Trump junta uma crise interna real à guerra potencial na Síria

Além da tensão com a Rússia e da eventual intervenção militar na Síria, presidente tem de lidar com as buscas ao escritório do seu advogado, com a investigação de Mueller e com uns republicanos desunidos em ano de intercalares.

Com o mundo concentrado num eventual ataque dos Estados Unidos contra a Síria - que segundo os últimos tweets do presidente, pode acontecer "muito em breve ou nada em breve" -, basta uma olhadela à conta de Twitter de Donald Trump para perceber que a política externa não é a única frente de batalha do inquilino da Casa Branca. Nos 280 carateres que a rede social põe à sua disposição, Trump enfurece-se contra as buscas ao escritório do seu advogado pessoal, acusa o procurador especial Robert Mueller, encarregue de investigar a ingerência russa nas presidenciais de 2016, de ser responsável pelo ponto baixo nas relações entre Washington e Moscovo. E ainda ataca os democratas, enquanto elogia Paul Ryan, o presidente da Câmara dos Representantes, que em ano de eleições intercalares anunciou não se recandidatar.

A linguagem usada para a crise internacional não é muito diferente da que Trump usa para se referir aos problemas internos. Se numa fala em resposta ao "ataque" perto de Damasco, nos outros denuncia as buscas ao escritório de Michael Cohen como "ataque ao nosso país, no verdadeiro sentido do termo".

Na segunda-feira, o FBI realizou buscar ao escritório do advogado em busca de provas sobre o pagamento de 130 mil dólares que fez a Stormy Daniel, antiga playmate e estrela porno, para que não divulgasse a sua relação passada com Trump antes das presidenciais de 2016. O presidente denunciou o caso como um verdadeiro assalto e "um ataque a tudo o que defendemos" e uma "caça às bruxas" por parte de Mueller. As buscas não foram ordenadas pelo procurador especial nem parecem relacionadas com a investigação à ingerência russa, mas terão partido de indícios fornecidos pela equipa de Mueller.

Há meses que os media americanos falam na possibilidade de Trump afastar o procurador especial, mergulhando o país numa verdadeira crise constitucional, uma vez que, denunciam os analistas, essa decisão poderia ser vista como obstrução à justiça, levando em última instância a um pedido de destituição do presidente (o impeachment de que tanto se tem falado) por parte dos democratas. Ontem, o presidente começou o dia a negar essa intenção. "Se eu quisesse demitir Robert Mueller em dezembro, como relata o falhado The New York Times, tê-lo-ia feito. Apenas mais notícias falsas de um jornal enviesado", escreveu no Twitter.

A possibilidade de impeachment parece, por enquanto, não passar de uma miragem. Até porque os republicanos têm a maioria em ambas as câmaras do Congresso e parece pouco provável que votem a favor da destituição do presidente. Mas o partido está tudo menos unido. Nos últimos dias, vários senadores, entre eles Thom Tillis e Lindsey Graham juntaram-se aos democratas para apresentar uma proposta de lei que permita a Mueller desafiar na justiça qualquer decisão de Trump. Um projeto que poderá mesmo avançar para votação no Senado, uma vez que recebeu o apoio do presidente da comissão judicial, Chuck Grassley.

Com eleições intercalares marcadas para novembro - em que vão a votos a totalidade da Câmara dos Representantes, um terço dos senadores e 36 governadores dos 50 estados americanos - os republicanos terão de lutar para manter a maioria no Congresso. Segundo o site FiveThirtyEight, de Nate Silver, os democratas têm boas hipóteses de recuperar pelo menos a Câmara dos Representantes - uma sondagem ali divulgada dá-lhes vantagem no escrutínio com 46,2%, face a 39,6% para os republicanos.

E a saída de Paul Ryan é apenas mais um sinal do mal-estar dentro do partido, inclusive em relação ao presidente. O congressista do Wisconsin garante que não se recandidata por motivos familiares, mas a tensão com Trump não terá sido alheia à decisão.

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