"Fidel é um moralista e um tático. Percebe que esta é uma saída"

José Fernandes Fafe, embaixador de Portugal em Havana entre 1975 e 1977, comenta a visita de Obama a Cuba.

Fidel Castro é "um monstro da história" que "vivia, comia e dormia política", conta José Fernandes Fafe, que enquanto embaixador de Portugal em Cuba entre 1975 e 1977 privou de perto com o líder da revolução cubana. Mas, citando o lema "pátria ou morte, venceremos", o ex-embaixador lembra também que Fidel é "um moralista e um tático" que olhará com pragmatismo para a visita a Cuba do presidente dos EUA, Barack Obama. "Percebe que esta é uma saída", refere, explicando que ele se poderá continuar a orgulhar de não ter sido derrubado pelos norte-americanos.

"A grande simpatia por Fidel na América Latina vem disso. Muita gente, mesmo não estando de acordo com as suas ideias, gostava que ele batesse o pé aos norte-americanos", contou o ex-embaixador português numa conversa com o DN. O autor do livro Fidel por José Fernandes Fafe, editado em 2008 pela Temas e Debates, lembra o que chama o "machismo latino-americano" e da sua ideia "não nos derrubarão". Nesse aspeto, Obama visita uma Cuba onde ainda está de pé a revolução.

Na estante da sala onde recebeu os jornalista do DN, o ex-embaixador tem uma fotografia sua ao lado de Fidel Castro

Contudo, explica o ex-embaixador, a conjuntura atual na ilha "tornou-se difícil", com os problemas da vizinha Venezuela que a certa altura substituiu a antiga União Soviética como principal aliado. Daí, Raúl Castro, que substituiu o irmão no poder, aproveitar uma melhor relação com os EUA. "Os cubanos aproveitaram a situação que foi propiciada pelo facto de o presidente dos EUA ser o Obama e de o Papa ser quem é, um grande conhecedor da América Latina. Aproveitaram a oportunidade e aceitaram-na", refere, dizendo ser difícil saber até onde podem ir as mudanças desencadeadas por uma maior abertura económica da parte dos EUA.

Do ponto de vista de Washington, Fernandes Fafe cita um artigo da revista Atlantic, em que se fala da "descrença e desconfiança" de Obama para com a Europa, sendo a aposta na política internacional no Pacífico e na América Latina. "Este é o legado que Obama quer deixar e Cuba insere-se nessa visão", conta o ex-embaixador, que também foi o representante português no México, em Cabo Verde e na Argentina. Além disso, refere, "a maioria dos americanos é hoje favorável ao restabelecimento de relações", incluindo na Florida.

Mas, apesar da visita histórica de Obama, ainda há problemas, por causa da posição "rígida" de Havana que diz que não haverá normalização das relações sem duas coisas: "o fim do embargo e a devolução de Guantánamo." Ambas difíceis de cumprir por parte do presidente norte-americano, que aposta que a liberalização económica trará a liberalização política. "Parece-me bom senso, o problema é que a história é imprevisível", explica.

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