O Sul abandonado e a opção de abraçar os partidos da raiva

As eleições italianas vistas pelo jornalista e escritor italiano Roberto Saviano, cuja investigação sobre a Camorra levou a que ficasse sob ameaça de morte

Além das promessas das políticas de bem-estar social, nos votos do Sul pesou a desconfiança (justificada) em relação aos poderes políticos tradicionais.

Quem ganhou e quem perdeu as eleições em Itália? Está tudo bem claro e as percentagens estão disponíveis para todos, assim não partirei dos números para explicar o que significa esta votação. Prefiro partir daquela parte da Itália, onde muitas vezes as coisas podem ser lidas de maneira mais clara, a parte da Itália que menos entrou nesta campanha eleitoral e que menos tem entrado em todas as campanhas eleitorais desde há muito tempo. A parte da Itália onde as forças políticas gostam de angariar votos, mas que, sempre que podem, evitam como a praga. Partamos do Sul da Itália, que nos acostumámos a considerar como um feudo de Berlusconi e, ao mesmo tempo, onde existe historicamente um forte consenso em relação ao Partido Democrata apoiado pelo líder local que, durante décadas, garantiu avalanchas de votos.

E a própria Forza Itália e o PD sofreram nestas eleições uma hemorragia de eleitores que confluíram na Liga [Norte] e no M5S [Movimento Cinco Estrelas]. Este último, com a promessa do rendimento básico, teve um consenso quase plebiscitário, precisamente nas regiões em que, não existindo uma economia competitiva, a única esperança é a política de subsídios.

E também neste caso - há anos que o escrevo! -, o Sul da Itália é uma ferida aberta através da qual se pode olhar para longe. Acontece que são precisamente as regiões do Sul, abandonadas pela política nacional e mantidas fora do debate público, a condicionar a direção que todo o país está destinado a tomar.

Mas, além das promessas das políticas de bem-estar social, nos votos do Sul, especialmente na Campânia, pesou a desconfiança (mais do que justificada) em relação aos poderes políticos tradicionais. Do caso mediático-judicial que se seguiu à investigação de Fanpage.it surgiu um quadro desolador de corrupção, negligência, nepotismo e conflito de interesses; foi a confirmação, para muitos italianos, de que os partidos que até agora estiveram encarregados da gestão da coisa pública não são mais do que centros de poder podres e que nada de bom se pode esperar deles.

Naturalmente, eu não concordo com essa generalização; os partidos são compostos de pessoas e cada uma delas responde pela sua honestidade, pelo seu trabalho e pelo seu compromisso, mas aqui não se trata do que eu penso, mas sim do sentimento dos italianos que se sentiram diante da enésima confirmação de inadequação dos partidos tradicionais. As investigações, os escândalos, as práticas desinibidas e inescrupulosas levaram muitos eleitores do Sul a olhar para mais perto, a deixarem de se concentrar na Europa para começarem a lidar e a preocupar-se apenas com o que acontece à sua volta. Como se pode pensar na Europa se as coisas aqui não estão a correr bem? O ceticismo generalizado foi um apelo às armas e o partido que mais respondeu à necessidade de se envolver na primeira pessoa foi o M5S.

É claro que a promessa do abate de Matteo Renzi foi descartada pelo próprio Renzi e da única maneira que este encontrou nos últimos anos para lidar com o Sul: a promessa teatral da construção da ponte sobre o estreito de Messina (cavalo de batalha do mais grosseiro berlusconismo) e a Apple Developer Academy de Nápoles passaram como o primeiro sinal de uma recuperação económica na zona. Um curso para programadores da Apple, um único curso e, além disso, num contexto de depressão económica, deveria ter dado a Renzi o título de "amigo do Sul". Uma brincadeira.

O abandono do Sul pelos partidos tradicionais levou a uma necessidade de participação, às vezes levada às últimas consequências e propensa a revogar práticas e regras políticas, apenas para sentir que o seu voto, que a sua preferência teve um efeito real. Os italianos, hoje, especialmente os italianos do Sul, querem saber exatamente como o seu voto mudará as suas vidas quotidianas; e se as empresas continuam a deslocalizar o trabalho, se o trabalho no Sul da Itália continua a ser uma esperança frustrada, pelo menos eles querem ter a certeza de que aqueles que os governam cuidarão deles, apenas deles e deles em primeiro lugar.

E muitos dirão: assim nasce o partido da raiva, mas de que raiva estamos a falar? Ainda de uma raiva cega? Ainda de um voto de rebelião? Não. O voto no M5S e na Liga (agora um partido nacional que aspira a representar todos) não é um voto exclusivamente de rebelião, mas é um voto agora fundamentado que, entre outras coisas, tem o mérito de ter secado (e muito) a compra de votos. Desta vez, o eleitorado foi coerente ao dar o seu voto a dois partidos que são um reflexo fiel dos seus eleitores. O voto não foi simplesmente um voto de protesto ou de opinião, mas um voto de identidade.

A narrativa "renziana" produziu o mal que, por sua vez, desencadeou uma espécie de egoísmo social. Agora, o que me interessa é que quem esteja bem seja eu, de modo que a força política que me prometeu atenção, a mim que sou italiano, é a única que posso ouvir. Aquela que me prometeu o rendimento básico num Sul, onde não só falta o trabalho mas também a esperança do trabalho, está a falar comigo.

Na Campânia, o M5S ganhou, e a sua vitória configura-se como um voto de libertação do presidente da Região, Vincenzo De Luca, que é uma expressão dessa política que Renzi tinha prometido abater. No Sul, Renzi tinha duas possibilidades: um longo caminho de reforma, o que significava escolher novos candidatos, ou confiar nos feudos eleitorais - um voto, um emprego; um voto, um favor - e obter rapidamente a vitória esperando que viesse do alto a mudança de rumo no Sul uma vez tomado o poder. Ele escolheu o caminho mais simples e, na questão política mais importante, não conseguiu comprometer-se com um processo de transformação.

O raciocínio no Sul é este: se o Partido Democrata sempre me propôs boas ideias, abertura, justiça, mas nunca conseguiu dar-me nada disso ou sequer aproximar-se de o fazer, então prefiro a ausência de um projeto moral, prefiro pensar a respeito do que me convém agora e que pode não me convir amanhã, prefiro um movimento que não é de esquerda nem de direita, que se define como pós-ideológico, que não se põe questões morais, que reivindica com orgulho a sua própria incoerência: um dia europeístas e outro antieuropeístas; um dia pró-vacinação e outro antivacinação. O M5S e a Liga não enganaram os eleitores, tudo era claro, tudo mudava de um dia para o outro, um fluxo contínuo de notícias cativantes, histórias do Instagram, publicações no Facebook e alguns tweets, dependendo das sondagens.

Mesmo os casos de crime (Macerata) foram usados para fazer uma comunicação política. E, paradoxalmente, isso agrada aos italianos, a possibilidade de não ter obrigações morais, de ser livremente incoerente de acordo com as necessidades do momento.

Ser eleitor de um partido progressista pressupõe carregar nos ombros valores que já nem mesmo o partido para o qual vão os votos segue. Então, qual é o objetivo? Porquê viver a discussão entre a coerência autoimposta, e pela qual devemos lutar todos os dias, e a possibilidade de ser egoisticamente livre?

O M5S não deu nenhuma solução aos eleitores do Sul sobre como relançar realmente a economia, a não ser receitas triviais para racionalizar despesas e promessas genéricas de combater a corrupção. Mas deu algo muito maior: alvos a atacar. Ele capitalizou a frustração, não pedindo em troca comportamentos diferentes, em vez disso apoiou a sintaxe dos discursos de ódio e implantou uma política baseada na perceção da realidade e não na realidade.

Mas à alegação de falta de consistência a Liga adiciona um pormenor que faríamos bem em não negligenciar: a liberdade de se ser mau. Salvini, que, sem distinção de idade, sexo e origem, reenviaria todos os imigrantes, que sempre desprezou o Sul e que agora se apresenta como líder de todo o país, parece ter dito jurando sobre o Evangelho: estar contra o acolhimento, usar um discurso violento e abertamente racista não está em contradição com as raízes católicas. A devoção de Salvini ao Evangelho é idêntica à que os mafiosos têm por Nossa Senhora: pode-se ser cristão falando dessa maneira de alguém que foge da pobreza e da guerra? Não. Podemos acreditar no Evangelho e impedir que milhares de crianças nascidas em Itália obtenham a cidadania? Não.

A 4 de março, em Itália, ganhou o mal-estar, não ganhou a esperança e não ganhou o desejo de um futuro melhor. A 4 de março ganhou a ideia de um Estado fechado, uma nação com fronteiras altas e intransponíveis, intransponíveis para os seres humanos, mas não para o capital criminoso (para eles, as fronteiras estão sempre abertas). A 4 de março ganhou o euroceticismo, impulsionado pela América de Trump e pelo brexit, e perdeu a ideia de uma Europa unida e orgulhosa dos seus direitos, que a tinham tornado o melhor lugar para se viver. A 4 de março ganhou uma estranha forma de niilismo que, proclamando a sua própria libertação de toda a coerência, se torna na liberdade de se ser mau.

Mas qual era a alternativa? Desta vez, não estava lá. A Lega e o M5S ganharam porque não havia nada do outro lado. Nada mais.

Saviano, de 38 anos, saltou para a fama em março de 2006 com o lançamento do livro Gomorra, uma investigação sobre a Camorra, a máfia de Nápoles, a sua cidade natal. Obra, entretanto passada a filme e série de TV, que levou a que fosse alvo de ameaças de morte pela Camorra, estando desde 13 de outubro desse ano sob proteção policial, tendo sido obrigado a sair de Nápoles. No outono de 2008, Saviano anunciou que tencionava sair de Itália, para deixar de viver como um prisioneiro. Desde então já lançou obras como Zero Zero Zero (2013), La Paranza dei Bambini (2016) e Bacio Feroce (2017), sobre o tráfico de droga e da máfia. Nesta semana criticou Matteo Salvini, o líder da Liga, que após o bom resultado nas eleições de dia 4 publicou no Facebook uma mensagem a brindar várias personalidades, entre elas Salvini. "Beba, Matteo, deixe-me ver se posso confiar em si", respondeu o escritor, citando a série de televisão Gomorra.

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