Boris Johnson diz que é preciso evitar um fake Brexit

Em frente a uma retroescavadora, na sede empresa multinacional britânica JCB, em Rocester, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros fez um discurso sobre o Brexit, esta sexta-feira, respondendo a perguntas sobre a saída do Reino Unido da UE. Acabou debaixo de chuva de críticas depois de ter dito que nunca falou da Turquia na campanha para o referendo de 2016

Boris Johnson fez esta sexta-feira uma espécie de alegoria da retroescavadora para falar do Brexit. Na sede da empresa multinacional britânica JCB em Rocester, em Inglaterra, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Theresa May começou por dizer que a retroescavadora consegue levar tudo à sua frente, se for bem manobrada, mas se acidentalmente for posta em marcha-atrás, as coisas podem correr muito mal. O mesmo acontece com todo este processo de saída do Reino Unido da UE, sublinhou, criticando a abordagem da primeira-ministra conservadora.

May, depois de ver o acordo do Brexit chumbado na Câmara dos Comuns, na terça-feira, depois de sobreviver a uma moção de censura apresentada contra o seu governo pelo Labour de Jeremy Corbyn, ofereceu diálogo aos partidos, para se chegar a um Plano B. No entender de Boris Johnson, a chefe do governo está a cometer um erro ao tentar levar um novo acordo a ser aprovado no Parlamento no próximo dia 29 (a dois meses da data prevista para a saída dos britânicos do clube europeu).

"É tempo de voltarmos a Bruxelas e exigirmos uma verdadeira alteração ao backstop e, desta vez, a sério", disse, na sede da JCB. O backstop é um mecanismo de salvaguarda destinado a evitar o regresso de uma fronteira física entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda depois de o Reino Unido efetivamente sair da UE. Os termos em que estava estabelecido no acordo chumbado são rejeitados pelo Parlamento britânico. Por causa deste ponto 432 deputados votaram contra o acordo e 202 a favor. A derrota, para May, foi a maior da história dos Comuns.

O ex-ministro diz acreditar que a UE será "flexível" e chamou a afirmou que, só nas últimas semanas, tem sido vista abertura do lado dos europeus para fazer concessões em relação a esta questão do backstop.

Boris Johnson, que durante anos foi correspondente em Bruxelas, conhecido eurocético, considerou um erro a extensão do Artigo 50º do Tratado de Lisboa porque isso iria provocar uma erosão maior ainda na confiança que os eleitores depositam nos políticos. O ex-ministro sublinhou que se o Reino Unido mantiver a calma, em vez de um pseudo Brexit ou de um fake Brexit irá conseguir levar a cabo o Brexit em que as pessoas votaram no referendo de 23 de junho de 2016. 52% votaram a favor da saída da UE. 48% votaram contra.

Na sua intervenção, já na parte das perguntas e respostas, Boris Johnson admitiu que não vê como é que o Parlamento pode descartar a hipótese de um No Deal Brexit. Corbyn exige que May descarte esta hipótese para dialogar. Ela diz que não é possível fazê-lo.

Questionado por Michael Crick, do Channel 4, acerca de afirmações que fez sobre a imigração e a Turquia, em 2016, o ex-ministro de May respondeu que nada tinha dito na altura sobre a Turquia durante a campanha para o referendo.

"Eu não disse nada sobre a Turquia durante o referendo", declarou, tendo a imprensa britânica desmentido em seguida. Em abril de 2016, referindo-se a uma eventual adesão da Turquia à UE no futuro, Boris Johnson afirmou: "Tenho muito orgulho em ser pró-Turquia,mas não posso imaginar uma situação em que 77 milhões de turcos ou pessoas de origem turca podem chegar aqui sem qualquer tipo de controlo - isso não vai funcionar".

Ashley Cowburn, jornalista de política do Independent, partilhou no Twitter a carta que Boris Johnson e Michael Gove, na altura os rostos da campanha pela saída do Reino Unido da UE (Vote Leave), enviaram a Downing Street, sete dias antes do referendo de 2016. "Uns dizem que o Reino Unido tem direito de veto sobre a adesão da Turquia. Esta alegação é obviamente artificial, dado que o compromisso do governo com uma adesão da Turquia o mais rapidamente possível. Se o governo [de David Cameron] não der a garantia [de que o Reino Unido vetará a entrada da Turquia na UE], então as pessoas podem tirar a conclusão, razoável, de que a única forma de evitar ter fronteiras em comum com a Turquia é votar Sair e recuperar o controlo a 23 de junho".

Outra prova de que a Turquia foi um tema na campanha para o referendo do Brexit são as afirmações feitas por Cameron, então primeiro-ministro do Reino Unido, em maio de 2016: "O Reino Unido e qualquer outro país da UE tem o poder de veto sobre a adesão de qualquer outro país. É um facto. Isto é muito importante, porque eles estão a dizer, basicamente, que é preciso as pessoas votarem para sair da Europa por causa desta questão da Turquia que não podemos travar. Isso não é verdade. Nós podemos impedir a adesão da Turquia", sublinhou David Cameron na ITV. E previu que os turcos, que apresentaram o pedido de adesão em 1987, não estarão preparados para entrar na UE "antes do ano 3000".

Com todo este debate suscitado em torno da Turquia, do diz que disse, Boris Johnson acabou a manhã debaixo de uma chuva de críticas. No final de contas, parece ter manobrado mal a retroescavadora, acidentalmente acionando a marcha-atrás. Contra si próprio.

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