Jornalista premiado da 'Der Spiegel' inventava personagens e testemunhos

Claas Relotius recebeu vários prémios, alguns distinguiram trabalhos em que fabricou personagens e citações. Revista alemã despediu-o e abriu um inquérito

A revista Der Spiegel admitiu esta quarta-feira que um dos seus jornalistas e editor, distinguido com vários prémios, inventou histórias e personagens em reportagens publicadas naquele que é um dos meios mais influentes da Alemanha e de maior difusão na Europa.

A distinção mais recente que Claas Relotius recebeu, já no início deste mês, foi o prémio de Repórter do Ano, por uma reportagem sobre os jovens sírios que iniciaram a revolta que desembocou na guerra civil naquela país.

"O jornalista da Der Spiegel Claas Relotius falsificou histórias próprias e inventou protagonistas e com isso enganou os leitores e os seus colegas", diz o semanário em comunicado. O escândalo foi descoberto depois de uma profunda investigação interna.

Foi outro jornalista, que trabalhou numa história com Relotius entre a fronteira dos Estados Unidos e o México que lançou as primeiras suspeitas e relatou as suas desconfianças aos editores. Juan Moreno era co-autor da reportagem e alertou a redação que tinha dúvidas sobre os testemunhos citados por Relotius. A denúncia foi também uma forma de se proteger, já que o seu nome aparecia no artigo.

Claas Relotius, que trabalhava como editor no título alemão, começou por negar as acusações, mas acabaria por confessar que inventou passagens inteiras não apenas naquele artigo, mas em vários outros.

A Der Spiegel afirma que o jornalista cometeu estas ações "intencionalmente, metodicamente e com intenção criminosa. Por exemplo, incluiu indivíduos nas suas histórias que não conhecia ou com quem nunca havia falado, contando as suas histórias ou citando-as. Em vez disso, revelou o próprio, baseava as suas representações noutros media ou gravações em vídeo. Ao fazer isso, criou personagens sobre pessoas que realmente existiam, mas cujas histórias Relotius fabricou. Também inventou diálogos e citações."

Relotius publicou inicialmente artigos na Spiegel como freelancer - só há ano e meio foi contratado como editor - tendo publicado cerca de 60 artigos na revista ou online. O próprio admitiu que, pelo menos, 14 artigos continham mentiras.

"A pressão para não fracassar cresceu à medida que fui tendo mais êxito"

Nos artigos em questão, encontram-se alguns que foram nomeados ou ganharam prémios como "A última testemunha", sobre um americano que supostamente vai assistir a uma execução como testemunha. "Filhos do Leão", sobre duas crianças iraquianas que foram raptadas e reeducadas pelo Estado Islâmico e "Número 440", uma história sobre supostos prisioneiros de Guantánamo.

No artigo em que responde a várias questões sobre o assunto, a Spiegel afirma, por exemplo, que não sabe ainda se o número de artigos em que o jornalista inventou personagens e citações pode ser maior. E assegura: "A única coisa que se pode afirmar com certeza é que começou agora o trabalho para o descobrir."

A revista alemã vai fazer uma investigação interna no sentido de perceber como foi possível publicar tantas informações falsas, uma vez que, garante, tem um processo bastante minucioso de edição e revisão dos textos publicados.

Claas Relotius, "um ídolo da sua geração", como a própria Der Spiegel lhe chama, foi entretanto despedido, tendo admitido fabricou testemunhos e protagonistas por medo de falhar. "A pressão para não fracassar cresceu à medida que fui tendo mais êxito", confessou.

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