Discreta, evangélica e especialista em língua gestual: assim é a nova primeira-dama do Brasil

Michelle Bolsonaro é 27 anos mais nova que o marido, que conheceu quando foi assistente parlamentar. (Publicado originalmente a 29 de outubro de 2018)

"Michelle, enquanto não faltar água no mar, não deixarei de te amar." Terá sido com frases como esta que Jair Bolsonaro conquistou Michelle de Paula Firmo Reinaldo, 27 anos mais nova do que ele, que será a partir de 1 de janeiro a primeira-dama brasileira. Evangélica, especialista em língua gestual, disse na campanha querer fazer "todos os trabalhos socais possíveis" quando o marido se mudar para o Palácio do Planalto. Juntos têm uma filha de oito anos.

Natural de Cielândia, no Distrito Federal, mas filha de nordestinos (o pai era motorista de autocarro), Michelle, de 37 anos, é a terceira mulher de Bolsonaro, de 63. "O meu sogro é o Paulo Negão, de Crateús, no Ceará. A minha filha tem sangue de cabra da peste correndo em suas veias", afirmou o futuro presidente numa entrevista, no início de outubro, dizendo que o pai de Michelle era um negro nordestino para tentar calar as críticas de que era racista.

Michelle, que esteve inscrita mas não frequentou o curso de Farmácia na Faculdade Estácio de Sá, conheceu o futuro marido em 2007 quando ele era deputado e ela trabalhava como secretária parlamentar. Casaram naquele mesmo ano, dois meses depois de ela ter ido trabalhar para ele (passando a ganhar quase três vezes mais de ordenado), mas a cerimónia religiosa só ocorreu seis anos depois.

Quando o Supremo Tribunal proibiu o nepotismo, ela foi afastada. "A demissão foi para evitar uma acusação de nepotismo. Mesmo ela tendo o direito de permanecer porque já era empregada quando me casei com ela", disse Bolsonaro durante a convenção do PSL em que foi nomeado candidato.

Sobre a candidatura do marido à presidência, Michelle falou pouco. "Se ele quer, vou apoiá-lo. Agora está nas mãos de Deus. Estou bem confiante e o que Deus tiver para nós vai ser uma bênção", afirmou, numa das raras entrevistas que deu, ao Jornal Nacional, na última semana de campanha.

O papel da igreja

Evangélica, Michelle frequentava a igreja Assembleia de Deus de Malafaia, mas mudou para a Igreja Batista Atitude, no Recreio (zona oeste do Rio), depois de o pastor ser alvo de uma investigação da Polícia Federal. Católico, Bolsonaro costuma acompanhar a mulher por vezes no culto de domingo.

Após deixar a Câmara dos Deputados, Michelle dedicou-se aos trabalhos voluntários na igreja evangélica, trabalhando principalmente nos temas de educação com a comunidade surda, visto saber língua gestual (que aprendeu para comunicar com um tio surdo).

Na entrevista ao Jornal Nacional, a futura primeira-dama manifestou o desejo de desenvolver "todos os trabalhos possíveis" na área de ação social caso o seu marido fosse eleito. "Eu já fazia isso antes de conhecê-lo, que é um chamado que eu tenho", indicou. Entre as organizações com quem trabalhou ou colaborou, está por exemplo a Trupe Miolo Mole, tendo-se vestido de palhaço numa visita a um hospital.

"Ela não carrega em maquilhagem e não é sofisticada; mas nem precisa. Michelle tem uma beleza natural", disse o pastor Silas Malafaia, que celebrou o casamento religioso de Michelle e Bolsonaro (o noivo terá chorado em vários momentos).

Além da filha de oito anos do casal, Laura, também vive no condomínio de luxo da Barra da Tijuca (no Rio de Janeiro) a filha mais velha de Michelle, de 16 anos, fruto de um anterior relacionamento. Bolsonaro tem quatro filhos de outras relações, todos do sexo masculino. "Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens. Aí, no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher". disse o futuro presidente, numa das frases que causou polémica.

(Publicado originalmente a 29 de outubro de 2018)

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1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?