Bruxelas responde a Salvini: "Aprovámos em abril plano de 8,5 mil milhões para infraestruturas" em Itália

Christian Spahr, porta-voz da Comissão Europeia, respondeu esta quinta-feira às acusações feitas pelo vice-primeiro-ministro italiano e líder do partido Liga na sequência do colapso da ponte Morandi em Génova

"Acreditamos que chegou o momento de deixar algumas coisas claras", começou por dizer Christian Spahr, porta-voz da Comissão Europeia, na conferência de imprensa diária, em Bruxelas, esta quinta-feira.

No período de 2014-2010, Itália tem "2,5 mil milhões de euros de fundos Estruturais e de Coesão para investir na sua rede de infraestruturas, como sejam estradas ou vias ferroviárias", declarou o porta-voz, sublinhando que Bruxelas aprovou em abril um plano de investimento italiano na ordem dos 8,5 mil milhões, destinado a infraestruturas, "incluindo em Génova".

O esclarecimento surgiu depois de o vice-primeiro-ministro, ministro do Interior e líder da Liga, Matteo Salvini, ter apontado o dedo à UE na sequência do colapso de uma parte da ponte Morandi, em Génova, na terça-feira. A tragédia fez 39 mortos, três dos quais são crianças.

"Se não houvesse constrangimentos externos que nos impedem de gastar mais em estradas seguras, escolas... então realmente devemos questionar se vale a pena seguir estas regras. Não pode haver negociação que ligue regras fiscais à segurança dos italianos", afirmou Salvini, cujo governo quer excluir certos investimentos dos cálculos do défice.

"À luz das regras orçamentais acordadas, os países têm liberdade para fixar políticas prioritárias específicas. Por exemplo, desenvolvimento e manutenção das infraestruturas. De facto, a UE incentivou Itália a investir nas infraestruturas", esclareceu esta quinta-feira Christian Spahr.

Numa altura em que o ministro das Infraestruturas e Transportes, Danilo Toninelli, do Movimento 5 Estrelas, exigiu a demissão dos responsáveis da concessionária Autostrade per l'Italia, o porta-voz da Comissão afirmou: "No que toca à responsabilidade sobre segurança da infraestrutura, neste caso gerida por um operador privado, a concessionária é responsável pela segurança da estrada".

Liga e 5 Estrelas estão no governo de Itália desde junho. Em 2013, o 5 Estrelas de Génova classificara a possibilidade de um colapso da ponte Morandi como uma fábula. Inaugurada em 1967, o viaduto sempre suscitou críticas.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.