De quem é a culpa da atual situação na UE?

Dirigentes europeus e o próprio David Cameron tiveram uma abordagem contraproducente durante a campanha para o referendo.

Um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros britânico e igualmente chefe de governo, Alec Douglas-Home, afirmou, em 1965, pouco depois de deixar Downing Street, que a ambivalência dos seus concidadãos face à Europa assentava na seguinte escolha: "É preferível ser segundo atrás da Alemanha ou ser segundo atrás dos Estados Unidos?" - a resposta foi dada ontem de forma clara, pelo menos, à primeira parte da pergunta. Muito por responsabilidade de vários dirigentes europeus; entre eles David Cameron.

Aquilo que foi "a mais doce vitória de todas", a maioria absoluta nas legislativas de maio de 2015, transformou-se na "mais amarga das derrotas", notava ontem The Independent, referindo que Cameron não tinha forçosamente de convocar o referendo que inscrevera no programa eleitoral dos conservadores para satisfazer os eurocéticos do partido e neutralizar o apelo do Ukip de Nigel Farage. Este terá sido o primeiro erro de cálculo; o segundo terá sido o de agitar o fantasma das repercussões negativas para a economia do Reino Unido. Uma tarefa em que contou com a colaboração ativa de outros dirigentes europeus e de instituições como o FMI, a OCDE e o Banco Mundial. Por último, Cameron é responsável pela derrota em causa própria. Até à campanha do referendo, o dirigente conservador cultivou uma retórica antieuropeia, enumerando as vezes que contrariou decisões no Conselho Europeu e como o seu governo recusava o reforço da integração e como eram múltiplas as divergências entre Londres e Bruxelas, como fez a anteceder as negociações em fevereiro sobre o "estatuto especial" do Reino Unido na UE.

Ao prometer o referendo, Cameron portou-se "como o político que pensa na próxima eleição" e não como "o estadista que pensa na próxima geração". Estas palavras, do teólogo americano do século XIX James Freeman Clarke, citadas pelo presidente do BCE, Mario Draghi, na homenagem em Munique a um antigo ministro das Finanças alemão, Theodor Weigel (no cargo de 1989 a 1998 e um dos grandes defensores do euro), uma semana antes do referendo, evidenciam o dilema de muitos dos líderes europeus. Entre eles, o próprio Draghi, que, para vários analistas, tem seguido uma política monetária que visa apenas o curto prazo. E em que continua a insistir apesar de não se obterem os efeitos desejados, "permanecendo o crédito [concedido pelo BCE] no sistema financeiro (...) e sem estimular os investimentos", escrevia em finais de maio em Les Echos Pascal de Lima, economista e professor no Instituto de Estudos Políticos de Paris. "O BCE está sujeito a um fenómeno bem conhecido dos mercados: quanto mais se quer provar que se está a atuar, mais são os sinais de impotência que se demonstra", o que compromete a credibilidade do BCE e a "confiança total" que os mercados devem ter nesta instituição para que "funcionem as suas ações", notava o jornal económico francês La Tribune, em março, sublinhando que a esfera de ação de Draghi depende ainda da "influência do Bundesbank". E, de facto, muito do que se passa na UE tem que ver com Berlim e com as prioridades do governo alemão. "A resposta ao brexit não pode ser simplesmente uma maior integração", declarou o ministro das Finanças Wolfgang Schäuble após ser conhecido o resultado do referendo.

O mesmo Schäuble que antes do voto lançara um ultimato ao Reino Unido, ao apontar para os custos económicos de uma saída e afirmando que não poderia ter acesso ao mercado único em condições especiais, como a Noruega, pois isso "seria seguir as regras de um clube de que se quer sair. Ficar é ficar. Sair é sair. Espero que escolham bem".

Uma linha de argumentos que, ao contrário de assustar o eleitor do brexit, pelo contrário, contribui para confirmar as suas perceções e preconceitos sobre a UE. Ora, foi sempre neste sentido que se pronunciaram os dirigentes europeus, como o presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Dijsselbloem. "O maior risco é para as nossas economias - e principalmente para a do Reino Unido, claro", disse Dijsselbloem poucos dias antes do voto. Mas o único incentivo que teve para dar ao campo da permanência foi uma frase vazia: "Mas mantê-los na UE não basta. Quero-os na frente; quero que sejam protagonistas."

As tentativas de chantagem económica e as contradições, muitas vezes, entre as declarações e a prática dos líderes europeus, contribuíram para a vitória do brexit. Veja-se as declarações do presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, quando lhe perguntaram em maio sobre a latitude concedida à França na questão da meta dos défices: "Porque é a França", tornando clara a existência de membros de primeira e de segunda na UE. E a poucos dias da votação, Juncker comentou uma possível saída do Reino Unido dizendo que "os desertores não serão bem-vindos de volta". Perante este quadro entende-se melhor que mais de 17 milhões de cidadãos do Reino Unido tenham querido mesmo "desertar" da UE.

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