Antigo agente do FBI quer descobrir quem traiu a família de Anne Frank

Investigação ao caso arquivado conta com equipa de 19 pessoas, liderada por um agente do FBI reformado. Iniciativa partiu de jornalista e realizador holandeses
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Quem denunciou a família de Anne Frank, que encontrara esconderijo dos nazis em Amesterdão? Até aos dias de hoje, ninguém sabe como a Gestapo descobriu os Frank, em 1944. Mas Vince Pankoke pode estar mais perto de encontrar as respostas ou, pelo menos, pistas que indiciem o que realmente aconteceu.

Pankoke, agente reformado do FBI que em anos recentes investigou os cartéis colombianos, vai liderar uma equipa de 19 técnicos forenses que, auxiliados pelas novas tecnologias de análise de dados, contam encontrar na extensa documentação disponível um indício do que realmente aconteceu a 4 de agosto de 1944, dia em que a jovem Anne Frank, o pai Otto, a mãe Edith e a irmã, Margot, foram localizados num anexo de um armazém na rua Prinsengracht em Amesterdão, sendo depois transportados para campos de concentração, onde todos - menos o pai, Otto - viriam a morrer.

Quando Otto deixou o campo de concentração de Auschwitz, depois de este ser libertado pelos russos em 1945, percebeu que toda a família, bem como aqueles que se tinham escondido com eles - Hermann e Auguste van Pels e o filho destes, Peter, assim como o dentista Fritz Pfeffer - tinham morrido nos campos nazis. O pai de Anne Frank revelou imediatamente suspeitar de um dos trabalhadores no armazém, Wilhelm van Maaren, que teria divulgado o esconderijo do grupo. Mas duas investigações da polícia holandesa, recorda o The Guardian, conduzidas em 1948 e 1963, não encontraram provas contundentes contra ele. Em 2003, o instituto para a documentação de guerra da Holanda analisou outros dois suspeitos, mas concluiu que não era já possível reconstruir o que aconteceu na década de 1940, sem excluir que pudesse haver outros avanços no futuro.

Foi esta a ideia do realizador Thijs Bayens e do jornalista Pieter Van Twisk, ambos holandeses, que recrutaram Pankoke e a equipa, conseguindo financiamento para a investigação através de uma plataforma de crowdfunding.

O novo inquérito ao caso arquivado foi oficialmente lançado no passado fim de semana, com um apelo aos que viviam na área de Amesterdão onde ficava o armazém cujo anexo escondia os Frank.

A Casa de Anne Frank, em Amesterdão, disponibilizou os arquivos à equipa, que já supervisionou uma reconstituição da detenção da família. Um dos fundadores da unidade de análise comportamental do FBI, Roger Depue, está a analisar entrevistas e testemunhos de então.

A investigação, cujas manobras resultarão num filme e que vai ser possível acompanhar online, conta ainda com detetives, 'profilers' e historiadores. Os investigadores estão a trabalhar com a Xomnia, uma empresa com sede em Amesterdão especializada em processamento e análise de grandes quantidades de informação. Até porque Pankoke garante que, no trabalho preparatório que fez - analisando documentos que eram confidenciais mas foram recentemente tornados públicos, enviados para os EUA depois da Segunda Guerra Mundial - encontrou novas linhas de investigação.

De acordo com o Guardian, os serviços de segurança alemães mantinham registos meticulosos das detenções, mas até agora acreditava-se que todos os documentos relativos aos Frank tinham sido destruídos num bombardeamento britânico em 1944. "Mas eu passei muito tempo nos arquivos nacionais dos EUA e encontrei documentos de Amesterdão que me diziam que não existiam", contou o ex-agente do FBI. "Alguns estão danificados pela água ou pelo fogo, e estão escritos em alemão técnico militar, por isso vai levar algum tempo. Mas encontrámos listas de nomes de judeus detidos depois de terem sido traídos, listas de informadores e nomes dos agentes da Gestapo que viviam em Amesterdão". Toda esta informação poderá ser analisada com a tecnologia da Xomnia, que permitirá traçar ligações na imensidão de dados. "São pelo menos 20 a 25 quilómetros de ficheiros neste momento, e acabámos de começar", disse ao Guardian Thijs Bayens.

Pankoke acrescenta que o objetivo não é apontar dedos ou levar eventuais culpados à justiça. "Estou apenas a tentar resolver o último caso da minha carreira. A verdade não prescreve", explicou. O projeto conta revelar as conclusões da investigação daqui a cerca de dois anos, a 4 de agosto de 2017, no 75.º aniversário da detenção da família de Anne Frank.

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