Rama, o pintor e basquetebolista que quer ficar no poder para pôr o país na UE

Albaneses vão hoje a votos e as sondagens dão a vitória ao Partido Socialista, com uma vantagem sobre o Partido Democrático que poderá ascender aos 20 pontos. Incerteza sobre se a margem chegará para a maioria absoluta

Há aqueles que nos entretantos da política se dedicam a uma arte qualquer. E depois há Edi Rama, o primeiro-ministro albanês, que num intervalo das lides de professor de Pintura na Academia de Belas-Artes de Tirana e depois de uma carreira na seleção nacional de basquetebol decidiu dedicar-se à política. "Se a arte não consegue tornar a política mais sã, a política, com a sua insanidade, pode às vezes tornar a arte ainda melhor", explicava Rama em novembro numa entrevista ao britânico The Guardian.

Entre 2000 e 2011 foi presidente da câmara da capital e em 2013 ascendeu a chefe de governo. No ano passado, foi convidado a expor na reputada galeria de arte contemporânea Marian Goodman, em Nova Iorque. Muitos dos desenhos que viajaram até aos EUA foram feitos durante as reuniões que a governação exige. O hábito nasceu quando ocupou o cargo de ministro da Cultura, no final dos anos 1990, antes de aceitar o desafio de liderar Tirana. "Não conseguia encontrar uma maneira de sobreviver às longas reuniões. E depois descobri que desenhar ajudava-me a ouvir."

Os albaneses vão hoje a votos e, se as sondagens estiverem certas, deverão entregar a vitória ao Partido Socialista e assim revalidar o mandato de Edi Rama como primeiro-ministro. Um dos estudos mais recentes aponta para uma vantagem de 20 pontos percentuais sobre o Partido Democrático, de centro-direita e liderado por Lulzim Basha. Ainda assim, os números não garantem a maioria absoluta a Rama, que poderá ver-se obrigado a negociar uma coligação. Outras duas sondagens, de uma empresa distinta, dão também a vitória aos socialistas, mas reduzem a liderança para menos de dez pontos de diferença. Caso não haja maioria, o parceiro escolhido para uma coligação deverá ser o Movimento Socialista para a Integração, uma formação criada em 2004 por dissidentes socialistas e que já está habituada a funcionar como fazedor de reis - entre 2009 e 2013 aliou-se no governo ao Partido Democrático e desde 2013 coabita com o PS albanês.

Foi em 1991 que se realizaram as primeiras eleições multipartidárias na Albânia desde 1923. Com 56,2%, a votação foi ganha pelo Partido do Trabalho da Albânia (PTA), formação que o ditador Enver Hoxha liderou entre 1941 e 1985. Desde então, o poder tem alternado entre o Partido Socialista (que sucedeu ao PTA) e o Partido Democrático.

Edi Rama nasceu em Tirana em 1964, em plenos anos comunistas. O regime albanês era então uma das mais brutais ditaduras do lado de lá da Cortina de Ferro. Cruzar a fronteira e sair do país era um sonho impossível para os cidadãos normais, um luxo reservado apenas para a elite partidária ou para os atletas em representação das cores nacionais. Foi por isso que Rama meteu na cabeça que queria ser um dos melhores basquetebolistas do país. Para ter a possibilidade de visitar museus lá fora. Os centímetros não eram um problema. O primeiro-ministro mede 1,95 metros. "A minha primeira viagem foi a Viena, em 1984. Estava muito frio. Saí do hotel e caminhei não sei por quanto tempo. Queria visitar o Museu da História da Arte. Consegue imaginar a minha desilusão quando lá cheguei e estava fechado porque era o dia de encerramento semanal?", conta Rama ao The Guardian. Teve de esperar cinco anos por nova deslocação ao estrangeiro, desta vez a Bremen, na Alemanha. De novo iludiu a vigilância e escapou do hotel, mas desta vez conseguiu admirar as obras de Rodin e de Picasso.

Em 1998, Rama recebeu um telefonema do então primeiro-ministro. Fatos Nano queria o professor de Belas-Artes e ex-basquetebolista para ministro da Cultura, Juventude e Desporto. Ele disse que sim. Dois anos mais tarde seria o candidato socialista a disputar a Câmara de Tirana. Com Rama ao leme, a capital do país encheu-se de cores. O cinzentismo dos blocos de apartamentos, típico da era comunista, não agradava ao pintor, mas a autarquia não tinha fundos para voos demasiado altos. Em muitas zonas faltavam ainda as condições mais básicas. Em toda a cidade só 78 candeeiros de rua estavam a funcionar.

Rama decidiu mandar pintar os prédios de alguns quarteirões com cores garridas, às riscas, com pinceladas de tons distintos. "As cores dos prédios não foram arte para mim. Foi uma intervenção política com cores. E teve um efeito em cadeia. Depois de os prédios estarem pintados, as pessoas, começaram a libertar-se das grades e dos tapumes. Nas ruas que estavam pintadas conseguíamos cobrar 100% dos impostos devidos, em comparação com apenas 4% noutras zonas. Os habitantes aceitavam pagar para a cidade porque através das cores perceberam que a cidade existia."

O sonho de Rama é agora aproximar Tirana de Bruxelas e fazer que a União Europeia abra as portas à Albânia. Nesse particular, ele e Lulzim Basha estão em sintonia. Esse desígnio comum faz que não seja de afastar totalmente a possibilidade de um bloco central. A Albânia apresentou a candidatura a membro da União em 2009 e em 2014 ganhou o estatuto de candidato oficial. Ainda falta muito para chegar a Bruxelas, mas talvez com a arte da política as distâncias se encurtem.

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