Kenyatta toma posse entre cenas de alegria e violência

Líder da oposição, Raila Odinga, não reconhece resultados das presidenciais e anuncia a sua própria cerimónia de investidura

O presidente do Quénia, Uhuru Kenyatta, tomou ontem posse para o seu segundo mandato, pouco antes da polícia de choque ter lançado gás lacrimogéneo sobre a comitiva do líder da oposição, Raila Odinga, que anunciou a sua própria cerimónia de investidura para o próximo dia 12. Uma decisão que pode aprofundar ainda mais as divisões abertas por estas eleições.

Numa cerimónia de tomada de posse presenciada por vários chefes de Estado africanos, Kenyatta, 56 anos, tentou passar a imagem de um país a ultrapassar a sua fase de divisão. O juramento foi feito com a bíblia usada pelo seu pai, Jomo Kenyatta, na sua investidura como presidente em 1964. "As eleições são agora passado. Irei dedicar o meu tempo e energia a construir pontes", afirmou o presidente empossado, perante a multidão entusiasta presente num estádio no centro de Nairobi, a capital do Quénia.

Mas, avisou Kenyatta no seu discurso, os quenianos "precisam de se libertar do fardo de queixas antigas e seguir o Estado de Direito". Kenyatta venceu as presidenciais de 26 de outubro, boicotadas por Odinga, alegando que estas não seriam justas e livres. O Supremo havia anulado os resultados das eleições de agosto por irregularidades.

Mais de 60 mil apoiantes de Kenyatta, muitos vestidos de vermelho e amarelo, as cores da Aliança do Jubileu, o partido do presidente, e empunhando bandeiras do Quénia, encheram as bancadas do recinto. No exterior do estádio estavam milhares de outros apoiantes que, desafiando a segurança da polícia, tentaram entrar, levando os agentes a lançarem gás lacrimogéneo para os controlar.

Já a oposição tinha planeado para ontem um encontro de oração em Nairobi, alegando querer celebrar as vidas dos apoiantes de Odinga mortos durante os confrontos com a polícia durante o período eleitoral. Mais de 70 pessoas terão sido mortas nestes últimos meses de tensão política, principalmente às mãos das forças de segurança - há relatos de três mortes nos confrontos registados ontem.

Mas a polícia de choque selou logo pela manhã o local onde iria realizar-se a concentração de apoiantes de Raila Odinga e lançando gás lacrimogéneo numa tentativa de evitar a realização do evento, enquanto um helicóptero sobrevoava o local. Várias ruas foram bloqueadas com pneus em chamas, pedras, vidros e cartazes.

"Esta eleição de 26 de outubro é falsa. Nós não a reconhecemos", declarou Odinga, de 75 anos, aos seus apoiantes a partir de um tejadilho de um carro. "No dia 12 de dezembro teremos uma assembleia que me dará posse". E lembrou o caso do Zimbabwe, onde na semana passada, Robert Mugabe se demitiu após 37 anos no poder, na sequência de uma ação militar, passando a presidência para as mãos do seu antigo vice. "Sabem que Raila Odinga não é um cobarde. Na semana passada, Emmerson Mnangagwa foi investido. Faremos como ele: tomou posse do cargo e foi para o palácio presidencial", disse o líder da oposição queniana.

Pouco depois, a polícia lançou gás lacrimogéneo sobre a comitiva de Odinga, bem como sobre os seus apoiantes. Imagens de vídeo mostram uma multidão a fugir ao som de tiros e a polícia a atacar pessoas desarmadas com bastões. Outras pessoas usaram água de poças enlameadas para limpar os olhos.

Vistos para todos os africanos

No discurso de tomada de posse, presidente Kenyatta anunciou também a criação de um visto especial de entrada no Quénia para "todos os africanos", uma medida que, afirmou, pretende criar "pontes" entre todos os cidadãos do continente. Os membros da Comunidade da África Oriental - organização que, para além do Quénia, é composta por Uganda, Tanzânia, Burundi, Ruanda e Sudão do Sul - poderão também ter propriedades, viver e trabalhar no país, uma forma "de sublinhar o compromisso do Quénia com o pan-africanismo".

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