Apoiantes e opositores de Lula iniciam hoje 11 dias de agitação

Até um CarnaLula está marcado para Porto Alegre, cidade onde o ex-presidente será julgado em segunda instância no dia 24

Começa hoje e durará até 24 de janeiro, dia em que Lula da Silva vai ser julgado em tribunal de segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, uma intensa agenda de manifestações dos movimentos a favor e contra o presidente do Brasil de 2003 a 2010. A agitação explica-se porque, dependendo da sentença do colegiado de três juízes, o pré-candidato pelo Partido dos Trabalhadores (PT) às presidenciais de outubro, tanto pode ficar livre para concorrer, como impedido de participar. Ou até, no limite, ser preso.

Os olhos do Brasil, e do mundo, já estão por isso virados para Porto Alegre, a capital estadual mais a sul do país, onde os magistrados João Pedro Gebran, relator do processo, Leandro Paulsen, revisor, e Victor Laus vão analisar a decisão do juiz de primeira instância Sérgio Moro de condenar Lula a nove anos e meio de prisão por posse de um apartamento triplex na praia do Guarujá, em São Paulo, com dinheiro do esquema do petrolão, mote da Operação Lava-Jato.

Para hoje, segundo o site criado pelos apoiantes de Lula para o efeito - o "Lula em POA", usando a sigla como é conhecida a cidade gaúcha -, já está marcada "uma oficina de faixas, cartazes e latas para batucada", seguida do lançamento do Comité Porto Alegre pelo Direito de Lula Ser Candidato, um comício com mulheres, entre as quais Gleisi Hoffmann, presidente do PT, e Manuela d"Ávila, candidata à presidência pelo Partido Comunista do Brasil, e espetáculos com atrações musicais em três pontos da cidade.

A partir de dia 20, inicia-se um acampamento, organizado por movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra aonde se deslocarão quase todos os membros do grupo parlamentar do PT e juristas contrários à condenação. Dilma Rousseff, a ex-presidente do Brasil, que sucedeu a Lula em 2010, deve chegar à cidade no dia 23 a tempo de participar nos eventos designados pelos organizadores como Grande Marcha e Vigília, que precederão o início do julgamento, marcado para as 08.30 locais (10.30 portuguesas) de dia 24. Embora, ao contrário do que requereu a sua defesa, Lula não vá ser ouvido pelo trio de juízes, a presença do próprio pré-candidato é aguardada.

Em simultâneo, dois grupos ativos nas manifestações pelo impeachment de Dilma, em 2016, também organizam eventos. O movimento Vem Pra Rua marcou para a véspera do julgamento um ato em favor da condenação do candidato do PT perto da sede do tribunal mas cancelou o aluguer de um ecrã gigante para acompanhar os trabalhos na Avenida Paulista, principal artéria de São Paulo. E o Movimento Brasil Livre (MBL) tem preparado, para o próprio dia do julgamento, um evento chamado CarnaLula, uma festiva antecipação do Carnaval já prevendo a condenação.

Ligado ao MBL e eleito pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), tradicional concorrente do PT, o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan, pediu, sem sucesso, ao Ministério da Defesa a presença das forças armadas na cidade durante os próximos dias. As ruas porto-alegrenses, entretanto, devem ter forte reforço policial a partir de hoje.

A não ser que seja absolvido, o que se apresenta como improvável tendo em conta o histórico das decisões do colegiado, o julgamento deve dar início a um emaranhado processo jurídico. No entanto, se o trio se decidir pela condenação, por unanimidade, a maioria dos observadores acredita que será difícil o candidato apresentar-se nas eleições; por sua vez, uma derrota do antigo presidente por 2-1 daria possibilidades de recursos até para lá de outubro. Em todos os casos, o cenário de prisão, por causa desses mesmos recursos, está excluído a curto prazo.

Líder nas sondagens à frente de Jair Bolsonaro, Marina Silva, Geraldo Alckmin e outros, Lula admite lançar um nome alternativo caso a sua situação jurídica se deteriore - ainda correm mais seis casos contra si em tribunal. Jaques Wagner, antigo governador da Bahia, e Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, são os mais falados.

Outros pré-candidatos

Jair Bolsonaro (PSL)

Na semana em que a imprensa noticiou que o militar e três dos seus filhos multiplicaram património ao entrar na política, o deputado escolheu o partido. Após namoro com o PSC e noivado com o PEN, que mudou o nome para Patriota por sua causa, acabou por se casar com o Partido Social Liberal (PSL) do deputado Luciano Bívar. A decisão levou membros do PSL, entre os quais Sérgio Bívar, filho de Luciano, a abandoná-lo.

Marina Silva (Rede)

A ambientalista vai abrigar no Rede 40 candidatos a deputados do Frente Favela Brasil (FFB), movimento fundado em agosto que não conseguiu registar-se, a solo, para as eleições. Celso Athayde, líder da FFB, disse ao DN que o objetivo é colocar mais negros no poder: "Se somos 78 milhões, porque temos de pedir favores ao poder em vez de o gerirmos?"

Geraldo Alckmin (PSDB)

O atual governador de São Paulo enfrenta "fogo amigo": Fernando Henrique Cardoso, patriarca do PSDB, disse que se o partido não tiver um candidato forte deve apoiar alguém de outra sigla de centro-direita e setores do PSDB deram prazo até abril para Alckmin chegar aos 10% nas sondagens - por ora, tem 6%.

Michel Temer (MDB)

O presidente, que não exclui a hipótese de se candidatar, acredita que a aprovação da reforma previdenciária no Parlamento pode catapultá--lo a ele, ou a alguém apoiado por ele, na corrida. Por isso, vai participar em programas de TV populares, de Sílvio Santos e Ratinho, para explicar os detalhes da reforma.

Luciano Huck (sem partido)

O apresentador da TV Globo foi alvo de processo do PT no Tribunal Eleitoral por "abuso de poder económico". O caso ocorreu depois do pré-candidato, que desistiu da corrida mas admite voltar atrás, ter ido ao programa do seu colega Faustão "demonizar", segundo o PT, "os políticos e os pré-candidatos numa tentativa subliminar de exaltar a sua candidatura".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.