Rivera desafia PP para abstenção conjunta que viabilize governo de PSOE. "Não há obstáculo", reage Sánchez

O líder do Ciudadanos, Albert Rivera, propõe ao PP uma abstenção conjunta da direita na votação de investidura de Pedro Sánchez (PSOE), mas exige três condições. O primeiro-ministro em funções já respondeu e diz que "não há nenhum obstáculo real" para a abstenção dos dois partidos.

Ciudadanos chama "solução de Estado" à proposta que apresentou esta segunda-feira ao PP. O partido liderado por Albert Rivera sugere uma abstenção conjunta da direita na votação da investidura de Pedro Sánchez (PSOE), o que permitiria a viabilização de um governo socialista minoritário. Se o PP aceitar a proposta, esta solução desbloqueia o atual impasse político e evita a marcação de novas eleições para 10 de novembro. Mas Rivera exige a Sánchez três compromissos para que esta solução seja viável.

O Ciudadanos quer que Sánchez, primeiro-ministro em funções, se comprometa a "romper" com o governo de Navarra, onde o PSOE governa com o apoio dos separatistas bascos da EH Bildu, a não "indultar" os líderes catalães que venham a ser condenados no processo do referendo sobre a independência da Catalunha e, por último, exige que os socialistas não aumentem os impostos.

O primeiro-ministro em funções já reagiu ao afirmar que cumpre as três condições impostas pelo Ciudadanos para viabilizar esta solução. "Não há obstáculo real para que o Ciudadanos e o PP se abstenham", disse Sánchez aos jornalistas em Almansa, onde visita uma zona afetada pelas inundações provocadas pelas chuvas torrenciais deste fim-de-semana.

De acordo com fontes socialistas, citadas pela imprensa espanhola, o PSOE contesta a posição do partido de Rivera referente ao governo de Navarra. O Ciudadanos defende que os socialistas têm de rasgar o pacto com os separatistas bascos, mas o PSOE contesta ao dizer que "em Navarra existe um governo que defende a Constituição".

Sobre o compromisso de não subir os impostos, o PSOE afirma que Pedro Sánchez quer "baixar os impostos à classe média". Já em relação à Catalunha, o partido socialista espanhol afirma que "o governo de Espanha garante o cumprimento da Constituição" na região. Desta forma, o PSOE considera que as condições exigidas pelo Ciudadanos já estão cumpridas.

De acordo com Rivera, citado pelo El País , o líder do PP, Pablo Casado, com quem vai reunir-se esta segunda-feira, "está disposto a estudar" a proposta. O Ciudadanos faz questão de sublinhar que só se abstém se o PP também optar por fazê-lo. Recorde-se que, no passado, o PSOE viabilizou um governo do PP de Mariano Rajoy pela via da abstenção. Sánchez, porém, não apoiou essa decisão dos socialistas na altura e até se demitiu da liderança do partido.

Esta solução de última hora apresentada por Rivera surge no dia em que o rei de Espanha, Filipe VI, inicia uma ronda de dois dias de consultas aos partidos com assento parlamentar para tentar desbloquear o impasse político que dura há quatro meses desde que o PSOE ganhou as eleições a 28 de abril, mas sem maioria absoluta. O partido de Sánchez ganhou com menos de 30% dos votos e, por isso, precisa do apoio de outras formações políticas.

Filipe VI vai receber 15 líderes partidários por ordem de representação parlamentar, terminando na terça-feira, ao fim da tarde, com Pedro Sánchez.

Depois de se reunir com os representantes de todos os partidos, o rei de Espanha terá um encontro com a presidente do Parlamento, Meritxell Batet, a quem irá comunicar se vai propor um candidato para tentar formar governo, ou se, pelo contrário, considera que não há condições para que isso aconteça.

Pedro Sánchez parece ser a única alternativa possível, depois de, em junho e julho últimos, o Parlamento já ter chumbado uma primeira tentativa dos socialistas.

Se até daqui a uma semana, segunda-feira 23 de setembro, não houver um novo governo aprovado pelo Parlamento, Felipe VI será obrigado a dissolver a Assembleia e a marcar eleições para 10 de novembro.

Um mês e meio depois de ter sido rejeitado pelo Parlamento, Pedro Sánchez continua sem conseguir encontrar os apoios necessários à sua investidura, nomeadamente por parte do partido da Unidas Podemos de Pablo Iglesias.

O PSOE defende um compromisso "à portuguesa" -- acordo parlamentar com governo exclusivamente socialista -, enquanto o Unidas Podemos quer uma coligação governamental que tenha ministros da extrema-esquerda.

Face à recusa dos socialistas em aceitar um Executivo de coligação, o líder da Unidas Podemos explicou na passada sexta-feira que tinha proposto um "governo de coligação temporário" até à aprovação do Orçamento Geral do Estado.

A extrema-esquerda poderia em seguida sair da coligação, no caso de Sánchez considerar que a fórmula não resultava, ao mesmo tempo que continuaria a dar o seu apoio parlamentar.

No mesmo dia, esta proposta foi qualificada de "absurda" pela porta-voz do governo de Sánchez.

As sondagens indicam que, em caso de repetição de eleições, o PSOE iria aumentar a percentagem de apoio, mas continuaria a precisar do apoio de outras formações para formar governo.

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