Advogado da cristã absolvida foge do Paquistão

Saif Mulook, representante legal de Asia Bibi, a cristã que estava condenada à morte por blasfémia e foi absolvida pelo Supremo Tribunal, teve de sair do país por razões de segurança. Governo e partido islamista acordam que Asia Bibi não pode sair do país.

Ao ser bem-sucedido no caso da cristã paquistanesa Asia Bibi - absolvida da condenação à morte por enforcamento - o advogado Saif Mulook pagou o preço, ao ter de deixar o país, dizendo temer pela vida na sequência de ameaças de islamistas, que tomaram as ruas nos últimos dias.

"No cenário atual, não é possível morar no Paquistão", disse o advogado à AFP, antes de embarcar num avião no início de sábado. "Eu preciso continuar vivo porque tenho de continuar a batalha legal por Asia Bibi", disse o causídico.

A reação violenta dos extremistas ao julgamento foi "infeliz, mas não inesperada". "Eu estava à espera, mas o que é doloroso é a resposta do governo: eles não podem sequer aplicar a decisão da mais alta instância judicial do país", lamentou. Mulook não recebeu proteção policial após o veredicto.

Asia Bibi passou quase dez anos no corredor da morte na sequência de ter sido condenada por blasfémia. As colegas de trabalho acusaram-na de ter insultado o profeta Maomé a meio de uma discussão porque Asia tinha usado o mesmo copo que elas para beber água - o que, devido à sua fé, tinha tornado a água impura.

A sua absolvição provocou a fúria dos círculos extremistas muçulmanos. Milhares de pessoas saíram às ruas, bloquearam estradas, fecharam escolas e manifestaram-se com cartazes a exigir o enforcamento de Asia. As manifestações acabaram depois de um acordo ser selado entre na sexta-feira à noite entre o governo e o partido fundamentalista Tehreek-e-Labaik.

O texto prevê que o governo não se oponha à apresentação de um pedido de revisão da sentença do Supremo Tribunal e que iniciará um recurso para proibir Asia Bibi de deixar o país.

De acordo com Saif Mulook, isso significa que Bibi terá de permanecer na prisão ou noutro lugar seguro. "A sua vida seria mais ou menos a mesma, seja dentro de uma prisão ou fora, em isolamento por motivos de segurança", comentou.

Vários países ofereceram asilo à cristã.

"Capitulação aos extremistas"

Já o governo de Imran Khan, que havia classificado as manifestações como "resposta repugnante", acabou por ser criticado no sábado por este acordo, descrito como uma "nova rendição".

"Mais um governo capitulou perante extremistas religiosos violentos que não acreditam na democracia ou na Constituição", escreveu em editorial o diário paquistanês Dawn.

O discurso de firmeza em relação aos islamistas, pronunciado na noite de quarta-feira, pelo primeiro-ministro Imran Khan "já está condenado à lata de lixo da história", conclui o jornal.

Rasto de morte

O fundamentalismo religioso condiciona a sociedade paquistanesa. E neste caso já causou a morte a dois políticos que saíram em defesa de Asia Bibi e contra a lei da blasfémia. O ministro das Minorias, o cristão Shahbaz Bhatti e o governador do Punjab Salman Taseer foram assassinados em 2011. O assassino de Taseer, Mumtaz Qadri, foi condenado à morte. Depois de enforcado, o partido Tehreek-e-Labaik considerou-o um mártir. Um santuário foi construído em sua memória.

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