A política alvo de ameaças por defender mulheres e migrantes

Nas redes sociais, ataques contra a presidente do Parlamento, Laura Boldrini, vão desde o apelo à violência aos comentários sexuais - incluindo por líderes da Liga Norte e do 5 Estrelas

Na internet há fotomontagens em que aparece de cabeça cortada, nas redes sociais não são raros os comentários violentos de cariz sexual, já queimaram uma efígie sua e já recebeu uma bala pelo correio. Mas os ataques contra Laura Boldrini, a presidente do Parlamento italiano que tem sido uma voz contra o sexismo e o racismo, não vêm só de desconhecidos. O líder da Liga Norte, Matteo Salvini, comparou-a a uma boneca insuflável e recusou pedir desculpa, e um dos porta-vozes do Movimento 5 Estrelas garantiu-lhe de forma irónica: "Mesmo se fôssemos todos violadores, não corrias perigo nenhum."

Boldrini, de 56 anos, foi eleita deputada em 2013 como independente na lista do partido Esquerda, Ecologia e Liberdade - que agora pertence à coligação Livres e Iguais, de Pietro Grasso. Apesar da inexperiência política, e ao abrigo de um acordo de governo com o Partido Democrático (PD), a antiga porta--voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados tornou-se presidente do Parlamento.

Nas eleições de domingo, procura a reeleição pela circunscrição de Milão 1, numa luta contra Cristina Rossello, a candidata do Forza Itália que representou o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi no processo contra a ex-mulher, e o atual deputado Bruno Tabacci, do PD. Mesmo que perca, Boldrini tem garantido o regresso ao Parlamento, sendo candidata em quatro listas plurinominais. Será uma de 630 deputados mas dificilmente voltará a ocupar o terceiro cargo mais importante na política italiana, depois do de presidente e de líder do Senado. Na campanha, e por causa das ameaças de morte, ficou alojada num local secreto.

Licenciada em Direito, Boldrini trabalhou para a estação de televisão pública italiana RAI antes de, em 1989, entrar para as Nações Unidas. Primeiro esteve na Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura, como produtora de rádio e vídeo, depois no Programa Alimentar Mundial, servindo como porta--voz para Itália. De 1998 e até 2012, foi porta-voz do Alto Comissariado para os Refugiados, coordenando as campanhas de informação públicas para o Sul da Europa e trabalhando com António Guterres.

Foi ao serviço do ACNUR que, em fevereiro de 2013, numa visita à Grécia, ouviu um grupo de homens africanos a gritar para outro, que estava coberto de sangue, que tinha de se habituar a ser espancado porque agora era um homem negro na Europa. "Foi a primeira vez que percebi que as pessoas afetadas pelo racismo podem chegar ao ponto de achar que o merecem", contou ao site Buzzfeed. Nesse dia escreveu um texto no seu blogue, no jornal La Repubblica, a atacar a incapacidade do governo italiano para integrar os migrantes e chamou a atenção do líder do partido Esquerda, Ecologia e Liberdade, Nichi Vendola, que a convidou para ser candidata nas eleições de 2013.

O partido conquistou 3,2% dos votos e elegeu apenas 37 deputados. Contudo, ao abrigo de um acordo de coligação com o PD, ganhou a presidência do Parlamento. Boldrini foi a escolhida, mas só descobriu duas horas antes de fazer o seu primeiro discurso. Ao Buzzfeed admitiu que não queria o trabalho, mas percebeu que não tinha hipótese de dizer não. Ligou à filha, que estudava em Londres, e escreveu o discurso à mão, porque se tinha esquecido de levar o iPad. Apelou ao Parlamento para que lidasse com a questão da violência doméstica e falou dos migrantes que estavam a morrer no Mediterrâneo (a grande crise migratória viria dois anos depois).

Mas os aplausos que recebeu então depressa se tornaram ataques num país onde quase metade das mulheres não trabalham e, quando o fazem, ganham metade dos homens. No Parlamento, só há 197 deputadas (cerca de 30%). Quando Boldrini assumiu a liderança da Câmara Baixa, pediu para ser tratada como la presidente, a presidente. O termo é tradicionalmente masculino e os críticos que continuavam a tratá-la como il presidente eram muitas vezes tratados pela versão feminina de deputado "la deputata" (que também não existe, mas que Boldrini defende).

Além da defesa das mulheres e dos migrantes, a líder do Parlamento lançou também uma campanha contra os ataques online. E não hesitou em denunciar alguns dos ataques de que foi alvo com a pergunta: "Acredita que isto é liberdade de expressão?" Os ataques iam desde os que perguntavam porque é que "esta terrorista ainda não foi morta" até aos que diziam "quero abrir-te o cérebro e urinar lá entro".

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