Governo libanês corta metade dos salários da classe política em resposta aos protestos

O Líbano aprovou um pacote de reformas económicas em resposta a uma onda de protestos antigovernamentais. Primeiro-ministro concorda com eleições antecipadas.

Ao quinto dia de manifestações, o governo libanês respondeu com a aprovação de um pacote de emergência de reformas económicas que deixa cair a introdução de novos impostos e passa pela redução do défice. O primeiro-ministro Saad Hariri apoia a realização de eleições antecipadas e elogiou a onda de protestos por terem quebrado barreiras sectárias e restaurado um sentimento de unidade nacional. "A vossa voz é ouvida e se exigem eleições antecipadas (...) eu estou pessoalmente convosco."

Depois de no domingo mais de um milhão de pessoas terem saído para as ruas (entre 1,2 e 1,7 milhões segundo diferentes fontes em seis milhões de habitantes), ao quinto dia escolas, bancos e empresas estiveram fechados, as estradas foram bloqueadas um pouco por todo o país. E centenas de milhares de pessoas saíram para as ruas contra uma classe política que acusam de ser corrupta e inepta, ao ponto de o país ter a terceira maior dívida pública, equivalente a 150% do Produto Interno Bruto.

Os protestos têm sido fora do vulgar pela dimensão, alcance geográfico e por unir as mais diversas pessoas numa sociedade onde os movimentos políticos estão divididos em linhas sectárias.

A decisão do governo impor novos impostos como, por exemplo, as chamadas e mensagens através da aplicação Whatsapp desencadearam a revolta popular, já desagradada com os elevados níveis de desemprego, má gestão e corrupção generalizada. Nas ruas ouvem-se palavras de ordem como "Revolução" e pela mudança de regime. Algumas das manifestações ficaram marcadas pelo tom festivo.

Guerra ao défice

"Hoje tomámos medidas para combater a corrupção e combater o desperdício, fizemos grandes projetos," disse Saad Hariri, acrescentando que as ações não foram projetadas para tirar as pessoas das ruas, mas que o governo deve trabalhar para conquistar a confiança das pessoas.

As reformas incluíram a medida simbólica de reduzir para metade os salários de ministros do governo e deputados, entre passos em direção a mudanças há muito adiadas e vistas como essenciais para colocar as finanças públicas do Líbano numa trajetória sustentável. Hariri disse que o governo vai aprovar dentro de três semanas a primeira fase de um programa de investimento de capital que os doadores prometeram financiar com 11 mil milhões de dólares sob a condição do Líbano aplicar reformas.

O governo aprovou um orçamento para 2020 sem novos impostos diretos e um défice de aproximadamente 0,6%, quando em 2019 deverá ser de 7%, disse Hariri.

Os passos de corte de custos incluem abolir o Ministério da Informação e outras instituições públicas de imediato e fundir outros desnecessários para economizar dinheiro. Para a redução do défice, o governo vai contar com o aumento dos impostos sobre os lucros dos bancos (3,4 mil milhões de dólares).

O governo também aprovou o estabelecimento de um comité para combater a corrupção antes do fim do ano.

A mobilização popular continuou após as medidas reveladas por Hariri num discurso transmitido pela televisão a partir do palácio presidencial.

Uma professora que ouvia o discurso no centro de Beirute não ficou convencida. " Vamos permanecer nas ruas, não acreditamos numa única palavra do que ele disse", disse Maya Mhana à Reuters.

"Mentiras, mentiras, mentiras", disse outro manifestante que não se identificou. "Eles governam há muito tempo. Se quisessem, poderiam ter feito qualquer coisa."

Saad Hariri chefia um governo frágil que demorou dois anos a formar-se, uma coligação de dez partidos que inclui muçulmanos sunitas e xiitas -- cujo maior partido é o Hezbollah, movimento apoiado pelos iranianos --, mas também cristãos maronitas e drusos. A fórmula governamental foi repetida em resultado das eleições parlamentares de 2018 (as primeiras em nove anos),

Em novembro de 2017, Hariri foi protagonista de uma situação inédita. De visita oficial à Arábia Saudita, o primeiro-ministro demitiu-se e acusou o Hezbollah de inadmissível intervenção na guerra na Síria. Após vários dias sem aparecer publicamente, o que levou o presidente libanês Michel Aoun a acusar Riade de rapto, Hariri reapareceu em Paris. A meio da crise, o presidente francês Emmanuel Macron deslocou-se à Arábia Saudita. Já em território libanês, Hariri recusou dar explicações sobre o que aconteceu, mas retirou o pedido de demissão. Este episódio foi visto como uma frente de conflito entre o Irão e a Arábia Saudita.