Julian Assange: herói ou vilão?

O fundador da WikiLeaks foi detido em Londres, depois de quase sete anos exilado na embaixada do Equador no Reino Unido. Os EUA querem a sua extradição, acusando-o de conspiração.

Ativista e defensor da verdade para uns. Narcisista que pôs em risco inúmeras vidas ao divulgar documentos secretos norte-americanos para outros. Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, foi detido esta quinta-feira após sete anos exilado na embaixada do Equador em Londres e enfrenta agora um pedido de extradição para os EUA, onde é acusado de conspiração e arrisca uma pena até cinco anos de prisão.

Julian Paul Assange nasceu na Austrália a 3 de julho de 1971 e estudou programação, matemática e física na Universidade de Queensland e de Melbourne, sem ter contudo acabado qualquer curso. O jovem pirata informático e programador, hoje com 47 anos, fundou em 2006 a WikiLeaks, uma organização especializada na análise e publicação de informações secretas sobre guerra, espionagem e corrupção. Desde então, já divulgou milhões de documentos.

Assange e a WikiLeaks saltaram para a ribalta em 2010, após a revelação de um vídeo de um bombardeamento norte-americano no Iraque, no qual morreram vários civis, ao qual se seguiu a divulgação dos diários do Afeganistão e do Iraque e da correspondência diplomática dos EUA.

Tudo material que tinha sido fornecido por Chelsea Manning (que foi condenada por espionagem e indultada no final do mandato do presidente Barack Obama, voltando novamente a ser presa por não colaborar com o grande júri que estará a investigar a WikiLeaks). A organização também divulgou material de Edward Snowden, referente ao trabalho de vigilância global da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA, tendo este conseguido asilo na Rússia.

Snowden reagiu no Twitter ao vídeo da detenção de Assange. "Os críticos podem congratular-se, mas este é um momento negro para a liberdade de imprensa", indicou, lembrando que o australiano é um editor e um jornalista vencedor de vários prémios.

Acusações sexuais

Em dezembro de 2010, no mesmo ano das primeiras grandes revelações de WikiLeaks, Assange foi detido em Londres pelas autoridades britânicas, em resposta a um mandado de detenção internacional emitido pela Suécia, que o queria interrogar por violação e agressão sexual de duas mulheres. Os factos teriam ocorrido durante uma visita de Assange a Estocolmo, em agosto de 2010, e a primeira denúncia foi encerrada. O ativista foi autorizado a sair do país, mas em setembro o processo foi reaberto.

O fundador da WikiLeaks sempre alegou que ambos os encontros tinham sido consensuais, negando as acusações e dizendo que faziam parte de uma campanha contra ele. O objetivo era extraditá-lo para os EUA, onde seria julgado pelo seu trabalho na WikiLeaks. No ano passado, o Departamento de Justiça revelou inadvertidamente a existência de um processo contra Assange, mas só esta quinta-feira foi conhecida a acusação.

Segundo o Departamento de Justiça de EUA, Assange é acusado de conspirar com Manning para descobrir uma password e aceder aos computadores do Pentágono e "encorajar ativamente" a então analista a fornecer mais informações. Enfrenta uma pena máxima de cinco anos de prisão e o pedido de extradição que os EUA enviaram ao Reino Unido será analisado a 2 de maio.

Depois de ter sido detido em Londres, Assange pagou uma fiança em dezembro de 2010, garantindo que podia aguardar a decisão da justiça britânica sobre a sua extradição em liberdade. O processo prolongou-se até que, em maio de 2012, o Supremo Tribunal britânico decidiu que devia ser extraditado para a Suécia, para ser questionado.

Exilado na embaixada

Diante dessa decisão do tribunal, Assange refugiou-se na Embaixada do Equador a 19 de junho de 2012, temendo ser deportado para a Suécia -- e consequentemente para os EUA. Foi então emitida uma ordem de captura por parte dos juízes britânicos, visto o fundador da WikiLeaks ter violado as condições da sua fiança, pelo que arriscava ser detido se deixasse o edifício em Knightsbridge. Durante anos, vários agentes vigiaram em permanência a embaixada.

Por este crime poderá ter que cumprir uma pena até um ano de prisão, tendo já esta quinta-feira sido considerado culpado por um juiz britânico que o acusou de ser "um narcisista que não consegue superar o seu próprio interesse egoísta". A sentença deverá ser conhecida no próximo mês.

Entretanto, as autoridades suecas interrogaram-no na Embaixada do Equador. Tendo a maior parte dos crimes prescrito, a investigação foi dada como terminada em maio de 2017 e o pedido de extradição revogado. Contudo, um dos crimes só prescreve em agosto de 2020 e a investigação pode ser retomada se Assange voltar à Suécia.

Uma das advogadas de uma das alegadas vítimas disse à Reuters esta quinta-feira que esperam que a justiça sueca possa reabrir o processo. "Vamos fazer tudo o que pudermos para que os procuradores reabram a investigação criminal preliminar e para que Assange seja extraditado para a Suécia e julgado por violação", indicou Elisabeth Massi Fritz.

Viver na embaixada do Equador

Em agosto de 2012, menos de dois meses depois de Assange ter entrado na embaixada, o Equador concedeu-lhe asilo político.

Em 2013, quando saiu o filme biográfico O Quinto Poder, em que o ator Benedict Cumberbatch faz de Assange, este contou como era viver na embaixada, num pequeno escritório convertido em quarto, equipado com uma cama, telefone, um candeeiro com lâmpada ultravioleta para substituir a luz do sol, um computador com acesso à internet, um duche, uma passadeira e uma pequena kitchenette. Recebia então constantes visitas, incluindo de várias celebridades como Pamela Anderson, que chegou a ser apontada como sua namorada. No Twitter disse estar "em choque".

A determinada altura, Assange chegou a ter a companhia de um gato, mas teve que o dar depois de a embaixada equatoriana começar a fazer exigências em relação ao cuidado com "alimentação e higiene" do felino. Em outubro de 2018, a embaixada emitiu novas regras para Assange, ameaçando retirar-lhe o asilo.

Em primeiro lugar, o fundador da WikiLeaks devia evitar fazer comentários políticos online -- chegou a ficar sem Internet em março, mas passou então a poder ter acesso ao Wi-fi da embaixada no portátil e no telemóvel. Além disso, tinha que pedir autorização com três dias de antecedência para qualquer visita que recebesse, estando proibido de qualquer atividade considerada "política" ou que pudesse interferir com os assuntos internos de outros países.

A partir de 1 de dezembro de 2018, passou também a ter que pagar a sua comida, roupa lavada ou outros custos relacionados com a sua estadia na embaixada. E de pagar também os exames médicos que tinha que fazer regularmente.

Críticas à decisão do Equador

O presidente que lhe deu asilo, Rafael Correa, reagiu esta quinta-feira à decisão do seu sucessor, Lenín Moreno, de retirar essa proteção ao fundador da Wikipedia.

"'Decisão soberana', que maneira de chamar a maior canalhada e cobardia! Isto nunca será esquecido em toda a humanidade. Um dos atos mais atrozes, fruto do servilismo, da vileza e da vingança. A história será implacável com o culpado de algo tão atroz", escreveu no Twitter.

Moreno confirmou precisamente no Twitter ter retirado o asilo diplomático a Assange por "violar reiteradamente as convenções internacionais e o protocolo de convivência". No vídeo, Moreno disse que pediu ao Reino Unido a garantia de que Assange não será extraditado para um país onde possa ser torturado ou condenado a pena de morte. "O governo britânico confirmou-o por escrito, de acordo com as suas próprias regras", indicou.

Os polícias que prenderam Assange "foram convidados a entrar na embaixada pelo embaixador", segundo o comunicado da Scotland Yard, a polícia britânica. O site da estação de televisão Russia Today, onde Assange tem um programa de entrevistas, publicou um vídeo do momento em que o fundador da WikiLeaks é arrastado para fora da embaixada pelos agentes britânicos.

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