Na Guiné grita-se pelo Benfica... pelo Sporting...e pelo Porto

Os laços dos guineenses com Portugal continuam fortes mais de quatro décadas depois da independência. E o futebol português é vivido com uma paixão africana que se estende à seleção liderada por Ronaldo. Reportagem DN em Bissau

Pontapé de saída

Seis da tarde em Bissau e o toque de corneta a acompanhar o arriar da bandeira no palácio presidencial põe toda a gente em sentido. Felisberto Jorge Mendes pousa o carrinho de mão. Só depois de terminada a curta cerimónia se prepara por fim para sair da Praça dos Heróis Nacionais. De que clube é? "Do Porto." A T-shirt rosa e os calções verdes não tinham dado nenhuma pista, mas aqui estava aquilo que já sabíamos ir ser mais difícil de encontrar na capital guineense: um adepto portista. Não que sejam poucos, e já lá vamos, mas porque há uma Casa do Benfica e uma Casa do Sporting e não há ainda uma do clube do norte, garantem-nos. "Gosto do Porto desde que nasci. Por causa do Deco e do Quaresma. E festejei muito termos sido campeões neste ano", diz Felisberto, de 21 anos, trabalhador especializado "no que aparece".

Primeiro remate à baliza

A tinta vermelha passou a rosa gasto e o próprio edifício já teve melhores dias, mas a Casa do Benfica em Bissau "é a Casa do Benfica, o maior clube da Guiné", garante Marcelino Carlos Fonseca, sentado à porta com mais uma meia dúzia de adeptos. Entusiasmado com o interesse da dupla de jornalistas portugueses, desaparece por uns minutos para logo reaparecer com fotografias em que surgem Nuno Gomes e "o grande Mantorras". Foi uma visita há uns anos destes jogadores a Bissau que perdura nas conversas. Chega, entretanto, um miúdo com camisola do Sporting. Não está perdido. É Laurindo, de 12 anos, filho de Marcelino. O pai desculpa-se a rir por ter falhado a doutrinação clubística e passa a mão pelo cabelo do filho. "Eu amo o Sporting", diz este. E ama tanto que se oferece para nos levar até à casa dos leões, também ali nas imediações do Estádio Lino Correia.

Segundo remate à baliza

A Casa do Sporting está mais bem cuidada do que a do Benfica, talvez por isso Laurindo tenha feito tanta questão de nos levar até ela. Pintada de verde e branco, mostra ainda à porta dois leões dourados. A atual crise de direção leonina é tema tabu, preferem falar de futebol jogado ("tentamos ver o máximo de jogos em Portugal") e Ney, de 17 anos, apresenta-se mesmo como titular da equipa feminina do Sporting Clube de Bissau, fundado em 1936, 38 anos antes da independência da Guiné-Bissau e já com outros 44 anos de história em cima (o Benfica de Bissau, esse, é de 1944). Para a foto, a enérgica Ney vai buscar a camisola às riscas e veste-a por cima de uma vermelha... do Bayern de Munique.

Um golo para mais tarde recordar

É Tiago Bastos, delegado do AICEP em Bissau e sportinguista, que me alerta para uma doação de equipamento do Porto às crianças do Lar Betel, instituição que acolhe órfãos e fica a caminho do aeroporto. Dá-me o contacto de Maria José Ferreira, enfermeira de Aveiro que há uma década é visita assídua da Guiné. Combinamos encontrar-nos no Hotel Império e ir de táxi. Mesmo sendo um Mercedes, desse azul metalizado que é regra nos transportes públicos guineenses, o carro avança aos soluços no caótico trânsito de Bissau, sobretudo no momento de cruzar o mercado de Bandim. Fico a saber que Maria José pertence à MSH - Missão Saúde para a Humanidade e que desta vez trazem uma prenda muito especial para as crianças que apadrinham graças à iniciativa de um dos membros, o médico Fernando Pinheiro. "Estes são equipamentos de outras épocas, que não podem ser usados pelos atletas nem comercializados, pelo que o mais certo seria serem destruídos. Ora, a minha relação com o Porto, onde fui médico muitos anos, levou-me a sugerir este destino bem mais útil para as camisolas e os calções. E nada há de clubístico nisto. Ponha o Benfica, o Sporting ou outro clube qualquer equipamento à disposição e nós teremos todo o gosto em trazê-lo e oferecê-lo a estes miúdos incríveis", diz Fernando Pinheiro, já depois da festa que foi a entrega do vestuário. De repente, uma pequena multidão, 40 meninos e meninas trajados à portista, começam uns aos saltos, outros a jogar à bola, num desafio à rapidez do fotógrafo do DN.

Visto da bancada

António José Alves de Carvalho é embaixador em Bissau há menos de um ano mas, garante, é tempo mais do que suficiente para perceber "a força dos laços entre guineenses e portugueses". E a melhor prova é mesmo a clubite lusitana, que "se sente com muita força e sobretudo muita genuinidade. E essa força representa a ligação sonhada, mítica - para outros já realizada -, com Portugal. Este afeto grande por Portugal é traduzido pelo futebol, um desporto de multidões, que entusiasma facilmente e que aqui é vivido nesta perspetiva da ligação entre os dois povos. Esse afeto é também sentido pela seleção portuguesa", sublinha o diplomata, que preparou tudo para que o Centro Cultural Português seja ponto de encontro de todos em Bissau durante o Mundial na Rússia.

Comentador é da equipa da casa

O Estádio Lino Correia transforma--se em sala de música para um concerto de Dulce Pontes a assinalar o 10 de Junho, Dia de Portugal. De acesso livre, são alguns milhares os guineenses e portugueses que a ouvemcantar Lusitana Paixão em dueto com Eneida Marta. Antes, tinham já brilhado com Mindjeris di Pano Preto, de José Carlos Schwartz. Mas antes de a música começar, e empolgado por estar num estádio a celebrar Portugal, o jornalista Braima Darame, da Rádio Jovem, já tinha oferecido um relato fictício de um golo da seleção, pedindo a todos que gritassem por Portugal. E gritaram.

Fora de jogo

Rui Rio escolheu Bissau para passar o seu primeiro 10 de Junho como líder do PSD. Programa cheio em Bissau, entre encontros políticos e económicos, mas com um momento especial logo no início: a deposição de uma coroa de flores no cemitério onde estão combatentes portugueses. À sua espera estava Fernando Edgar, guineense de 50 anos que diz ser filho de um furriel português, pede ajuda para saber quem é o pai e também quer ser reconhecido como português. A conversa com Rio, antigo presidente da Câmara do Porto, tinha um peso especial: "Acredito que o meu pai é do norte. Sinto isso no coração", diz o fundador da Associação Fidju di Tuga. "Sou também do Porto, do clube", acrescenta.

Livre longe da área

Se o arquipélago de Bijagós é remoto, a ilha de Soga ainda é mais remota. A ponto de as crianças cercarem os raros brancos que lá chegam, pegarem e olharem para os braços curiosas com o tom da pele e puxarem os pelos surpreendidas - posso dar o meu testemunho. Mas não faltam os miúdos com camisolas do Real Madrid, sempre o 7 de Cristiano Ronaldo. E na hora da despedida até aparece um adulto vestido à Benfica a perguntar se somos também. Alguém ser do Vitória de Setúbal não o entusiasmou, mas um abraço ao benfiquista fotógrafo não falhou.

Canto em cima dos 90

Regresso a Bissau com passagem por Bolama, antiga capital da Guiné colonial. Praça central com o edifício inspirado na Casa Branca e a estátua, agora em cimento, de Ulysses S. Grant, o presidente americano que em 1870 liderou uma arbitragem internacional que confirmou a ilha (Bolama tanto é nome de cidade como de ilha) como portuguesa. Chão de terra batida e dois miúdos de cócoras a desenhar táticas de jogo. Um deles com o equipamento rosa que já foi o alternativo do Real Madrid e, claro, Ronaldo escrito nas costas. "É o melhor do mundo."

Prolongamento

Há uma placa em frente a uma casa no bairro da Ajuda a relembrar que ali nasceu Ederzito António Macedo Lopes, "o herói improvável". Batemos à porta e vem uma prima, Dircia, que está zangada com o selecionador português por não ter levado Eder à Rússia. "Ele merecia." E relembra como Bissau festejou em 2016 aquele golo mágico no Stade de France, fazendo Portugal campeão da Europa. Caetano Pestana, diretor da EuroAtlantic, confirma. Ele viveu aquela noite de festa na Guiné, "ainda por cima com um golo de Eder a ser decisivo". Agora regressámos horas antes do jogo com Espanha. Mas a Lusa conta como foi em Bissau: o terceiro golo de Ronaldo foi celebrado com abraços entre guineenses.

O DN viajou a convite da EuroAtlantic

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Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...