Líder catalão ameaça deixar de apoiar Sánchez: "A paciência não é infinita"

Quim Torra diz que se o primeiro-ministro espanhol não fizer a oferta de um referendo de autodeterminação até novembro,"o independentismo não poderá garantir nenhum tipo de estabilidade no Congresso" ao governo minoritário socialista.

O presidente da Generalitat, Quim Torra, diz que "a paciência dos catalães não é infinita" e ameaça deixar de apoiar o governo minoritário de Pedro Sánchez no Congresso espanhol, caso o primeiro-ministro não assuma "compromissos concretos e corajosos" e haja uma proposta de referendo de autodeterminação até novembro.

"A paciência dos catalães não é infinita e oferecemos de novo a Sánchez a possibilidade de fazer uma proposta sobre como vai facilitar o exercício do direito à autodeterminação da Catalunha", afirmou, anunciando que mandará uma nova carta ao primeiro-ministro espanhol a pedir uma reunião o mais rapidamente possível. "Sánchez tem que assumir compromissos concretos e corajosos. Basta de imprecisão", referiu.

"Caso não haja uma proposta para exercer este direito de autodeterminação de maneira acordada, vinculativa e reconhecida internacionalmente antes de novembro, o independentismo não poderá garantir qualquer tipo de estabilidade no Congresso dos Deputados ao senhor Pedro Sánchez", disse Torra no Parlamento catalão.

Apesar de ter apenas 84 deputados (em 350), Sánchez está no poder depois de ter conseguido aprovar uma moção de censura contra Mariano Rajoy, que contou com o apoio (entre outros) dos independentistas catalães da Esquerda Republicana da Catalunha e do Partido Democrata Europeu Catalão.

Uma das propostas de Sánchez a Torra, no passado, foi um novo estatuto catalão. Algo que agora o presidente da Generalitat rejeita. "A solução não é um novo estatuto. Eu nunca renunciarei a cumprir com o mandato do 1 de outubro porque o direito de autodeterminação não me pertence a mim, nem ao governo catalão nem ao parlamento catalão. É um direito inalienável do povo da Catalunha", afirmou.

"Este governo assumirá todas as consequências", disse Torra. "Um referendo pode ganhar-se ou perder-se, mas a democracia sairá sempre reforçada", acrescentou diante dos deputados catalães. "Queremos construir um estado próprio ao serviço de uma sociedade livre e democrático aberto ao mundo", referiu.

"Não estamos aqui para gerir uma autonomia. Estamos aqui para tornar efetiva a república catalã", foram as suas últimas palavras na intervenção que durou mais de uma hora.

Violência no aniversário do referendo

O primeiro aniversário do referendo independentista ficou marcado pela tentativa de manifestantes invadirem o Parlamento catalão e confrontos com a polícia. Torra rejeitou a violência, um dia depois de ter agradecido aos Comités de Defesa da República que mantivessem a pressão nas ruas.

Torra falou no Parlamento catalão de "gestos isolados que não são representativos nem devem repetir-se". Isto depois de Pedro Sánchez o ter acusado de incentivar os separatistas radicais e ter avisado que "a violência não é o caminho".

Processos judiciais

Torra diz ainda que a situação da Catalunha está também condicionada à resolução dos processos judiciais contra os líderes independentistas "na prisão ou no exílio", referindo-se aos que estão acusados de rebelião e sedição na organização do referendo de 1 de outubro de 2017. "Não aceitaremos um processo injusto, por isso fomos procurar a justiça fora [do país] ", afirmou.

"Não podemos permitir que se persigam cidadãos por defender o direito ao voto", afirmou Torra, anunciando que a Generalitat pediu para ser assistente de todas as causas abertas por perseguição ao independentismo e liberdade de expressão. "Não podemos permitir que a defesa da democracia seja perseguida", indicou, apelando também à "mobilização permanente" da cidadania.

Torra diz que "só podermos aceitar o arquivamento e a anulação do processo judicial", considerando que "se o Estado condenar os presos políticos, estará a condenar a maioria do povo da Catalunha". E deixou a pergunta: "Pensa que não vamos reagir?", para a seguir concluir que "o dia das sentenças será o dia de não retorno".

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