"Cuba vai tentar tudo para manter as relações com os EUA"

É a segunda vez que Mercedes Martínez Valdés está colocada como diplomata cubana em Portugal, agora como embaixadora. Nesta primeira entrevista a um jornal português, fala da sucessão de Raúl Castro, mas também das suas memórias de Fidel, que conheceu em criança, num encontro de El Comandante com pioneiros.

Hoje são eleitos os deputados da Assembleia Nacional que, em abril, elegem o novo presidente. Raúl Castro disse que saía no final do mandato. É possível que recue na decisão?

O nosso sistema político é uma expressão da vontade do povo. É um sistema genuíno, autóctone, fundado numa rica e histórica luta do povo pela igualdade, pela solidariedade entre homens e mulheres, pela independência e soberania. Tem como base o princípio de que o governo é do povo, pelo povo e para o povo. Raúl Castro, presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros, no último discurso perante a Assembleia Nacional, falou da conveniência de limitar a dois mandatos de cinco anos o exercício dos cargos principais. A 19 de abril, depois de ser constituída a nova assembleia, vai concluir o seu segundo mandato e certamente Cuba terá um novo presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros.

Não haverá surpresas de última hora?

Não há nenhuma surpresa. Temos a certeza que as mulheres e os homens eleitos para ocupar altas responsabilidades do Estado e do Governo representarão o nosso povo com dignidade e darão continuidade ao trabalho da revolução. O nosso projeto é coletivo. Vai haver uma mudança de líder, mas a continuidade dos princípios será mantida.

Há anos que se fala em Miguel Diaz-Canel como possível sucessor de Raúl. Que impacto terá a eleição de um novo presidente, o primeiro não-Castro em mais de meio século e o primeiro nascido após a vitória da revolução?

Fidel e Raúl não foram presidentes por serem irmãos ou serem da família Castro. Foram presidentes porque lutaram pela libertação de Cuba e porque dirigiram também o processo depois da revolução. E porque o povo os elegeu. O processo vai continuar, quem for eleito vai continuar o que iniciámos em 1959, claramente adaptado às situações atuais, do país e do mundo, mas está garantida a continuação do processo.

Raúl deixará a presidência do Conselho de Estado, mas continuará a ser líder do Partido Comunista. Como será a relação com o novo presidente?

Raúl é o secretário do partido até que haja eleições no próximo congresso. Tem a responsabilidade de liderar o partido que, pela nossa Constituição, é a força motora que dirige a sociedade cubana. Não há nenhuma dificuldade em que Raúl fique como secretário.

Mas é uma situação inédita haver duas pessoas diferentes nos cargos, tirando na transição de Fidel para Raúl. É a primeira vez que Cuba vai ter um chefe de Estado diferente do líder do partido...

Sim, mas serão os dois do partido. Os nossos deputados sabem que pessoa escolher e tenho a certeza que quem for eleito, seja quem for, vai ter o apoio do partido. O único que existe em Cuba. Qualquer outro partido que queira existir temos a certeza que vai ser financiado pelos EUA, pelas pessoas que querem Cuba num outro contexto, não uma Cuba independente ou soberana. Para nós, não há problema em ter um secretário do partido e um presidente que não sejam a mesma figura .

Mas quem vai ter mais poder? Raúl enquanto secretário do partido ou o presidente do Conselho de Estado?

A direção do país é colegial, por isso ninguém é superior. Há o Conselho de Ministros, o Conselho de Estado, a Assembleia que legisla e o partido como força motora da sociedade. Podem ter a certeza que tudo vai continuar. Mas é o que tem dito Raúl. Temos que melhorar muitas coisas, temos que melhorar o nosso socialismo, implementar as diretrizes da política económica, em função de melhorar todas as dificuldades, os erros que temos no nosso processo. Num cenário muito difícil, porque existe o bloqueio, as dificuldades que provoca nas finanças, os problemas naturais, os furacões, a seca.

Mesmo que não sejam uma dinastia, os Castro vão deixar de liderar Cuba. Há a provável mudança de geração e uma liderança bicéfala. Como se concilia continuidade com novidades?

Antes do dia 19 de abril não sei quem vai estar à frente do país, não sei se será um dos líderes históricos da revolução, ainda há muitos, não sei se é um novo representante das novas gerações...

Tudo está em aberto...

Temos que esperar até dia 19, eu não sei quem vai ser eleito...

... exceto que não será Raúl Castro.

Raúl Castro disse que não, no último discurso. Que vai acabar os seus dois mandatos, mas temos que esperar até dia 19. É a única certeza que há até agora.

Nos últimos dez anos houve muitas mudanças económicas. Quais são as previsões económicas para Cuba?

No ano passado, o PIB cresceu 1,6%. Estamos a tentar chegar a 2% este ano. Temos muitas coisas ainda que fazer, principalmente desenvolver os setores que estão a permitir o crescimento económico. Por exemplo, o turismo. No ano passado chegaram 4,7 milhões de turistas à ilha. Também tivemos um crescimento do setor dos transportes, da construção, temos também a possibilidade de aumentar nos serviços. E temos que implementar as diretrizes económicas já aprovadas. É um processo muito difícil, pelas condições em Cuba. Cuba não é um país rico, é um país que está num processo de desenvolvimento, com as dificuldades próprias de um país em níveis de desenvolvimento, e além disso bloqueado. Temos que trabalhar muito para resolver os nossos problemas.

Para quando o fim da dupla moeda?

Raúl já disse que temos que resolver essa situação. Nós vamos resolver todas essas questões no tempo que for preciso. Não queremos cometer erros. Um erro em Cuba tem duas consequências: uma é o desejo de tirar a independência e a soberania e a outra é o de tirar os sucessos sociais que teve a revolução nos últimos 60 anos. Temos que ir ao nosso ritmo. Temos os EUA muito perto e não queremos perder as conquistas sociais.

Falou dos EUA. Com Raúl e Barack Obama foi possível um acordo histórico. Com Donald Trump as coisas mudaram para pior do ponto de vista prático ou tudo não passa da retórica?

É prático, porque Trump responsabilizou Cuba por incidentes de saúde que afetaram diplomáticos norte-americanos e há uma retórica muito agressiva, muito irrespeitosa, e de condicionamento de altos funcionários do governo dos EUA para com Cuba. E isso, para nós, constitui um retrocesso nas relações. O departamento do Tesouro emitiu novas medidas, não é algo abstrato. Qualificou-se Cuba no nível 3 do novo sistema de alerta ao viajante do Departamento de Estado. Por essa medida aconselha-se os turistas a reconsiderar as viagens sob o argumento de supostos ataques à saúde dos diplomatas.

Mas também vi que Cuba começou a exportar carvão para os EUA. As perspetivas económicas são viáveis ou estão ameaçadas por Trump?

Tudo o que sejam medidas contra uma relação normal, obstacularizam o desenvolvimento de boas relações. Se põe uma medida sobre as viagens a Cuba obstaculariza tudo, as viagens dos empresários, dos turistas... o próprio bloqueio, que ainda existe, também obstaculariza tudo. Os EUA são um mercado natural para Cuba, é o mesmo que Espanha para vocês. Mas nós temos que ir até à Ásia, até à Europa, para comprar muitos produtos que não podemos obter no mercado norte-americano. Qualquer medida que seja contra o normal desenvolvimento de relações entre dois estados obstaculariza o desenvolvimento económico, cultural, migratório... A diminuição da quantidade de funcionários na embaixada dos EUA complica os vistos. Há famílias em Cuba que querem visitar os familiares nos EUA e vice-versa e está muito difícil. Os cubanos têm que ir a terceiros países para tirar o visto.

Mas Cuba continua convicta do processo de normalização das relações?

O responsável pelo recuo das relações não é Cuba, são os EUA. Portanto, vamos tentar tudo o que possamos para manter as relações, sempre no respeito aos princípios da soberania, de independência, de igualdade.

Cuba tem sido uma das vozes em defesa da Venezuela. Acha que Nicolas Maduro é fiel à revolução de Chávez?

A Venezuela continua a ser alvo de uma guerra não convencional sem precedentes, dirigida desde os EUA, na qual as mais altas autoridades norte-americanas indicaram que não afastam a possibilidade de uma intervenção militar direta ou um golpe militar interno. Condenamos energicamente a declaração de um grupo de países do nosso continente, a 13 de fevereiro em Lima, porque constitui uma intromissão inaceitável nos assuntos internos venezuelanos. Rejeitamos a decisão de reconsiderar a participação do governo venezuelano na próxima cimeira das Américas, a celebrar-se em abril, no Peru. Cuba considera que a decisão que se tomou não é alheia às declarações do secretário de Estado norte-americano durante a viagem que fez pela América Latina, em que declarou a vigência da doutrina Monroe em pleno século XXI. Para nós é um notório mecanismo de intervencionismo. Fala-se que não há democracia na Venezuela. A Venezuela realizou uma quantidade de eleições que eu diria que nenhum Estado democrático no mundo fez. Cuba também apoia o diálogo com a oposição, mas achamos que é ofensivo, incluindo para o governo venezuelano, qualquer insinuação sobre a interferência de Cuba. Cabe-nos exigir o respeito pela autodeterminação e soberania venezuelana como latino-americanos. Qualquer visão de intervenção, de situações militares na Venezuela, afeta a segurança na região. Na cimeira da CELAC, em 2014, em Havana, os chefes de Estado e governo assumiram uma série de compromissos, nomeadamente a proclamação da América Latina e Caraíbas como zona de paz. Por isso, é dever de Cuba defender a Venezuela, não só pela fidelidade aos princípios chavistas, mas pela necessidade de paz.

Mas está Maduro a seguir os princípios chavistas? Ele está a mudar a Constituição que deixou Chávez...

Deixem-no governar. Não tentem mais sanções ou divisões. Deixem que possa partilhar a riqueza entre os cidadãos. O petróleo, sabemos pela história mundial, é muito cobiçado. Quando os lucros de petróleo se distribuem entre todos e não vão para os bolsos de uns poucos, então dói. Deixem-no governar. Deixem que Maduro possa desenvolver o processo chavista. Estou certa que está a fazê-lo na medida do possível. Mas se tem uma oposição paga, se tem sanções, se estão a ameaçar intervir... é muito difícil governar assim.

E em caso dessa intervenção externa. Cuba está disponível para ajudar?

Estamos dispostos a apoiá-los em tudo o que seja necessário. Sem intervencionismo, porque não apoiamos nenhum intervencionismo. Se em qualquer momento nos pedirem apoio, porque temos que defender a paz na região, nós veremos nesse momento como reagiremos. Espero que a sapiência dos políticos chegue e a nossa região não regresse aos tempos do intervencionismo, de golpes de estado militares. Porque já há outros tipos de golpes, que não são militares. Porque se fala de Maduro e não se fala de golpes suaves que estão a acontecer.

É a segunda vez que está destacada em Portugal...

Sim, fui-me embora em 2006.

É tempo suficiente para dizer que há diferenças nas relações com Cuba?

Fortaleceram-se. Há uma vontade maior dos governos em aumentar as relações. Houve mais visitas de ambos os governos. Aumentou-se o comércio bilateral de 50 para 100 milhões. Portugal já tem presença na feira de negócios de Havana. Há 84 empresas que fazem comércio com Cuba. Nota-se a consolidação das relações entre os dois povos.

O governo socialista, com o apoio da esquerda, tem uma atitude especial para Cuba, ou há uma continuidade que não depende de quem governa?

Há sobretudo interesse em continuar a aprofundar as relações entre ambos os países. Relações que se baseiam também nos laços históricos entre os povos. Somos latinos, membros de instituições ibero-americanas, sempre nos uniram laços históricos, tradicionais, culturais, e há interesse em continuar a aprofundar e a consolidar essas relações. Em 2019, além do 60.º aniversário da revolução e dos 500 anos de Havana, assinala-se o centenário das relações diplomáticas entre Cuba e Portugal.

Fidel morreu há pouco mais de um ano. Que memória pessoal tem dele?

Eu nasci com a revolução. Devo a Fidel, ao processo que encabeçou, o que sou. Antes de 1959, uma mestiça em Cuba não teria direito a nada ou a muito pouco. Graças a ele e à sua luta todos os que nascemos depois da revolução tivemos uma saúde gratuita, uma educação gratuita com qualidade, formámo-nos e convertemo-nos nos profissionais que hoje somos. Conheci Fidel em criança, num encontro com os pioneiros de Cuba. A humildade, a forma de comunicar com crianças de oito e nove anos... comoveu-nos ver Fidel pessoalmente. Depois, como profissional, Fidel partilhou a sua experiência, deu-nos as suas dicas sobre política externa nas reuniões de embaixadores. Para nós é uma honra. Porque Fidel foi e é ainda para todos nós um exemplo. Exemplo de humildade, cubanismo, de resistência, de luta... Fidel é e será o nosso líder indiscutível. Para a nossa geração, foi como um pai. Os médicos cubanos vão em missão a todo o mundo porque assim nos formou Fidel, nos princípios do humanismo, do internacionalismo. Lembro-me em 2005, quando houve o terramoto no Paquistão, os aviões dos nossos médicos passaram em trânsito por Portugal. E o comandante dirigiu esse processo de envio dos nossos médicos, como dirigiu muitos outros. Foi incrível. Os médicos iam atender a população paquistanesa das montanhas, em condições muito difíceis, com neve, e aqui tivemos de comprar-lhes os casacos, tudo, para que pudessem chegar e cuidar da população.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG