Escândalo de corrupção envolve 72 chefes de Estado, de Putin a Cameron

Investigação revela como são escondidas fortunas através de offshores, bancos e empresas fictícias. Há um português envolvido

Uma gigante fuga de informação - 11,5 milhões de ficheiros - revela como chefes de Estado, políticos, criminosos, celebridades, multimilionários e estrelas do desporto usam paraísos fiscais (offshores) para "lavar dinheiro", esconder património e fugir aos impostos.

Há referências a 72 chefes de Estado - atuais e antigos, incluindo ditadores acusados de saquear os seus próprios países - e detalhes, nomeadamente, de negócios ocultos de 128 políticos mundiais. Os documentos revelam ligações de atuais líderes mundiais a companhias offshore através de uma firma de advogados - a Mossack Fonseca, com sede no Panamá - que tem filiais em quase 40 cidades e que terá criado milhares de empresas fictícias. Surgem também informações sobre tráfico ilegal de diamantes e arte.

A empresa afirma que opera há 40 anos acima de qualquer crítica ou ilegalidade e nunca foi acusada de atos criminosos. Num comunicado, a Mossack Fonseca garante "não promover quaisquer atos ilegais". Leia aqui a declaração completa da firma de advogados.

Dos documentos revelados constam informações sobre 214 488 offshores relacionadas com pessoas em mais de 200 países. São documentos de uma das empresas mais secretas do mundo que revelam como a Mossack Fonseca tem ajudado os seus clientes na lavagem de dinheiro, em contornar sanções e na evasão fiscal, segundo afirma o The Guardian.

Há ficheiros sobre empresas offshore "controladas pelos primeiros-ministros da Islândia e do Paquistão, o rei da Arábia Saudita e os filhos do presidente do Azerbaijão", segundo revela o Expresso que faz parte do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação e do jornal alemão Süddeutsche Zeitung que revelam hoje parte da extensa documentação.

Da lista até agora revelada consta o nome de um português: Idalécio de Castro Rodrigues de Oliveira. O empresário deteve 14 empresas com sede nas Ilhas Virgens Britânicas - nas áreas dos minérios, gás natural e exploração de petróleo. A venda dos direitos de exploração de um campo de petróleo, no Benim, à Petrobas acabou por envolver o empresário no caso Lava-Jato. Idalécio de Castro Rodrigues de Oliveira detinha - em nome da empresa Lusitania Petroleum - várias licenças de exploração petrolífera em África

Empresas fictícias criadas por grandes bancos são referidas 15 600. UBS e HSBC são dois dos 500 bancos identificados na investigação.

O setor bancário surge em lugar de destaque no processo de criação de empresas fantasmas em paraísos fiscais - como o próprio Panamá, as Bahamas, a ilha de Man, o Belize, a Nova Zelândia, o Wyoming, o Nevada e mais de uma dúzia de outros locais da mesma natureza - para garantir total segredo e privacidade às contas dos seus clientes.

Há a menção, por exemplo, a offshores ligadas a familiares do presidente chinês, ao presidente ucraniano Petro Porochenko, a pessoas próximas do presidente russo, ao primeiro-ministro da Islândia, a 29 multimilionários da lista da Forbes, ao presidente da Argentina, ao ator Jackie Chan e a Lionel Messi.

Entre as revelações ligadas a dirigentes mundiais está o facto de familiares próximos do presidente chinês, Xi Jinping, e familiares da grande maioria dos elementos do órgão de topo do Partido Comunista Chinês terem investimentos em offshore.

O caso russo, que envolve os mais próximos de Putin, é assim explicado pelo The Guardian. O jornal inglês avança que os documentos mostram como aplicações financeiras de membros do círculo fechado do Presidente russo Vladimir Putin os tornaram "fabulosamente ricos". No caso russo, há pelo menos sete empresas offshore que estão ligadas a um próximo de longa data de Vladimir Putin, o violoncelista Sergei Roldugin.

O Presidente russo não aparece em nenhum dos registos, mas os dados revelam um padrão: os seus amigos, Yuri Kovalchuk e Sergei Roldugin ganharam milhões em negócios, que aparentemente não poderiam ter sido efetuados sem o seu patrocínio.

Os ficheiros com informações de 1977 até finais do ano passado, contêm dados nunca revelados de casos, como por exemplo, o escândalo de subornos na FIFA. Os Papéis do Panamá - assim se chama a investigação - é uma das maiores fugas de informação de sempre. Ultrapassa o famoso WikiLeaks de Julian Assange.

A lista completa das empresas e nome envolvidos será divulgada em maio. Uma delas terá ajudado o governo sírio em bombardeamentos.

A lista de nomes envolvidos, já conhecidos, inclui o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, o ex-presidente da UEFA, Michel Platini, e a irmã do rei Juan Carlos e tia do rei Felipe VI de Espanha, Pilar de Borbón e o pai de David Cameron.

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