Polónia deve muito à Igreja e esta faz questão de cobrar

Visita de Francisco em julho para a Jornada Mundial da Juventude obriga Governo e oposição a uma trégua e comprova força do catolicismo na sociedade polaca, legado de uma história que se confunde com a da nação e foi evidente no derrube do comunismo em 1989. Bispos têm muita influência política

Perto da maquete com soldadinhos que reproduz o cerco sueco ao mosteiro de Jasna Gora no século XVII surge a medalha Nobel que Lech Walesa ganhou em 1983, como incentivo à luta pela democracia. "É aqui que deve estar", diz o padre Simon Stefanowicz, relembrando que a Igreja polaca esteve ao lado de Walesa, o eletricista de Gdansk que liderou o Solidariedade. Czestochowa, onde fica o mosteiro da Virgem Negra, prepara-se para a visita de Francisco, no final de julho durante a Jornada Mundial da Juventude, mas no mesmo museu onde se recorda o prémio de Walesa não falta memorabilia a relembrar que em popularidade entre os polacos nenhum Papa bate João Paulo II. "Lembro-me das visitas. Lembro-me das palavras de encorajamento", acrescenta Stefanowicz, padre há 50 anos, desde os tempos duros do comunismo".

A popularidade de Jan Pawel II

Por toda a Polónia, Jan Pawel II, como lhe chamam, é omnipresente, desde a foto no portão dos estaleiros de Gdansk ao nome numa avenida de Varsóvia. Mas é no Sul que mais é celebrado: foi em Cracóvia que se fez padre e chegou a cardeal até se tornar em 1978 o primeiro Papa não italiano em 400 anos. Se Karol Wojtyla era já adorado pelos cracovianos por acolher os perseguidos, a transformação em João Paulo II deu-lhes "um líder com projeção global, com valores opostos aos da sovietização ", sublinha o historiador Jacek Purchla.

"Seria impossível o sucesso do Solidariedade sem o apoio do Papa. Com a visita em 1979, onde reuniu um milhão de pessoas para a missa em Cracóvia, os polacos descobriram a força que tinham", acrescenta o diretor do Centro Cultural Internacional, com sede na Praça do Mercado, coração daquela que foi a capital do país até 1596.

Embora admirador do papel da Igreja na defesa da nação, e não só durante a era comunista, Purchla mostra-se preocupado com a atual cumplicidade entre a religião e o Estado, sobretudo desde que o Lei e Justiça (PiS) ganhou as legislativas de 2015. "O PiS está a apoiar o poder da Igreja Católica. E não é segredo que o líder, Jaroslaw Kaczynski não era próximo da igreja no início da sua carreira mas agora patrocina uma forma cínica de negócio entre os seus interesses e os da igreja", sublinha o historiador.

Maioria absoluta inédita

Kaczynsky já foi primeiro-ministro. É gémeo de Lech, o presidente que morreu num desastre aéreo e foi sepultado na catedral de Wawel, em Cracóvia. Impulsionou um dos seus protegidos, Andrzej Duda, para a presidência e depois de ganhar as legislativas fez de Beata Szydlo a primeira-ministra mas é dado adquirido que é ele que controla a ação governativa. No ano passado, o PiS não só derrotou a Plataforma Cívica, partido liberal órfão desde que Donald Tusk preferiu o Conselho Europeu, como obteve a maioria absoluta, beneficiando da ausência da esquerda do Parlamento. Um feito inédito nos 27 anos desde que o Solidariedade chegou ao Governo, nesse ano de 1989 que foi também o da queda do muro de Berlim. Com a maioria absoluta vieram o conflito com o Tribunal Constitucional e a nomeação de novos chefes da TV estatal.

Quem votou no PiS acha exagerado as acusações de tentação ditatorial. "Fazem o mesmo que os anteriores, mas com menos relações públicas", admite uma estudante da Universidade Jaguelónica. Prefere não dizer o nome, "porque a política hoje zanga amigos".

Janusz Mucha tem a opinião contrária, diz que "a democracia está em perigo porque o primado da lei não é respeitado", referindo-se à recusa do governo de aplicar as decisões do Tribunal Constitucional. O sociólogo admite que na vida quotidiana não se sente a mudança, "mas o processo está em andamento". Mucha, que é professor na Universidade de Tecnologia, tem sido um entusiasta dos KOD (Comité de Defesa da Democracia), que têm organizado manifestações contra o Governo e pró-UE.

Da parte da hierarquia religiosa é que Mucha não espera desta vez oposição ao governo. "A Igreja está satisfeita. O PiS apoia-a e estamos a caminho de um maior envolvimento da igreja na política", alerta o académico. Sobre se a visita de Francisco reforçará a popularidade da Igreja, a sua opinião divide-se. "Sim, mas a Igreja polaca não segue totalmente os ensinamentos deste Papa, seja no que diz respeito à crise dos refugiados, seja na modéstia", nota. O que não quer dizer que os polacos critiquem os bispos: "Muita gente gosta de ver o poder acompanhado pelo fausto".

O palácio dos arcebispos de Cracóvia é mais famoso por lá ter vivido Wojtyla do que pelo fausto. E numa janela do primeiro andar, uma foto de João Paulo II relembra que era dali que nas visitas ao país falava de forma mais intimista. Hoje o arcebispo-cardeal é Stanislaw Dziwisz, que foi secretário de João Paulo II durante quatro décadas. Aos 79 anos já não vai a tempo de perder a fama de conservador, mas isso está longe de ser desvantagem na Polónia. E quando questionado sobre a forma como o Governo é criticado, seja pelo conflito com os juízes seja nos últimos tempos pela recusa de quotas para refugiados, Dziwisz é duro: "Estamos a dar o nosso melhor para defender os valores cristãos que são o fundamento da Europa. Se nos desligarmos dessas raízes a árvore cairá". Vestido de negro, com o solidéu vermelho, o cardeal acrescenta que "queremos ter a liberdade de ser um país independente num conjunto de países. Somos soberanos e dedicados à nossa liberdade". Sobre as acusações de que a Polónia se está a tornar xenófoba, um desmentido, aproveitando a Jornada Mundial da Juventude: "Venham. A Polónia é um país seguro, hospitaleiro e amigável".

As críticas ao governo começam a fazer mossa, a ponto de a Moody"s ter baixado as perspetivas económicas, apesar de o país ter crescido 3,6% no ano passado. Mas se a UE tem sido incisiva, os Estados Unidos olham para a Polónia como aliado vital, como prova a instalação do sistema antimíssil e a escolha de Varsóvia para a cimeira da NATO. O que significa que o governo não mudará o rumo, mesmo que Duda tente tranquilizar os parceiros sobre o europeísmo polaco.

A aposta nas políticas sociais

A Igreja continua solidária com Kaczynski, pois há medidas que lhe agradam muito, como os subsídios a quem tem filhos. Para o governo, também a Igreja ajuda, não só na hora de apelar ao voto ("que resulta sobretudo no sul e leste", nota Mucha), como colmatando as falhas do Estado. "Temos um papel importante no apoio às famílias pobres", explica ao DN o presidente da Caritas de Cracóvia, o padre Bogdan Kordula, à margem de uma explicação sobre a logística da última missa de Francisco, dia 31. Ou seja, não é só pelo desempenho no século XIX, ou na resistência aos nazis e depois ao comunismo, que a Igreja polaca garante prestígio.

Purchla nota que "a Igreja como parte da nossa identidade nacional foi essencial no sucesso da revolução de 1989, mas tornou-se um problema quando começámos a construir o Estado democrático. Como combinar o poder e ambição da instituição com os princípios básicos da democracia?"

Domingo a catedral no Wawel está cheia de jovens. É a missa das 19:00 e houve outras antes. O cardeal Dziwisz fala de 35% de assistência à missa a nível nacional, mas que atinge 78% numa diocese. "Chega a não haver lugar dentro da igreja".

Em Cracóvia

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