"Tentaram prender uma ideia, mas uma ideia não se prende", diz Lula

No primeiro discurso em liberdade, ex-presidente diz que "o Brasil vai melhorar quando tiver um presidente que não minta tanto como o Bolsonaro mente pelo 'twitter'" e prometeu "lutar pela vida dos brasileiros, que está uma desgraça", colocando-se já como contraponto político e social do governo. E e breve fará 'tour' pelo país

"Aos 74 anos só tenho espaço para amor e o amor vai vencer neste país", disse Lula no primeiro discurso, a milhares de apoiantes, depois de sair em liberdade, 17 meses depois.

Lula saiu da prisão em Curitiba às 20.42, hora portuguesa, após o juiz de Curitiba ter decretado esta sexta-feira a saída imediata do ex-presidente brasileiro, na sequência da decisão do Supremo na quinta-feira. Recebeu o primeiro abraço da filha mais velha. Lurian, depois da noiva, Rosângela, de netos, e de Fernando Haddad, Gleisi Hoffmann e outros dirigentes do Partido dos Trabalhadores (PT). E em seguida discursou.

"O lado podre da política federal, da receita federal, do ministério público federal tentaram criminalizar a esquerda brasileira", começou por dizer sob gritos de "Lula eu te amo". "Eles não prenderem um homem eles tentaram prender uma ideia mas uma ideia não se prende", continuou. "Essa quadrilha, [o ministro Sergio] Moro, [o procurador Deltan] Dallagnol e outros se os colocarem todos no liquidificador não dá 10% da honestidade que eu represento".

A seguir, apresentou os mais próximos, usando provocações ao presidente Jair Bolsonaro: "Quero apresentar o nosso quase presidente, se não fosse roubado, Fernando Haddad" e "este amigo aqui que é capitão, não é um tenente que ao se aposentar virou capitão".

E já deixou promessas: "Vou lutar para melhorar a vida do brasileiro, que está uma desgraça, e não vou permitir que esta gente entregue o nosso país". Para Lula, "o país vai melhorar quando tiver um presidente que não minta tanto como o Bolsonaro mente pelo twitter".

O ex-presidente, que seguiu para São Bernardo do Campo, sede do Sindicato dos Metalúrgicos que presidiu, e de onde, em abril de 2018, partiu para a prisão, quer agora aproveitar para viajar pelo Brasil e assumir-se como uma espécie de líder da oposição ao governo de Bolsonaro, apesar de a sua atual situação jurídica não o permitir candidatar-se a cargos públicos por enquanto. "Estou com o sangue nos olhos", disse o antigo presidente, citado pela revista Veja, ao longo da tarde, numa demonstração de que pretende fazer política agressiva.

No PT, no entanto, há correntes dissonantes, que preferiam ver Lula resguardar-se neste momento. A colunista Denise Rothenburg, do jornal Correio Braziliense, escreve que "enquanto alguns defendem um ato no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde Lula foi preso em 7 de abril do ano passado e que ele comece a percorrer o pais na semana que vem", outros têm "receio de que esse périplo acirre a divisão no país e sirva de justificativa para que os aliados do presidente Jair Bolsonaro tentem classificar qualquer ato como "baderna" ou coisa que o valha, a fim de vir com medidas de restrição de liberdade".

Alberto Fernández, presidente eleito da Argentina, fez saber que convidará Lula para a sua posse, marcada para dia 10 de dezembro, caso o ex-sindicalista seja autorizado a sair do país. Bolsonaro, aliado do derrotado Maurício Macri, declinou participar e far-se-á representar por Osmar Terra, ministro da cidadania.

Cientistas políticos, aliás, assinalam que será o centro do espetro partidário brasileiro o mais prejudicado com a libertação de Lula e não Bolsonaro. "Vai funcionar na base do 'Ele, não'. Para um lado ou para o outro, 'ele, não' 'ele de jeito nenhum'. Os extremos saem fortalecidos, um sabe imediatamente com quem antagonizar", disse Sérgio Fausto, da Fundação Fernando Henrique Cardoso à BBC Brasil.

"Nem há ainda um movimento de centro bem constituído, e faltam três anos para a eleição presidencial, quando esse movimento pode aparecer. Mas, nessa lógica de dois polos que se reforçam e se ampliam, o espaço do centro se reduz. Especialmente porque ainda não tem lideranças claras", continuou.

Além do impacto político, há o impacto social nas ruas.

Para Bruno Speck, politólogo da Universidade de São Paulo, "a mobilização dos dois lados, a mesma que foi forte nos últimos dois anos, vai se intensificar. Não será exatamente em torno da figura de Lula, mas as massas já estão mobilizadas, com um espectro bem definido. Esse 'ritual' está pronto para recomeçar".

"De um lado, as pessoas que protestaram nos primeiros meses do ano contra cortes na educação, por exemplo. Essa ponta será galvanizada caso haja a presença de Lula. Do outro lado está a massa de 'indignados', os que protestam contra a corrupção, vestindo verde e amarelo. Esses serão estimulados pela base de Bolsonaro, que tratará uma libertação de Lula como exemplo de 'impunidade' e usará o sentimento de indignação para chamar protestos".

O mercado financeiro, por sua vez, reagiu mal à eventualidade da libertação de Lula - "risco Lula" chamaram-lhe analistas - com o dólar a subir face ao real e a bolsa a cair.

Reações

Além de ter sido noticiado em centenas de jornais mundo afora, o tema "Lula" tornou-se minutos após a leitura do voto do último juiz do STF o mais partilhado na rede social twitter.

Entre os milhões de comentários, um, de Rosângela Silva, namorada e futura mulher do antigo presidente, destacava-se: "Amanhã, vou te buscar".

Fernando Haddad, candidato nas últimas eleições no lugar de Lula, publicou um vídeo onde tocava os acordes da canção "Lula Livre".

Artistas como José de Abreu, Débora Nascimento, Leandra Leal, Maria Ribeiro, Enrique Diaz ou Gregório Duvivier também se congratularam.

A presidente nacional do PT, em comunicado, dada a euforia generalizada no partido, alertava os militantes contra "provocações que podem vir do clima de ódio e do extremismo da direita" e apelava para manterem "a tranquilidade, a mesma tranquilidade com que o presidente está".

Os mais eufóricos, entretanto, eram os membros da vigília Lula Livre que ao longo dos últimos 589 dias acampou em frente à prisão dando bons dias, boas tardes e boas noites ao presidente diariamente.

O clã Bolsonaro, por seu lado, não escondeu a desilusão pela decisão do STF. "Milhares de presos serão soltos e atordoarão a todos", opinou o vereador Carlos Bolsonaro. Para o deputado Eduardo Bolsonaro, o Brasil "solta presos e veta armas, pobres brasileiros". O senador Flávio Bolsonaro, ainda antes da decisão da corte, publicara vídeo a defender a prisão logo após segunda instância, o entendimento vencido.

Ainda sem comentar diretamente a decisão do tribunal, o presidente Jair Bolsonaro elogiou o seu ministro da justiça, Sergio Moro, que condenou Lula em primeira instância.

Moro, por sua vez, disse acreditar que o Congresso venha a mudar a constituição e assim alterar o que ficou decidido no STF ontem. "O STF interpreta as leis e o Congresso redige-as", afirmou ao jornal O Estado de São Paulo.

Decisão

O STF votou, por seis votos contra cinco, a favor da prisão apenas após os processos transitarem em julgado e não logo depois da condenação em segunda instância, decisão que, além de Lula, beneficiou mais 11 condenados na Lava Jato, entre eles José Dirceu, e cerca de 5000 presos. As exceções, sublinhadas pelo tribunal, são em caso de prisão em flagrante delito ou de criminosos considerados perigosos para a sociedade. Mas o tribunal deixou no ar, como destacou Moro, a possibilidade de o Congresso, se assim o entender, alterar a carta constitucional e voltar ao ponto de partida.

Votaram a favor do entendimento que beneficiava Lula dois juízes nomeados pelo próprio ex-metalúrgico, uma por Dilma Rousseff, um por José Sarney, um por Collor de Mello e um por Fernando Henrique Cardoso. E contra uma nomeada por Lula, três por Dilma e um por Michel Temer.

Lula fora condenado por Moro em primeira instância no caso chamado de "tríplex do Guarujá", pela posse ilícita de um apartamento na praia paulista. Viu, posteriormente, o tribunal de segunda instância aumentar-lhe a pena, razão pela qual foi para a prisão. O Supremo Tribunal de Justiça, terceira instância, diminuiu essa pena. Com o novo entendimento, até ao STF julgar o processo e só após esgotados todos os recursos cabíveis, o antigo presidente volta para a prisão.

O político porém tem mais sete processos à perna. Num deles, conhecido como "Sítio de Atibaia", já foi condenado em primeira instância.

Por outro lado, os seus advogados têm um trunfo na manga: pediram recurso ao STF pedindo a suspeição de Moro por parcialidade, com base nas gravações reveladas nas reportagens do The Intercept - a Vaza Jato.

Uma vez aceite esse recurso, a condenação seria anulada e Lula poderia até candidatar-se a cargos públicos - para já não pode ao abrigo da Lei da Ficha limpa que impede condenados em segunda instância de o fazerem.

[atualizado às 21.20]

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