Pablo Escobar. Viúva conta segredos da sua vida com 'el capo'

O abuso e a gravidez aos 14 anos, as amantes, as obras de arte, os pedidos de perdão para que os líderes de outros cartéis lhe poupassem a vida, a ela e aos filhos, depois da morte do marido. A narrativa, em livro, de Victoria Eugenia Henao, uma mulher que foi apaixonada por Pablo Escobar

"Estive apaixonada por ele e por isso fiz tudo o que estava ao meu alcance para proteger a minha família e o meu casamento. Peço com humildade e respeito que me ouçam enquanto pessoa e enquanto mulher. Não iniciei este caminho à espera que me exonerem." Quem é a dona destas palavras de mulher apaixonada que tudo fez por amor à família?

Chama-se Victoria Eugenia Henao e é a viúva de Pablo Escobar. Tem 57 anos e vive exilada em Buenos Aires desde 1995 com a filha, o filho e a nora. Casou-se aos 15 anos com Pablo Escobar, amigo de um dos seus irmãos. Depois da morte do marido mudou-se para Argentina e alterou o nome para María Isabel Santos Caballero. Agora lança o livro sobre os anos que viveu com o mais sanguinário dos traficantes de droga e conta, pela primeira vez, a sua visão da história em Mi vida y mi carcel con Pablo Escobar, cuja versão espanhola foi lançada na passada sexta-feira. O livro não está à venda em Portugal, mas está disponível na Amazon desde julho com o título Mrs Escobar: My Life With Pablo.

Como foi a guerra que o opôs ao cartel de Cali e o Estado colombiano? Qual a sua relação com os paramilitares como Fidel Castaño? Por que investiu tanto dinheiro em arte? Como foram os últimos anos desde que esteve encarcerado na Catedral até ser morto pela polícia colombiana a 2 de dezembro de 1993? O que aconteceu com a família depois da morte do capo da droga colombiano? Que relação tinha com as amantes? Estas e outras questões são respondidas pela viúva na obra em que revela alguns segredos e também a forma como, depois da morte do marido, pediu o perdão dos outros barões da droga para que a poupassem... a ela e aos dois filhos.

Quando conheceu Pablo Escobar Victoria tinha apenas 13 anos e estava longe de imaginar que a sua vida iria ser um autêntico pesadelo e que passaria, para sempre, a ser apontada com a mulher que ousou casar-se com o maior narcotraficante de todos os tempos - o líder do Cartel de Medellín morto pela polícia colombiana a 2 de dezembro de 1993. E é à sua juventude que apela para justificar ter-se casado com ele.

Era 11 anos mais nova que o marido. Conta aliás que quando tinha 14 anos, "sem sentir malícia sexual" e sem ter "as ferramentas adequadas para saber o que significava esse contacto íntimo intenso", foi fortemente abraçada e beijada por ele - ficou paralisada pelo medo, citam vários órgãos de comunicação latino-americanos.

E ficou grávida. Sem saber muito bem o que lhe tinha acontecido, foi visitada por uma mulher mais velha que lhe introduziu no corpo uns tubos que deveria de retirar quando começasse a sangrar. Sem poder dizer nada a ninguém, nem à mãe, viu-se obrigada a ir à escola, mesmo a sofrer de dores intensas.

O dinheiro e as amantes funcionárias públicas

"De um momento para o outro percebi que o crescimento da fortuna do meu marido era sustentado e que a penúria começava a ser coisa do passado", escreve Victoria Eugenia Henao no livro, citada pelo espanhol El Mundo . Para logo contar que no primeiro trimestre de 1978 comprou "uma casa com piscina, várias assoalhadas, garagem e um hall muito amplo, com janelas gigantes."

Victoria fala também das muitas amantes de Pablo Escobar. Mulherengo inveterado, que tinha especial interesse pelas rainhas da beleza. Entre elas encontrou-se Virginia Vallejo, famosa apresentadora de televisão colombiana que ainda trabalhou com o narcotraficante como assessora de imagem. A sua estratégia amorosa passava também por lançar charme a funcionárias que estavam em lugares chave do Estado, obtendo assim informações cruciais que lhe permitiam iludir as autoridades.

"Um grupo de senhoras, pequeno, que além do romance, eram muito úteis para os seus negócios e proteção", diz. "Ocupavam cargos importantes nas entidades do Estado encarregadas de persegui-lo. Pablo foi amante de uma das secretárias do ministro da Defesa, o general Miguel Vega Uribe, que ocupou o cargo entre 1985 e 1986, no governo de Belisario Betancur. Um coronel do Exército que trabalhava para Pablo levou à propriedade de Nápoles a jovem e bonita mulher com quem o meu marido haveria de viver um tórrido romance. E em pouco tempo ele tinha acesso a dados exatos sobre o dia e hora em que se produziriam operações militares contra ele."

Pablo Escobar estendia o seu charme a outros ministérios, conta a viúva. O Ministério das Justiça era também fulcral e por isso não tardou em manter uma relação amorosa com uma funcionária deste organismo, e que lhe daria "informação vital". Escreve a viúva: "Por exemplo, numa sexta-feira foi buscá-lo e contou-lhe que no dia seguinte estava programada uma ação contra vários laboratórios de processamento de coca situados à volta da hacienda de Nápoles. As informações deram oportunidade para que os homens de Pablo mudassem tudo e dessa maneira evitaram perder uma grande quantidade de dinheiro. O meu marido tinha mulheres informadoras em muitos sítios, como o F-2 (Exército), serviço de inteligência da polícia, Interpol e DAS (Departamento Administrativo de Segurança)".

A guerra e a ajuda de Fidel Castaño

Fidel Castaño é uma das personagens que o livro aborda. Trabalhou com Pablo Escobar, que conheceu em 1977, durante anos no mundo do narcotráfico. Mas quando estava preso, Pablo ordenou, a partir de A Catedral, a morte de quatro dos seus sócios principais, amigos dos irmãos Castaño, Fidel e Carlos. Com receio de que poderiam ter o mesmo destino, os irmãos ajudaram a criar Los PEPES (Perseguidos por Pablo Escobar) e juntaram-se ao cartel de Cali que pretendia aniquilar Pablo Escobar e o cartel de Medellín.

"Em Fidel Castaño encontrei um homem respeitoso, inteligente, glamouroso, que gostava de arte - tal como eu - de boa mesa e vinho de qualidade." E Victoria Henao tinha uma belo acervo de arte: Rodin, Botero, Negret, Obregón eram alguns dos nomes que figuravam na sua coleção privada.

As conversas entre a viúva e Castaño versaram muitas vezes sobre essa paixão comum. "Não o vi muitas vezes, mas foram, as suficientes para falarmos durante horas sobre os pintores de que gostávamos, das técnicas mais adequadas, das tendências artísticas mais perduráveis", cita o El Mundo.

"Fidel, por Deus, suplico-lhe, vão-nos matar, necessito da sua compreensão"

E é então que conta o inesperado. Morto o marido, Victoria diz que pediu ajuda a Fidel Castaño. "Escrevo-lhe para pedir que salve a vida aos meus filhos e a mim. Sabe que durante muito tempo supliquei a Pablo para não exercer tanta violência, mas ele nunca me escutou (...) O meu papel sempre foi o de uma mãe comprometida a cuidar e a educar os seus filhos. Peço-lhe que fale com todos os chefes dos cartéis. Fidel, por Deus, suplico-lhe, vão-nos matar, necessito da sua compreensão."

E consegue. Isso e muito mais. Por exemplo, que o filho Juan Pablo, herdeiro natural de Pablo Escobar, fosse perdoado, assim como ser informada de algo que lhe deu grande alegria: Fidel ordenou ao irmão que devolvesse à viúva algumas obras de arte que os PEPE tinham retirado à família, incluindo um Dali.

A transcrição de algumas citações do livro pelo El Mundo termina de uma forma surpreendente. "Senhora, como é que lhe ocorre ligar-me a mim... o seu marido matou-me a Dianita... recorda-se da Dianita?"; "Senhor Presidente, tem toda a razão mas não tenho culpa das loucuras que o meu marido fez. Ajude-me, tenho uma filha e um adolescente..."; "Bom, senhora, apesar da dor que o seu marido provocou a esta família, vou ajudá-la."

O homem a quem Victoria desta vez suplicava era o então presidente colombiano César Turbay, pai da jornalista Diana Turbay, sequestrada pelo el capo de Medellín e que morreu numa tentativa de resgate falhada,

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