provocada pelo 155.º e pelo medo", indicou Carles Puigdemont. O cabeça-de-lista do JxCat disse temer que, se o governo "não gosta dos resultados, teremos 155.º por algum tempo".

Questionado diretamente sobre se vai voltar à Catalunha após as eleições, Puigdemont respondeu: "Se se respeitar o resultado das eleições e esse resultado é que o 155.º foi recusado pelos catalães, porque estas eleições são um plebiscito sobre o 155.º, não tenho outra alternativa senão voltar."

Pactos

O primeiro-ministro espanhol reiterou no comício que o PP "não vai pactuar nem com independentistas nem com a extrema-esquerda e isso todos o sabem". Um recado para os socialistas e para Miquel Iceta, que estará já em negociações para a repetição do tripartido de esquerda que governou a Catalunha.

A ideia seria esquecer a divisão entre independentistas e não independentistas e fazer uma aliança entre os socialistas, a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) e o Catalunya en Comú-Podem, aliança que inclui o partido da presidente da Câmara de Barcelona, Ada Colau, e o Podemos de Pablo Iglesias. Só após as eleições se saberá se as contas são suficientes.

"Vamos fazer que todos nos voltemos a sentir irmãos", afirmou Iceta num comício para mais de cinco mil pessoas no Centro de Congressos Internacional de Barcelona. O líder dos socialistas catalães apelou ao voto útil na sua lista, dizendo ser ele a alternativa a Puigdemont e Junqueras.

Mas, segundo as sondagens, os socialistas não são os favoritos dentro do chamado "constitucionalismo". Esse papel cabe ao Ciudadanos e a Inés Arrimadas, que teve ontem o maior comício da história do partido na Catalunha: quatro mil pessoas na Fira de Barcelona, em L"Hospitalet de Llobregat. A sua "esperança" é poder deixar o processo independentista e começar o "progresso", com Albert Rivera, o líder nacional, a dizer que se ganham farão mais em quatro anos do que os nacionalistas em 40.

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