Das cinzas que pararam os aviões à equipa que eliminou Inglaterra

O sucesso da seleção no Euro 2016 aumentou as exportações de queijo e levou policiais negros às listas de livros mais vendidos em França. O turismo tem vindo a crescer e neste ano o número de visitantes dos EUA deve ultrapassar a população residente

Os heróis improváveis que decidiram o englandexit

O jogo de estreia da Islândia na fase final de uma grande competição de futebol foi contra Portugal, a 14 de junho deste ano. Birkir Bjarnason empatou a partida aos 50 minutos e o marcador não sofreu mais alterações. Foi o primeiro passo de uma caminhada que encantou os adeptos e só terminou nos quartos-de-final, com a França. Antes, no dia 27 de junho, aconteceu o impensável: a Islândia, país de apenas 330 mil habitantes, despachou para casa os ingleses. O planeta futebolístico rendia-se definitivamente à equipa nórdica e à coreografia viking com que os adeptos celebravam as vitórias. E, feitas as contas, o futebol ajudou aos números islandeses. A 9 de outubro deste mês o The Guardian publicou um artigo sobre a forma como o sucesso no Euro 2016 ajudou o turismo, a literatura e as vendas de skyr, um queijo tradicional. Durante o verão, enquanto os golos se iam celebrando em islandês, o policial negro Snjór (Neve), do escritor Ragnar Jonasson, tornou-se um dos best sellers em França e as vendas de skyr, principalmente no Reino Unido, dispararam. "Eiður Guðjohnsen [antigo jogador do Chelsea e do Barcelona] é o nosso embaixador para o skyr", sublinha ao diário britânico o responsável pela empresa que comercializa o queijo.

O vulcão que deixou a Europa em suspenso

Mesmo sem estatísticas oficiais cientificamente comprovadas, não é arriscado afirmar que a Islândia é um dos países do mundo com mais vulcões ativos per capita. São 30 as montanhas cuspidoras de fogo e os habitantes são cerca de 330 mil. Para melhorar a perspetiva, é mais ou menos a mesma coisa que oferecer 30 vulcões à população do concelho de Sintra - e mesmo assim há menos islandeses do que sintrenses. Já lá vão seis anos e meio desde que a erupção do impronunciável Eyjafjallajökull, em 2010, deixou a Europa em suspenso. Entre 14 e 20 de abril, no pico da fúria vulcânica, as cinzas que se espalharam pelos céus provocaram o caos no trânsito aéreo. Durante esses sete dias foram cancelados mais de 107 mil voos e cerca de 10 milhões de passageiros foram afetados nos seus planos de viagem. O custo da crise das cinzas foi estimado pela Associação Internacional de Transportes Aéreos em mais de 1,5 mil milhões de euros. Quem nos últimos meses tem estado bastante ativo é o Katla, um dos maiores vulcões na Islândia, com 20 erupções documentadas desde o ano 930. A última substancial aconteceu em 1918 e a nuvem de cinzas que provocou foi cinco vezes maior do que aquela que foi gerada pelo Eyjafjallajökull em 2010.

A terra que inspira criadores de outras latitudes

Por esta altura do ano, o número de turistas norte-americanos que visitaram a Islândia já deverá ser superior à população do país. De acordo com dados oficiais, vindos dos EUA, até ao final de setembro, chegaram 325 mil visitantes. Tendo em conta que a população é de 330 mil, outubro deverá ter sido o mês da ultrapassagem. Desde 2011 que o crescimento turístico tem sido significativo. Nesse ano, o número total de visitantes foi de 566 mil e no ano passado ultrapassou um milhão. Para o The Telegraph, parte deste aumento justifica-se pelo "efeito Guerra dos Tronos". Muitas das paisagens que aparecem na série foram filmadas na Islândia. O país tem-se revelado fonte de inspiração para muitos criadores. O português Valter Hugo Mãe lançou em 2014 o romance Desumanização, passado na Islândia. A obra foi neste ano editada em islandês e rapidamente chegou ao primeiro lugar na lista de mais vendidos. Falando de cinema, o país também é um dos protagonistas no filme A Vida Secreta de Walter Mitty (2013), dirigido por Ben Stiller. No que aos artistas locais diz respeito, há dois nomes que dificilmente não figuram na lista de mais proeminentes criadores islandeses: a cantora e compositora Björk (na foto acima) e a banda Sigur Rós.

O país em que elas protestam saindo do trabalho às 14.38

Quando se fala de igualdade de direitos entre homens e mulheres, a Islândia aparece quase sempre citada entre os melhores exemplos. Lembra o The Guardian, num artigo publicado no início da semana, que nos últimos seis anos o país ocupou sempre o lugar cimeiro no índex do Fórum Económico Mundial para a igualdade de géneros e que o The Times nomeou recentemente a terra de Björk como "o melhor lugar do mundo para as mulheres trabalhadoras". Ainda assim, o ditado português "com o mal dos outros posso eu bem", parece poder aplicar-se às islandesas. Na passada segunda-feira, milhares de mulheres abandonaram os postos de trabalho às 14.38. Porquê tanta precisão no relógio? Porque, a partir daí, considerando um dia laboral de oito horas, as mulheres estão a trabalhar de graça em comparação com os homens. De acordo com um estudo recente, elas ganham 14% menos do que eles. No protesto que fizeram em 2005 a hora de saída foi às 14.08 e em 2008 às 14.25. Contas feitas, a este ritmo a igualdade só será conseguida daqui a 52 anos. No que a elas diz respeito, a Islândia também é um dos países com mais misses Mundo per capita. Venceram por três vezes. Unnur Birna Vilhjálmsdóttir, na foto acima, foi rainha em 2005.

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