Do cosplay ao anime, passando por ikebana e bolo luso-japonês: Lisboa celebra o Japão

Conversa com Yuka Iwanami, do setor cultural da embaixada japonesa em Portugal, sobre a Festa do Japão, que volta a ter lugar em Lisboa, sábado das 14 às 22 horas, desta vez no Jardim Vasco da Gama, na zona de Belém. Será um momento de celebração da cultura nipónica e dos laços com cinco séculos entre os dois povos. E também uma afirmação do softpower da terceira maior economia mundial.

Esta Festa do Japão em junho já começa a ser uma tradição anual em Lisboa. Acontece também noutras capitais europeias ou Lisboa é caso especial?

Em algumas capitais europeias também é organizada a Festa do Japão, como, por exemplo, o Japan Matsuri em Londres. Em Paris também há uma festa chamada Japan Expo todos os anos. No caso de Lisboa, é algo peculiar porque a Embaixada do Japão faz parte da organização e, noutros países, a Embaixada apenas apoia o evento que já existe. Nesse sentido pode-se dizer que é um caso especial.

Se tivesse que apontar quatro ou cinco atrativos para a Festa deste sábado, quais escolheria?

Primeiro, destaca-se o Quiz Tanabata, que consiste num jogo de perícia sobre o Japão. Serão feitas várias perguntas seguindo um sistema de resposta "verdadeiro ou falso" e quem possuir um bom nível de conhecimento sobre o Japão terá a oportunidade de ganhar um bilhete de avião para o Japão, para duas pessoas, patrocinado pela Air France. Também será de destacar as atuações culturais em palco. Começando com as apresentações das diversas entidades que divulgam as artes marciais em Portugal, passando pelo desfile de cosplay, pelas danças tradicionais japonesas com a participação de crianças japonesas, pelas apresentações de shamisen (instrumento japonês de cordas) e taiko (tambores). Deverá ser um momento muito animado em palco! O tema desta Festa é o Festival Tanabata, um evento anual pitoresco e romântico. Diz a lenda que um casal representado pela estrela Vega e pela estrela Altair, separado pela via láctea, é permitido reencontrar-se uma vez ao ano, na noite de 7 de julho. Nas hastes de bambu são pendurados recortes de papel colorido e cartões compridos - tanzaku - com os desejos escritos na expectativa das estrelas atenderem a esses desejos. Os participantes e, Lisboa poderão experimentar esta tradição japonesa na tenda Tanabata, onde poderão desenhar nos tanzaku e escrever os seus próprios desejos, pendurando depois os cartões entre as árvores. Participem neste evento alusivo ao Tanabata!. Na tenda da Embaixada decorrerão várias demonstrações/ workshops, nomeadamente, Ikebana (a arte das flores mais conhecida no Ocidente como arranjos florais), Origami (técnica de dobragem com papel), Haiku (poesia japonesa), Furoshiki (embrulhos com tecido), jogos como o kingyo sukui (apanha do "peixinho dourado" de papel), e também, noutras tendas culturais, os participantes poderão experimentar varias tradições japonesas. Façam parte desta dinâmica cultural japonesa! Na área da gastronomia, poderão apreciar a comida japonesa. Na área comercial, poderão ter uma melhor noção do mercado japonês com a exposição de carros japoneses. Em algumas tendas vão ser vendidos produtos japoneses quer alimentares quer artigos da cultura pop japonesa.

Sente que existe em Portugal uma forte atração pela cultura popular japonesa, do anime ao karaté?

Sinto, sim. Estou muito feliz por constatar que muitos portugueses sentem-se atraídos pela cultura japonesa. Conheço vários portugueses que praticam rigorosamente as artes marciais como o karaté e também pude verificar num evento anterior em que a Embaixada participou, o Iberoanime, que há um grande numero de fãs da cultura japonesa. Alguns até aprendem a língua japonesa através do anime e da manga. Sinto que há efetivamente uma boa influência deste softpower japonês que se reflete nesta atração pela cultura.

E em termos de cultura mais erudita? Os portugueses conhecem escritores e cineastas atuais? Ou ficam-se por clássicos como Mishima e Kurosawa?

Não será tanto como o dinamismo da pop-culture, mas, também vejo que há muitos portugueses que são atraídos pelos clássicos, como os que menciona, e por escritores mais atuais como por exemplo Haruki Murakami ou o cineasta Hirokazu Koreeda.

Hoje é segunda secretária para a Informação e Assuntos Culturais na embaixada em Lisboa e fala português. Como aprendeu a língua?

Quando comecei a minha carreira no Ministério dos Negócios Estrangeiros, fui instruída para estudar a língua portuguesa como especialista nos países lusófonos. Depois de estudar português um ano em Tóquio, vim a Lisboa aperfeiçoar os meus conhecimentos de língua portuguesa nas universidades durante dois anos. Graças aos professores e amigos tão simpáticos de Portugal, aprendi não só a língua mas também a cultura. De tudo isto resultaram bonitas recordações e lindas amizades que ainda continuam hoje.

Os japoneses em geral conhecem a ligação histórica entre os dois países, sabem que os portugueses foram em 1543 os primeiros europeus a chegar a arquipélago?

Não é exagerado dizer que todos os japoneses sabem deste facto. O evento da chegada dos primeiros europeus, que foram os portugueses, é um momento muito importante na história do Japão. Portanto, na escola, todos aprendem este facto e sempre sentimos uma ligação forte, especial e histórica com os portugueses.

Sei que haverá Kasutera, ou Castela, à venda na festa. Quer explicar este bolo japonês tão típico de Nagasáqui?

Não sendo especializada nesta questão, apenas posso adiantar que Kasutera é efetivamente um doce típico de Nagasaki que recebeu influência dos portugueses aquando da chegada ao Japão. A receita do tradicional pão-de-ló português foi utilizada na confeção da Kasutera. Também a palavra Kasutera está relacionada com a língua portuguesa. Este bolo, que é muito apreciado no Japão, passou a representar um dos símbolos mais fortes da longa relação entre o Japão e Portugal, a qual dura desde o século XVI.

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