"A Polónia é a Polónia. Não vamos parar esta reforma"

Foi diante de uma chávena de chá que Jacek Czaputowicz recebeu o DN no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Varsóvia. O ministro, no cargo desde janeiro, explicou que a Polónia está habituada a ser criticada, uma vez que isso é "política", mas admitiu que o país se sente muitas vezes injustiçado. Garantiu que as reformas, como a polémica do sistema judicial, são mesmo para avançar, até porque a União Europeia não tem a maioria necessária para aplicar o artigo 7. Antigo opositor que chegou a estar preso, Czaputowicz admitiu que a Rússia é "uma ameaça à segurança" e defendeu a presença de mais tropas americanas na Polónia.

Nos media, a maioria das noticias sobre a Polónia centram-se nas criticas que a UE lhe faz. Essa criticas acabam por se sobrepor aos aspetos positivos da relação entre Varsóvia e Bruxelas?

Vivo neste país, participei em encontros de várias instituições da UE, estamos no Conselho de Segurança, na NATO, já viajei para muitos países e os seus líderes já vieram cá. Não sinto muitas críticas. Está a falar de uma coisa que não sentimos aqui.

Mas são essas as notícias da Polónia que passam para fora do país.

Estamos habituados a ser criticados. É a política. A política é sobre criticar. Por exemplo, somos criticados por alegadamente violarmos a lei europeia com a qual não concordamos. Quando olhamos para as discussões, para as nossas explicações, para as decisões das instituições europeias, fica claro que observamos a lei europeia. Posso dar vários exemplos. Claro que quando esteve em Portugal, [o vice-presidente da Comissão] Frans Timmermans, candidato do Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas à presidência da Comissão Europeia, criticou a Polónia. Simplesmente porque estava a tentar vencer uma eleição. E esta é uma ferramenta útil. Eu também critico a situação no Leste da Europa, a recente situação em França, onde depois da pressão social, o presidente Emmanuel Macron recuou na reforma do Estado, o que para mim é uma ameaça aos padrões europeus, quando há um défice de 3% estabelecido e alguns economistas acham que este pode ser ultrapassado. Para nós isso é uma violação das regras europeias e dos padrões europeus. E pode levar ao enfraquecimento da UE como um todo, porque vai perturbar o funcionamento do mercado comum. Por isso há criticas de ambos os lados. De facto, achamos que as criticas são injustas em relação à Polónia. E cada vez mais países concordam. Por isso não há a maioria exigida no Conselho Europeu para impor o artigo 7 e punir a Polónia. Portugal fica do outro lado do continente. Talvez não seja tão fácil seguir o que se passa na Polónia, mas com certeza os países da região, que ficam mais próximos, compreendem. Por exemplo temos muito boas relações com o nosso principal parceiro comercial que é a Alemanha. Acabo de voltar de uma visita muito frutífera àquele país. Já me reuni oficialmente cinco vezes com o MNE alemão, mantemos um diálogo político, há desenvolvimento económico. Queremos ter uma palavra a dizer sobre o futuro da Europa e contribuir para o debate. Não sentimos que estejamos limitados nas nossas atividades. Mas as críticas, sim! Diferentes partes e diferentes media dizem coisas diferentes.

O presidente Juncker uma vez disse que França é França para justificar a violação das regras....

E a Polónia é a Polónia! Estamos a fazer o que estamos a fazer! Estamos a reformar o nosso sistema, independentemente de todas as críticas. Temos de ter algumas bases para o desenvolvimento económico. Estamos muito satisfeitos com o resultado. A Polónia é o país com um desenvolvimento mais rápido hoje na UE. A corrupção é muito limitada, as reformas prosseguem. Não vamos parar esta reforma, porque é essencial para a força do nosso país.

Refugiados, essa reforma do sistema judicial. Há tensões inegáveis. Alguns polacos vieram para a rua protestar contra Bruxelas, chegou a falar-se de Polexit /uma saída da Polónia da UE), mas as sondagens mostram que os polacos apoiam cada vez mais a UE. Qual destes cenários está mais próximo da realidade?

Quando olhamos para os protestos aqui, são muito pacíficos, ninguém é detido. O mesmo não se pode dizer de outros países: Alemanha, França. Não tem comparação. Nós somos um país seguro e pacífico. Há décadas que não temos um ataque terrorista. Há manifestações pacíficas. A Polónia é o país mais pró-europeu. Quando comparado com outros países temos um grupo maior de cidadãos a apoiar a integração europeia- isto de acordo com estatísticas da União Europeia. Por isso é uma boa questão: se a Polónia é o país mais pró-europeu, então porque é apresentada como anti-europeu? É política. É muito útil sobretudo para países que são mesmo uma ameaça devido ao crescimento da oposição eurocética. Basta olhar para as eleições, ou para as sondagens, não os vou nomear. Até aquele onde agora há protestos, vê a oposição eurocética a crescer. Eles simplesmente querem desviar as atenções para outros países. Querem culpar os outros. Honestamente não sei quem anda a falar de Polexit, não há vontade, em nenhum partido político, de sair da UE. A larga maioria dos polacos quer estar na UE.

Esse desejo de focar a atenção nas coisas más faz com que o sucesso da economia polaca fique muitas vezes relegado para segundo plano? Estamos a falar de um crescimento de 5% este ano, desemprego baixo. A Polónia tem condições para ser o motor da UE?

Simplesmente queremos contribuir para o desenvolvimento da UE. Somos um dos países com um desenvolvimento mais rápido. Quanto a saber porque a perceção que passa é a da ameaça, isso não é a mim que tem de perguntar. O facto é que temos uma visão da UE e da integração europeia, somos a favor de uma UE unida, sem divisões. Somos a favor de manter a competição económica, queremos manter as bases do mercado comum, a liberdade de movimento de bens, de serviços ( que está ameaçada), de finanças e de trabalhadores. Mas há um perigo, um desafio: o protecionismo. Alguns países querem proteger-se da competição de outros, como a Polónia, impondo medidas protecionistas. Na nossa opinião, isso vai enfraquecer a UE e reduzir o seu papel no mundo. Por isso temos de defender a UE e criar a situação em que tenhamos bases económicas robustas e estáveis para o crescimento e desenvolvimento. A Polónia, enquanto país que se desenvolve mais rapidamente do que os outros, contribui para o crescimento da UE como um todo. Os países que têm problemas em reformar as suas economias tornam o nosso desenvolvimento mais lento. Por isso acho que a nossa política é pró-europeia. É a única política que vai permitir à UE desempenhar um papel importante no mundo. O nosso objetivo é uma UE forte e integrada.

O regime comunista na Polónia terminou há quase três décadas, hoje a Rússia, a inimiga histórica, ainda é vista como uma ameaça?

O regime comunista faz parte da história. Na altura, eu era ativista do Solidariedade, passei algum tempo na prisão. Lutámos enquanto oposição pela soberania e independência do Estado. Para a Polónia ter a hipótese de voltar para a UE, com a qual temos uma cultura e história comuns. Enquanto país cristão sentimo-nos parte da Europa. João Paulo II costumava dizer que a Europa tem dois pulmões, o Ocidente e o Leste, e têm de estar unidos. Na altura, lembro-me de termos conseguido fazer isso. Conseguimos ultrapassar, com o Solidariedade, o sistema comunista, vencemos as eleições e os restantes países desta região seguiram o mesmo caminho. O regime comunista deixou de existir. O Muro de Berlim foi derrubado e passámos a ter uma Europa unida. Agora temos a Rússia. Nos anos 90 achámos que a Rússia, com reformas, se poderia tornar um Estado democrático. Infelizmente, isso não aconteceu. E a Rússia é uma ameaça em si. Usando uma linguagem científica, diria que é uma potência revisionista, que gostaria de recuperar a esfera de influência que perdeu após a queda do Muro de Berlim e da Cortina de Ferro. Isso pode ver-se nas suas políticas. Começou em 2008 na Geórgia. Invadiu também a Ucrânia e anexou a Crimeia. Influenciou a situação na região de Donbass e Lugansk, houve os recentes acontecimentos no mar de Azov. Há uma clara anexação do território ucraniano. Por isso, pode dizer-se que o papel da Rússia é muito negativo. É uma ameaça à segurança. E essa perceção é partilhada pelos outros Estados da UE. Emitimos há pouco um comunicado. E também pelos membros da NATO e pela comunidade internacional no geral. Visitei a Ucrânia depois dos eventos no mar de Azov, falei com o presidente, o primeiro-ministro e o ministro dos Negócios Estrangeiros. Eles esperam a nossa solidariedade e a garantia de que a lei internacional vai ser respeitada. Como membro não permanente do Conselho de Segurança, presidi à discussão sobre a situação na Ucrânia de forma a mostrar o nosso apoio. O nosso objetivo é reforçar a lei internacional para se opor aos agressores, apoiar os mais fracos e ser justa. Neste caso temos de apoiar a Ucrânia e o seu direito legítimo a um Estado dentro das fronteiras reconhecidas internacionalmente. Essa é a nossa política.

Essa ameaça russa, faz com que a Polónia sinta a necessidade de manter a proximidade com os EUA. Pediram recentemente para abrirem uma base militar no vosso país. E torna fundamental ser um membro da NATO para se sentir seguro?

Ser membro da NATO é muito importante. Aderimos à Aliança há quase 20 anos e é essencial para garantir a nossa segurança. Foi uma forma de colmatarmos as falhas de segurança, com o alargamento da NATO em 1999. Talvez esta ameaça da Rússia não se faça sentir diretamente na Polónia hoje em dia, mas queremos aumentar a presença militar no nosso país. A Polónia gasta 2% do orçamento em defesa, como é pedido pela NATO, porque sentimos ser necessário termos recursos e instrumentos para nos defendermos em caso de agressão ou de ameaça à segurança. Queremos revigorar o papel da NATO na região. Foi um compromisso assumido pela Aliança na cimeira de Varsóvia há dois anos. Na altura algumas unidades da NATO foram enviadas para o terreno nos Estados Bálticos mas também na Polónia. Recebemos também soldados de outros países. Temos acordos bilaterais com os EUA. Ao todos temos uns três mil militares americanos na Polónia. E com a continuação das políticas agressivas da Rússia, o reforço da presença americana irá ajudar-nos a conter a Rússia de forma eficaz.

Quando dizemos Portugal na Polónia, todos respondem Biedronka...

Pensei que dissessem Ronaldo!

Também dizem. Agora que Portugal está na moda, a imagem que os polacos têm de Portugal está a mudar?

A Biedronka é ótima. É uma cadeia [de supermercados] muito importante. E na minha opinião é algo muito positivo em relação a Portugal. É uma das coisas que as pessoas associam a Portugal. Tem havido interesse e alguns investimentos portugueses na Polónia. Há um volume comercial bastante substancial entre os dois países. A Biedronka é a Jerónimo Martins, mas há também o banco Millenium, o Novo Banco. A presença portuguesa, quando comparada com a de outros países é substancial. Claro que os alemães estão mais presentes na Polónia, mas em comparação é normal. Portugal é também um parceiro importante na União Europeia e noutras organizações. Há um diálogo político de alto nível. E há um crescimento no turismo. No ano passado, 320 mil polacos visitaram Portugal. Mas só 30 mil portugueses visitaram a Polónia. Há também troca de estudantes. O programa Erasmus fez muito por isso. Portugal é um país muito conhecido entre os jovens. Agora temos quatro universidades polacas onde se ensina português, a língua e a cultura. Todos os anos temos pessoas que se formam com conhecimentos de cultura portuguesa. Aqui no Ministério dos Negócios Estrangeiros temos pessoas que falam português. Portanto diria que o conhecimento de Portugal aqui é bom. Gostamos das pessoas, a cultura é conhecida. Há uma proximidade cultural entre os nossos países.

DN viajou a convite da embaixada da Polónia em Lisboa



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