Filme mostra bastidores da campanha do Brexit a dias do voto decisivo

Benedict Cumberbatch é Dominic Cummings, o consultor político que esteve por detrás do slogan da campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia num filme do Channel 4 britânico que estreia esta noite.

"Toda a gente sabe quem ganhou. Mas nem todos sabem como." Este é o mote de Brexit: The Uncivil War (Brexit: A Guerra Incivilizada, numa tradução livre), um telefilme que estreia esta segunda-feira às 21.00, no Channel 4 britânico. O ator Benedict Cumberbatch desempenha o papel de Dominic Cummings, o arquiteto por detrás da bem-sucedida campanha do Brexit para o referendo de 23 de junho de 2016.

Ainda antes de estrear, já o filme dava que falar a pouco mais de uma semana de um voto chave no Parlamento britânico em relação ao acordo de saída do Reino Unido da União Europeia, negociado entre a primeira-ministra Theresa May e Bruxelas. A votação está prevista para dia 15, mas tinha estado inicialmente prevista para antes do Natal - May adiou por falta de apoio dentro do Partido Conservador e nada garante que isso não volte a acontecer.

Cummings, ex-chefe de gabinete de Michael Gove, criou em 2015 a campanha Vote Leave com o estratega político Matthew Elliot (papel desempenhado por John Heffernan). Foi o responsável pelo slogan "Vote Leave, Take Back Control" (Vota para sair, recupera o controlo) - no filme, a ideia surge quando ele está na cama, ao lado da mulher grávida, a ler um livro sobre como se preparar para a paternidade e lê as palavras "take back control".

Cummings foi também um dos responsáveis pelo polémico autocarro vermelho de dois andares que andou a percorrer o país com a promessa de que o Reino Unido poderia poupar 350 milhões de libras por semana ao sair da União Europeia e usar esse dinheiro para financiar o Serviço Nacional de Saúde. "Encontrem-me o número de quanto é que custa estar na União Europeia. O número mais alto ganha", diz o seu personagem no filme.

Na promoção do telefilme foi usado um autocarro vermelho do mesmo género com a expressão: "Take back the remote control", isto é, recupera o controlo da televisão.

Foi também Cummings que reconheceu o potencial de usar os dados eletrónicos de milhões de eleitores não registados para conquistar votos, parte do escândalo da Cambridge Analytica e do Facebook, que ainda hoje gera debate. Ao mesmo tempo, procurou que nada na sua campanha fosse sobre imigração - deixando esse tema para políticos que sabia criarem divisão, como o ex-líder do Nigel Farage, que estava na campanha do Leave.EU (que também defendia a saída do Reino Unido da União Europeia).

Farage e outros políticos como Boris Johnson ou Michael Gove também aparecem no filme (os críticos dizem que por vezes demasiado caricaturados). Mas o primeiro-ministro David Cameron ou o líder do Labour (oposição), Jeremy Corbyn, são mencionados apenas de passagem, segundo os jornalistas e alguns políticos britânicos que puderam assistir antes ao telefilme que estreia esta segunda-feira no Reino Unido e em 19 de janeiro nos EUA, através da HBO (não se sabendo se chegará a Portugal).

O jornalista da BBC, Nick Robinson, escreveu no Twitter que o filme captura "de forma brilhante o que nos divide, mostra o bom e o mau de ambos os lados e explica porque é que os que lideram a mudança acabaram por ser os vencedores. Vejam se querem pensar, Não vejam se simplesmente querem as vossas posições/preconceitos ampliados."

Um guião baseado em dois livros

O guião do filme é baseado em dois livros sobre o Brexit, um de Tim Shipman e outro de Craig Oliver. Este último foi diretor de comunicação do então primeiro-ministro David Cameron, tendo-se tornado no responsável pela comunicação da campanha do Remain, sendo interpretado no telefilme por Rory Kinnear.

O responsável pelo guião é o argumentista e dramaturgo James Graham, que já está habituado a escrever sobre política britânica. Em 2015, estreou também no Channel 4 o telefilme Coalition, sobre a formação da coligação entre David Cameron e Nick Clegg, após as eleições de 2010. O realizador é Toby Haynes (Doctor Who, Black Mirror e Sherlock).

"O guião lê-se como um thriller", disse Cumberbatch ao Belfast Telegraph, que esteve nos bastidores das gravações. "Chegas à noite do referendo e genuinamente não sabes qual vai ser o resultado. Porque o James constrói esta expectativa - este momento de saltar para o desconhecido - a um ponto que te esqueces o que aconteceu realmente", acrescentou o ator, conhecido por desempenhar o papel de Sherlock Holmes na série Sherlock, ou Doutor Estranho nos filmes da Marvel.

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