Dez anos depois, Hamas cada vez mais isolado na Faixa de Gaza

Conflito entre o Qatar e os países vizinhos no golfo Pérsico pode dificultar ainda mais a vida dos habitantes de Gaza

"A vida só é agradável para os líderes do Hamas." O autor da frase, publicada no Facebook, foi preso. "Pobreza, desemprego e desespero abundam na Faixa de Gaza." Este é o balanço que a agência AP faz de uma década de domínio do Hamas naquela parte dos territórios palestinianos. E, incapaz de encontrar uma solução para os problemas, o grupo islâmico opta por oprimir ainda mais a população.

Cumpre-se hoje uma década desde que, em junho de 2007, a batalha entre o Hamas e a Fatah do presidente palestiniano Mahmoud Abbas terminou com a subjugação de Gaza aos islamitas. Dez anos volvidos, o pequeno território entalado entre Israel, Egito e Mediterrâneo continua a ser uma ferida a céu aberto no Médio Oriente.

Desde 2007, o Hamas e Israel já passaram por três situações de guerra aberta, primeiro no inverno de 2008-2009, depois em 2012 e mais recentemente em 2014. Todas essas situações de conflito armado contribuíram para agravar ainda mais as condições de vida no território, destruir ainda mais infraestruturas e dificultar qualquer possibilidade de reaproximação no sentido da paz.

Segundo a AP, as sondagens mostram que metade da população, que ronda os dois milhões, abandonaria o território caso tivesse essa possibilidade. Ainda assim, o movimento islamita e fundamentalista conta com o apoio de cerca de um terço dos habitantes. As perspetivas para o futuro próximo não são boas. Por um lado, o Hamas, que se recusa a reconhecer Israel, continua a ser visto no Ocidente como um grupo terrorista radical. Por outro, a Fatah de Mahmoud Abbas - "farta de esforços de reconciliação falhados", como escreve a AP - vai colocando cada vez mais pressão sobre os líderes rivais e ameaça apertar ainda mais o bloqueio financeiro e comercial. Por fim, o Qatar, um dos poucos amigos do Hamas na região, encontra-se cada vez mais isolado e de costas voltadas para os vizinhos.

O embargo e a pressão que a Arábia Saudita, o Egito e os Emirados Árabes Unidos - entre outros estados do Golfo Pérsico - impuseram ao Qatar nas últimas semanas arrisca tornar-se uma bomba-relógio para Gaza. Pressionado pelos vizinhos, o Qatar - para mostrar que não dá assistência a organizações consideradas terroristas - pode ver--se tentado a cortar o apoio financeiro e político ao Hamas. Apenas desde 2012, o Qatar diz ter auxiliado o Hamas com 1,5 mil milhões de dólares destinados à construção de estradas, prédios, escolas e clínicas médicas. Sem essa torneira e com a Autoridade Palestiniana a cortar também nos subsídios e nos pagamentos, os habitantes de Gaza podem ver-se numa situação ainda mais precária. "É possível que o Hamas seja o grande derrotado daquilo que se passa no Qatar", afirma Ashraf Abouelhoul, jornalista do egípcio Al-Ahram, à Reuters.

Yahya Sinwar, eleito em fevereiro como o novo líder do Hamas em Gaza, esteve no Egito no início de junho para discutir a situação humana e outras questões políticas. Pouco se sabe do conteúdo das conversas que terá tido no Cairo, mas o país liderado pelo presidente Al-Sisi pretende que o Hamas corte relações com a Irmandade Muçulmana, vista como um grupo terrorista, e que adote uma posição mais moderada.

Em 2006, depois da retirada unilateral de Israel da Faixa de Gaza, o Hamas derrotou nas urnas os rivais da Fatah, de Abbas. A tensão entre as duas forças palestinianas resultou na batalha de junho do ano seguinte. Desde então, Gaza tem estado sob o domínio do Hamas, que defende a criação de um estado islâmico na Palestina, incluindo o território que hoje é Israel.

"É óbvio que a única resposta racional se de facto estivéssemos preocupados com a paz seria dialogar com o Hamas numa tentativa de que moderassem as suas posições. De outra forma, não terão incentivo para ir mais longe" e os radicais em Gaza vão ganhar, explica, num artigo publicado no The Guardian, a jornalista Sarah Helm, especializada em temas do Médio Oriente. Mas isso, defende a mesma repórter, não agradaria ao primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, "que não tem desejo de mudar a situação". Até que soprem ventos de paz, Gaza continuará enfaixada numa espiral de conflitos. E de sofrimento para quem lá vive.

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