Filho transexual de governador do Rio sente "vergonha alheia" do pai

Erick Witzel será oposição a Wilson Witzel, o eleito contra todas as expectativas que defende a execução de criminosos armados e é contra casamento entre pessoas do mesmo sexo

Erick Witzel, filho transexual de Wilson Witzel, o governador do Rio de Janeiro eleito no dia 28 de Outubro, diz que teve "vergonha alheia" do pai nos debates e que sentiu que o perdeu quando descobriu que ele estava numa fotografia em que dois apoiantes de jair Bolsonaro destruíam uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, executada em março.

"A minha relação com o meu pai sempre foi fria e distante mas pacífica", conta Erick, que nasceu há 24 anos como menina mas mudou de sexo e desde este ano registou oficialmente a troca de nome próprio. Em entrevista ao portal UOL, Erick, que é formado em gastronomia, conta que os últimos dois meses viraram a sua vida de cabeça para baixo, depois do pai, candidato pelo Partido Social Cristão, contra sua vontade, ter contado a sua história.

"Eu não queria a minha imagem e a minha condição de género associadas às causas dele", afirma. De então para cá, Erick convive com mensagens de ódio nas redes sociais - acusam-no de ser "a vergonha da família" e mandam-no "voltar para o armário" - e teve de assumir a sua condição de transgénero, até então desconhecida de chefes e de colegas, no trabalho.

Em simultâneo, Erick, que nunca foi muito politizado, começou a sentir-se nos antípodas das ideias defendidas por Wilson, apoiante de Bolsonaro, contrário ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e defensor da execução de criminosos armados. "É mirar na cabecinha e fogo", disse em entrevista já depois de surpreendentemente eleito - começou com 1% nas primeiras sondagens de campanha e acabou com quase 60% na segunda volta.

"O Brasil não tem pena de morte, como se propõe executar alguém sem sequer julgar, como um candidato por um partido cristão propõe isso, então e o mandamento 'não matarás'?", pergunta-se Erick. Mas o pior foi quando soube que o pai estava na fotografia em que Rodrigo Amorim, deputado estadual do PSL, o mesmo de Bolsonaro, destruía a placa em homenagem a Marielle Franco. "Quando eu vi a foto ainda não aprecia o Wilson [o filho refere-se ao pai pelo nome], depois investiguei o contexto e ele estava lá, eles vibravam e cantavam". Mais tarde o governador eleito pediu desculpas à família de Marielle pela atitude.

Desde então, Erick passou a sentir "vergonha alheia" a cada debate do pai, a interessar-se ainda mais pela vida de Marielle e a participar em ações políticas. "Ele disse que preservaria a família e que seria contra a ideologia de género, acho que vai haver uma caçada à população LGBT, serão tempos de muita luta, eu serei oposição até ao final", continuou o cozinheiro que continua a realizar tratamento de transição hormonal e vive com uma produtora cultural.

Até esta eleição, apesar da reação distante, Erick diz que o pai, que tem mais três filhos de outro casamento, sempre respeitou a sua condição. Agora afastados, o filho do governador eleito afirma que a mãe e um irmão, do lado materno, foram o seu principal apoio.

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