"Merkel sai derrotada destas negociações"

Após uma semana de reuniões, CDU-CSU e SPD aprovaram um "acordo de princípio" para formar um governo de coligação. O politólogo Werner Josef Patzelt destaca a cedência de Angela Merkel na questão da política migratória. O professor e fundador do Instituto de Ciências Políticas da Universidade Técnica de Dresden acredita que a confiança do eleitorado alemão numa "Grande Coligação" pode ser recuperada se as medidas incluídas no documento avançarem efetivamente.

Foi uma longa noite de negociações e de acordo com o líder do SPD, Martin Schulz, houve até "momentos turbulentos". Estão criadas as condições para a formação da chamada "GroKo" (Grande Coligação)?

Se os membros do SPD (que vão reunir em congresso no dia 21) estiverem de acordo com este documento, então estão lançadas as bases para a formação de uma coligação. Mas a grande incerteza é a questão relativa aos refugiados: neste ponto houve uma vitória quase absoluta da CSU e uma derrota quase absoluta do SPD. Este ponto tem sido crucial para o SPD e vai ser difícil para os líderes convencerem as bases a deixar passar esta mudança (limitação do número da entrada de refugiados na Alemanha a 220 mil por ano). É um documento muito político, é certo que há várias medidas mais simbólicas, no que respeita à UE, por exemplo, mas na maioria, trata-se de medidas políticas concretas. É o caso da relativa às migrações, também às reformas no seguro de saúde público, ao fato de não serem aumentados impostos Por isso parece-me uma boa base para as políticas de um novo governo de coligação. A pergunta é se os membros do SPD se vão sentir confortáveis com este documento.

Há vencedores e derrotados nestas negociações?

O claro vencedor é a CSU, os democratas cristãos da Baviera. Mas também há um vencedor que não participou nestas negociações que é a AfD (partido populista Alternativa para a Alemanha). Vencedor em termos estratégicos (passa a ser o líder da oposição) e não em termos de futuro político. Isto porque, se a grande coligação seguir realmente estas linhas, então a AfD perde muitos dos seus argumentos (nomeadamente na questão dos refugiados). O grande perdedor parece mesmo ser o SPD, e até mesmo Angela Merkel pode ser considerada derrotada, já que durante a sua campanha sempre se opôs a qualquer limitação à entrada de refugiados no país. Agora acabou por aceitar essa medida e continuar a ser chanceler. Mas, resumindo, diria que foi a CSU que venceu este processo negocial.

No documento há várias políticas ligadas à União Europeia, com o objetivo de a fortalecer (é o caso da estreita cooperação com França ou o aumento do financiamento dado pela Alemanha). Isto poderá, de alguma forma, dar mais poder a Martin Schulz (o "senhor Europa") no próximo governo alemão?

Não me parece. Depende da posição que ele irá assumir no novo Executivo e essa ainda é uma questão em aberto. Depois da saída do Reino Unido da UE, ficou claro que a Alemanha tem que aumentar o financiamento. Mas ainda estão várias questões por esclarecer: haverá um orçamento separado para a Zona Euro ou será apenas reforçado o orçamento da Comissão Europeia? Nestes pontos o documento é bastante aberto e ambivalente. Acho que estes aspetos (relacionados com a União Europeia) são mais simbólicos.

Merkel sai fragilizada destas negociações no seu papel de chanceler?

Ela foi praticamente obrigada a contrariar toda a sua política relativa às migrações e tudo aquilo que fez no passado. O que este documento vem dizer é que situações como as que aconteceram em 2015, com a entrada massiva de refugiados no país, não deverão repetir-se nunca. Têm que existir controlos fronteiriços, todos os casos de pessoas que procuram asilo no país devem ser vigiadas, isto é, começar uma série de medidas que vão escolher quem pode ou não pode entrar no país. Ora, Merkel bateu-se precisamente contra isto durante os últimos anos e agora aceita estas medidas como base para o seu novo governo. Não podemos chamar-lhe outra coisa que não uma grande derrota.

De acordo com as sondagens, a "Grande Coligação" foi perdendo adeptos no eleitorado alemão. Esta nova GroKo (Grosse Koalition) pode restabelecer a confiança?

Estou convencido de que se as políticas incluídas neste documento forem postas em prática, e não fiquem apenas no papel, então a confiança das pessoas no novo governo pode ser recuperada. Porque a maioria das preocupações da população (por exemplo, a questão dos refugiados ou dos impostos) estão refletidas neste acordo e estas medidas têm como objetivo resolvê-las.

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