"Todos cometemos erros, mas evitámos um desastre"

Foi o ministro das Finanças grego que, em 2010, assinou o primeiro programa de resgate concedido a Atenas. Em entrevista ao DN, George Papaconstantinou admite que, na altura, a Europa não estava preparada para a crise e avisa que outras virão, apesar de agora estarmos melhor do que se pensaria. Diz que o Syriza chegou ao poder "com falsas esperanças" e acredita que a Grécia foi o primeiro país da UE a colocar um partido populista no poder, "mas também a votar para o tirar".

A Grécia saiu recentemente do procedimento por défice excessivo e o terceiro resgate termina em 2018. Vê um quarto resgate no horizonte?

Parece-me difícil de imaginar como é que a Grécia poderá ter uma "saída limpa" do seu terceiro resgate. As condições não estão realmente lá para que o meu país se financie totalmente nos mercados a partir do próximo verão e sem nenhuma ajuda. O spread sobre os títulos do governo continua a ser alto e os investidores ainda não estão verdadeiramente convencidos de que demos a volta. Ao mesmo tempo, não há o desejo no resto da zona euro, nem realmente uma necessidade, para um quarto resgate de pleno direito. Penso que o mais provável é acabarmos com uma solução "híbrida". Como sobrará dinheiro do terceiro resgate, este servirá como uma "rede de segurança" para o caso de a Grécia ter problemas em aceder aos mercados. Poderá assumir a forma de uma linha de crédito, por exemplo, com condições. E claro, qualquer acordo futuro incluirá uma supervisão contínua do ritmo das reformas estruturais.

Foi o ministro das Finanças que assinou o primeiro programa de resgate da Grécia. Como foram esses tempos?

Foi um período dramático. Hoje tendemos a esquecer a falta de preparação que todos tínhamos na Europa para uma crise como a que enfrentámos em 2009-10. As ferramentas que temos hoje, como o Mecanismo Europeu de Estabilidade, simplesmente não existiam, nem o Banco Central Europeu estava disposto a ter um papel voluntarista que tem hoje ao intervir nos mercados obrigacionistas. Estávamos todos a improvisar soluções e, tendo em conta que a política tem sempre um grande papel, estas eram normalmente as segundas melhores soluções. Na Grécia, era difícil convencer as pessoas de que as coisas tinham de mudar e que nada poderia continuar na mesma. E na Alemanha e outros países do norte, era difícil convencer os contribuintes de que a melhor maneira de preservar o euro era ajudar a Grécia e outros países com problemas. Por isso todos cometemos erros, todos reagimos demasiado devagar e o custo foi maior do que precisava ser. Mas evitámos um desastre absoluto.

Quando foi conhecida a saída de Wolfgang Schäuble do governo alemão recordou o vosso primeiro encontro. Como foi lidar com ele? Acha que as coisas vão mudar sem Schaüble?

Wolfgang Schäuble deixou certamente uma marca no Eurogrupo... ele foi a peça-chave da crise da zona euro. Nós tínhamos uma relação de respeito mútuo, mas não foi sempre fácil, como pode imaginar. Curiosamente, no início foi ele quem convenceu Angela Merkel a levar a Alemanha a ajudar a Grécia. Mais tarde, porém, ficou cada vez mais convencido de que a zona euro, e até mesmo a Grécia, estariam melhores com um grexit. Eu acredito que ele estava errado nisso e fico satisfeito por ele ter perdido essa discussão em 2015. Mas a relação da Alemanha com a Grécia é mais complicada do que apenas uma pessoa. Tem a ver com desconfiança e, muitas vezes, com preconceito. Infelizmente, demasiados políticos na Alemanha defenderam uma narrativa populista sobre a Grécia. E muito poucos estavam dispostos a reconhecer que o seu país é na verdade o maior beneficiário da moeda comum. Quanto a saber se as coisas vão mudar agora que haverá um novo ministro das Finanças alemão, penso que podem piorar antes de melhorar. A nova pessoa vai querer provar que é "duro com a Grécia" por isso poderemos ter algumas negociações difíceis.

Como descreve o governo do Syriza? Aparentemente as coisas estão um pouco melhores na Grécia e a UE e os credores estão mais satisfeitos. Este é o caminho certo para o seu país?

O Syriza chegou ao poder com falsas esperanças e mentiras absurdas e o país sofreu muito com isso. Antes das eleições de 2015, a economia estava a crescer e tínhamos finalmente um superávit fiscal primário. A chamada negociação de 2015 e o desastroso referendo reverteram tudo isso, trouxeram o controlo de capitais e custaram ao país dois anos e dezenas de milhares de milhões de euros. Agora, finalmente, estamos onde estávamos no final de 2014 e a economia está a crescer outra vez, lentamente, mas pelo menos a crescer. Com a economia da UE a crescer pelo sexto ano consecutivo, a Grécia deveria estar muito melhor do que está. Mas a confiança tem sido muito abalada e os investidores, tal como os nossos credores, sabem que o Syriza não acredita nas reformas estruturais necessárias para que o país se torne competitivo. Eles estão contentes pelo governo estar a procurar uma consolidação fiscal, mas infelizmente isso é feito com muita dependência do aumento de impostos e não o suficiente no controlo da despesa.

A Grécia foi o primeiro país da UE a colocar um partido populista no poder. Agora o Syriza está muito atrás da Nova Democracia nas sondagens. Acha que os gregos vão castigar Tsipras nas eleições?

A experiência dos últimos anos sugere que em crise nenhum partido é recompensado por fazer a coisa certa - no caso do Syriza, por abandonar as suas promessas de campanha e evitar no último minuto a expulsão da Grécia da zona euro. As pessoas estão zangadas e frustradas, por isso todos os governos são castigados nas urnas. O mesmo irá acontecer ao Syriza, e no caso deles será também porque mentiram para chegar ao poder e porque criaram expectativas tão elevadas de que existiam soluções fáceis e indolores. O Syriza adotou infelizmente alguns dos piores comportamentos clientelistas de governos anteriores perdendo qualquer autoridade moral. Por isso, quando houver eleições, a Grécia não será apenas o primeiro país a colocar um partido populista no poder, mas também a votar para o tirar do poder.

As eleições estão previstas para 2019. Acha que terão eleições antecipadas?

Este governo tem mostrado uma resiliência notável. Eles apegaram-se ao poder e o seu grupo parlamentar parece não ter problemas em votar medidas de austeridade adicionais que em teoria vão totalmente contra o que acreditam. Por isso é possível que fiquem até ao final da legislatura, no verão de 2019. No entanto, Tsipras pode escolher ir a votos no próximo verão após o final do atual resgate, de forma a capitalizar uma narrativa de que "a Grécia saiu do período de resgate". Ou pode ser forçado a ir a eleições se a justiça se debruçar sobre o comportamento do líder do parceiro de coligação do Syriza, o ANEL.

Como vê o quase desaparecimento do PASOK e agora o aparecimento de um novo partido de centro-esquerda?

O PASOK pagou um preço muito pesado por ter feito a coisa certa no início da crise e por ser responsável, assinando o primeiro resgate em 2010 e impondo duras medidas de austeridade e impulsionando reformas estruturais difíceis. Na altura havia muita negação na sociedade grega e pagámos politicamente por isso - e alguns de nós a um nível pessoal também. Mas o país precisa de uma voz robusta no centro-esquerda, não se pode simplesmente ter a Nova Democracia à direita e o Syriza à esquerda. Espero que o processo em curso para eleger um novo líder para o, ainda por definir, novo partido político que cobre o centro e a social-democracia seja o primeiro passo num processo para recuperar a confiança das pessoas e desempenhar um papel importante na política grega à medida que avançamos.

Em 2016, alertou os políticos europeus de que poderiam enfrentar uma tempestade perfeita no verão com os refugiados e a crise da dívida soberana ainda por resolver. Hoje qual é a sua opinião sobre o futuro da Europa?

Na verdade, estamos melhor do que pensaríamos estar. As economias europeias estão a crescer, a crise dos refugiados, apesar de ainda por resolver, está sob controlo, e a crise das dívidas soberanas não representa um perigo imediato. Mas a verdadeira questão é se fizemos o tipo de reformas que permitirão à UE enfrentar a próxima crise quando esta vier, porque vai acontecer. E a resposta é que, embora tenhamos feito muito, não fizemos o suficiente. Ainda não criámos uma verdadeira união fiscal, a união bancária não está completa e, mais importante, parece não termos respostas convincentes aos problemas que impulsionam os partidos populistas em muitos países europeus. Após as eleições francesas e alemãs temos uma janela de oportunidade para sermos arrojados e avançar com o projeto europeu. Não podemos perder essa oportunidade.

Esteve no centro do julgamento da chamada "lista Lagarde", que menciona no seu livro Game Over. Como foi enfrentar tudo isso?

Foi o período mais difícil da minha vida, muito mais duro do que o tempo em que fui ministro das Finanças. Dei por mim como o bode expiatório perfeito de um sistema político que precisava de encontrar uma vítima para arcar com toda a sua culpa. Na verdade, todo o processo não teve nada a ver com as acusações específicas - e totalmente injustificadas - sobre o tratamento de informações fiscais que pedi e recebi da minha homóloga francesa. Tratou-se de punir a pessoa que assinou o primeiro memorando. Sem provas, fui levado a julgamento e, enquanto que as acusações criminais foram abandonadas, o resultado final tinha como objetivo deixar uma sombra sobre mim, não permitindo a minha total defesa. A política pode ser brutal, especialmente numa altura de crise. Todo o processo deixou-me com um sabor muito amargo, mas conforta-me o facto de que é amplamente reconhecido que foi uma caça às bruxas política.

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