"Na Colômbia hoje a paz é irreversível"

O presidente da Colômbia, que faz hoje uma visita de Estado a Portugal e recebe um doutoramento honoris causa na Universidade Nova, fala ao DN do desafio do processo de paz com as FARC, que lhe valeu o Nobel da Paz em 2016.

Nesta entrevista por escrito, Juan Manuel Santos debruça-se também sobre o combate ao narcotráfico e a crise política na vizinha Venezuela. Está pela segunda vez em Portugal neste ano (veio a Fátima para o centenário das aparições), tendo a visita de Estado prevista para junho sido adiada devido aos incêndios de Pedrógão e a um atentado em Bogotá.

Conseguiu que a guerrilha das FARC assinasse um acordo de paz depois de mais de 50 anos de conflito. Como é que está a ser implementado esse acordo e que dificuldades existem?

A implementação avança a bom ritmo, mais rapidamente do que em qualquer outro processo de paz no mundo, apesar das dificuldades logísticas próprias de um processo desta natureza. Desde a assinatura do acordo não houve um só confronto entre as Forças Armadas e as FARC. Nem um só ferido, nem um morto nem um só civil afetado. Para trás ficou todo o sofrimento causado pelo conflito. As armas foram entregues e destruídas sob o controlo da Missão de Verificação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. É o processo de desarmamento com o maior número de armas entregues por combatente nos processos de paz conhecidos no mundo. Também é o mais rápido de todo. Estamos a avançar com os programas de desenvolvimento rural e fortalecimento da presença do Estado nas regiões mais afetadas pelo conflito. Graças à paz, em 2017, pudemos intervir em 40% do território afetado por minas antipessoais e o objetivo é que, em 2021, a Colômbia fique livre deste flagelo. Também subscrevemos acordos de substituição voluntária com 80 mil famílias que vivem nos municípios que concentram a maioria dos cultivos de coca. O Congresso está a trabalhar nas leis necessárias para a justiça transicional e para facilitar a reincorporação social e política das FARC. Hoje a paz é irreversível.

Também está a negociar com a guerrilha do ELN. Que diferença existe em relação às negociações com as FARC?

São duas organizações distintas, com estruturas e interesses distintos. A dinâmica da negociação é por isso diferente. Mas claramente os processos devem convergir.

Estava previsto ter vindo em junho a Portugal, mas o luto nacional pelos incêndios de Pedrógão e um atentado em Bogotá alteraram esses planos. Esse ataque foi uma situação esporádica ou a paz é algo impossível?

Deixe-me começar por expressar novamente a nossa solidariedade e as nossas condolências ao povo e ao governo portugueses por esse terrível incêndio. Quanto a esse atentado, foi um ato isolado e que não põe em risco os passos firmes e decididos que a Colômbia está a dar a caminho da paz.

Na luta contra o narcotráfico houve um aumento dos cultivos ilícitos. Que significa isso e o que pode ser feito para reverter a situação?

Apesar de o aumento recente nos preocupar, o acordo de paz representa uma oportunidade única para encontrar uma solução definitiva para o problema dos cultivos ilícitos. Agora, pela primeira vez, podemos oferecer alternativas reais e sustentáveis aos camponeses. Temos um plano de substituição voluntária com projetos produtivos, rendimentos e assistência técnica e acesso a terras. Os acordos com as comunidades vão permitir-nos substituir 50 mil hectares de coca. Mantemos igualmente uma política de erradicação forçada dos cultivos comerciais. Neste ano, esperamos erradicar 50 mil hectares com a nossa força pública. Já atingimos 80% dessa meta.

Os EUA têm sido os maiores aliados da Colômbia no combate ao narcotráfico. Já se reuniu com o presidente Trump, que ameaçou cortar no apoio norte-americano se Bogotá não conseguir travar o cultivo e o contrabando de drogas. Como qualifica hoje as relações entre Colômbia e EUA?

Muito boa. A Colômbia construiu uma aliança estratégica com os Estados Unidos que conta com o apoio bipartidário em Washington. É uma relação que abarca todos os aspetos, segurança, comércio, investimento, educação. Na nossa recente reunião, o presidente Trump manifestou o seu apoio ao acordo de paz e o seu desejo de manter a luta contra o narcotráfico. No Congresso, tanto republicanos como democratas apoiaram os programas de cooperação e apoio à Colômbia. Prova disso é a aprovação por parte do Congresso do programa Paz Colômbia que inclui um importante pacote de ajuda económica para o pós-conflito.

Também falou com o presidente Trump sobre a situação na Venezuela. Como vê a Colômbia a crise política do seu vizinho? E o que pode fazer para ajudar sem ser acusada de ingerência?

A crise política na Venezuela preocupa-nos muitíssimo. A ninguém convém que se consolide uma ditadura num país tão importante. A partir da Colômbia insistimos no nosso apelo a procurar uma saída pacífica para a crise.

É possível que a América Latina dê um salto em frente quando a maior economia regional, o Brasil, enfrenta uma crise não só económica mas também política?

Apesar do choque económico que enfrentámos no ano passado, há países da região como a Colômbia que conseguiram manter o crescimento, ajustando as finanças públicas, sem descuidar dos avanços sociais. Entre 2000 e 2016, a economia da Colômbia quase duplicou em termos reais. Espero e confio que o Brasil possa recuperar o caminho do crescimento económico. É um país que pesa muito na região.

As previsões apontam para um crescimento da economia colombiana de quase 3%, acima do registado no ano passado, mas abaixo dos valores dos seus primeiros anos na presidência. O processo de paz pode dar um novo alento à economia e ao investimento estrangeiro?

A Colômbia enfrentou com sucesso, sem deixar de crescer, um golpe externo muito duro com a queda dos preços do petróleo. Agora, superada a tempestade e sem conflito, a economia vai retomar o caminho do crescimento sólido que tivemos. Todos os estudos coincidem que a paz deve trazer um crescimento adicional de pelo menos 1% do PIB por ano. Dou dois exemplos. O potencial agrícola e agroindustrial da Colômbia é enorme. Esteve durante demasiado tempo travado pelo conflito. Agora esse potencial pode tornar-se realidade. O turismo é outros dos setores mais dinamizados pela paz. Já superámos todos os níveis da chegada de turistas do mundo inteiro, atraídos pela beleza da Colômbia e que podem agora conhecer e desfrutar com tranquilidade. Com a paz haverá mais investimento das empresas locais e estrangeiras e isso significa mais emprego e mais oportunidades em todos os cantos da Colômbia. Temos além disso desenhado um plano de incentivos fiscais para as empresas que invistam nas zonas antes em conflito.

Nesta visita a Portugal espera assinar novos contratos? Casos de sucesso como o da Jerónimo Martins podem atrair outras empresas portuguesas?

A Jerónimo Martins não é a única empresa portuguesa a investir com sucesso na Colômbia. Temos visto chegar também empresas hoteleiras como o Grupo Pestana, assim como outras dedicadas à construção, aos serviços petrolíferos, farmacêuticas, entre outras. O seu sucesso é um sinal magnífico para as outras empresas portuguesas que veem na Colômbia o potencial de uma economia dinâmica, com uma classe média em crescimento e localizada estrategicamente na América Latina. Um dos objetivos desta visita é precisamente dar a conhecer as nossas políticas em temas económicos e de investimento, assim como o enorme potencial de desenvolvimento que tem a Colômbia.

Quando os portugueses pensam na Colômbia, também pensam em Gabriel García Márquez ou Shakira. De que outra forma podem reforçar-se os laços entre os dois países?

Queremos fortalecer o nosso comércio bilateral e o investimento mútuo. Acreditamos que existem grandes complementaridades entre as nossas economias. E grandes oportunidades para reforçar os nossos vínculos comerciais e económicos. Nesse mesmo sentido, temos de ampliar o turismo mútuo. Quero convidar os portugueses a ir à Colômbia e a descobrir um país vibrante, que cresce e progride. Um país de pessoas amáveis e sorridentes, de uma grande diversidade e riqueza culturais. Um país excecional pela beleza natural. Somos o segundo país com mais biodiversidade do planeta, com paisagens únicas. Esperamos-vos de braços abertos.

Por último, algo mais pessoal. O que é que alguém que foi presidente da Colômbia e ganhou um Nobel da Paz pode fazer quando deixar a Casa de Nariño? Pensa voltar ao jornalismo?

Tenho a certeza de que me vou retirar da política, pois não tenho nenhuma pretensão em continuar agarrado ao poder. O jornalismo está no meu sangue, por isso nunca o deixarei, mas o que quero realmente fazer quando acabar o meu mandato é escrever e, se tiver a oportunidade, ser professor.

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