Crise social pode beneficiar reeleição de Trump, dizem analistas

As violentas manifestações de protesto que têm tomado as ruas de dezenas de cidades norte-americanas e já fizeram várias mortes nos EUA podem ajudar a reeleger o Presidente Donald Trump, dizem analistas.

Quem olhar para as fotos e vídeos dos protestos contra a morte de George Floyd, o homem negro que foi morto sob custódia policial, na passada semana, em Minneapolis, percebe a presença de muitos cartazes hostis a Donald Trump e ao Governo republicano.

A notícia de que os serviços secretos foram obrigados a esconder o Presidente no 'bunker' da Casa Branca, na passada sexta-feira, quando os protestos em Washington subiram de tom, revela bem que os manifestantes não estavam ali para agradecer a Trump o apoio à sua causa.

E quem ler o mural da conta pessoal de Trump na rede social Twitter encontrará mensagens pouco abonatórias para os que ocuparam as ruas de mais de 70 cidades nos Estados Unidos, com apelos à intervenção musculada da Guarda Nacional e críticas aos governadores democratas, acusados de serem muito suaves com os manifestantes.

Ainda assim, vários analistas políticos desconfiam que, no final, tudo isto pode ser um aditivo valioso para a campanha de reeleição de Donald Trump, que pode surgir como a mão forte que colocou ordem no caos que ameaça dividir o país, perante um adversário democrata, Joe Biden, que parece não saber como tirar proveito da oportunidade.

"Numa primeira fase, os protestos que irromperam pelos Estados Unidos deram a sensação de que iriam causar mais dificuldades a Trump. Esta tensão social suscitada por problemas de violência e racismo por parte das forças policiais em relação aos afro-americanos não é nova. Mas com o avolumar de protestos violentos em diversas cidades, Trump poderá até retirar dividendos na popularidade, pelo menos no imediato", disse à Lusa Nuno Gouveia, investigador e autor de obras sobre política norte-americana.

Uma variável importante para determinar o impacto político desta crise social nos EUA é a duração destas manifestações, que já ocorrem há uma semana.

"Tudo dependerá do tempo durante o qual continuarem os protestos, e, sobretudo, do facto de serem percebidos pela maioria da população como uma justa indignação - algo que afetará politicamente Donald Trump, visto como parte do problema da injustiça social -, ou terem ultrapassado esse limite e fazerem recear à maioria dos americanos pela sua própria segurança e ordem pública - o que, paradoxalmente, até poderá beneficiar Donald Trump, usando isso contra uma suposta 'tibieza' de Joe Biden na manutenção da ordem", explicou à Lusa José Pedro Teixeira Fernandes, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI).

A segunda variável detetada pelos analistas é a dimensão da violência que toma conta das ruas e dos noticiários televisivos, inflamando de seguida as redes sociais, com mensagens divisionistas.

"Embora seja verdade que a continuação da violência policial não vai certamente ajudar Trump, também se pode afirmar que, se as coisas evoluírem para uma situação de desordem social, associada a grupos organizados de extrema-esquerda, isso poderá até vir a favorecer o atual Presidente, se este conseguir ser visto como defensor da lei e ordem", acrescentou à Lusa José Manuel Moreira, professor catedrático de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Aveiro.

Jogar com o medo

O Presidente norte-americano tem tentado tirar proveito dessa tática de acusar movimentos de extrema-esquerda, nomeadamente o Antifa, de estarem a manipular a contestação à morte de George Floyd.

Alguns democratas suspeitam que Trump pode mesmo estar a usar técnicas clássicas da Guerra Fria, as operações de "bandeira falsa", manobras conduzidas por governos que aparentam ser realizadas pelos adversários, para tirar proveito político das consequências.

Por outro lado, a Casa Branca joga com o fator medo, dentro das comunidades mais afetadas pela violência, com ameaças que deixaram de ser veladas.

Em dezembro de 2019, o procurador-geral dos EUA, William Barr, ameaçou afro-americanos que protestavam contra a violência policial dizendo que "se as comunidades não mostrarem apoio e respeito, podem ficar elas próprias sem a proteção policial de que precisam".

As palavras foram lidas como um sinal de apoio ao influente setor policial dos Estados Unidos, mas nos últimos dias tem sido este setor que se tem colocado ao lado dos manifestantes contra a morte de George Floyd, com a prestigiada Ordem Fraterna da Polícia (FOP) a criticar a forma como os seus colegas tinham atuado em Minneapolis.

"As escolhas das pessoas comuns fazem-se num mundo onde predominam cinzentos que navegam num mar de tons que nem sempre têm a mesma tonalidade. Um mundo pouco dado aos olhos dos bem-pensantes", explica José Manuel Moreira, referindo-se às muitas incógnitas que subsistem sobre o resultado da crise social que se vive nos EUA.

E Trump é muito hábil a entender as ambiguidades do jogo político, criando desequilíbrios aos adversários sempre que sente terrenos movediços, como já aconteceu com a questão dos imigrantes ilegais e da guerra comercial com a China.

"Não há nenhuma razão para pensar que Trump acredita que o sistema policial no país tem problemas sistémicos com as raças", escreveu esta semana Philip Bump, analista do jornal Washington Post.

"Ao colocar a ênfase na 'Lei e Ordem', Trump espera recuperar alguma da popularidade perdida, colocando-se como responsável pela ordem e os democratas como facilitadores da desordem. E o eleitorado independente e centrista poderá ir atrás dessa mensagem, se os democratas não demonstrarem que também têm condições para lidar com protestos violentos", explica Nuno Gouveia, deixando a nu as fragilidades do candidato Joe Biden.

Biden e os afro-americanos

Para já, o candidato presidencial democrata tem procurado usar o trunfo de ter sido vice-Presidente do primeiro residente negro da Casa Branca, Barack Obama, colocando-se ao lado das posições anti-racistas mais assertivas.

A crise social que se vive pode mesmo influenciar a sua escolha para a sua vice-presidência - depois de ter anunciado que gostaria de ter ao seu lado uma mulher, Biden pode agora preferir que ela seja de cor negra.

Um dos nomes falados nos últimos dias é Keisha Lance Bottoms, a 'mayor' de Atlanta, uma das cidades mais afetadas pelos protestos, que tem feito apelos emotivos ao regresso à calma e goza de grande prestígio na comunidade afro-americana do sul dos EUA.

"Quanto mais vemos este nível de ódio, mais acho importante enfrentá-lo com atos simbólicos, incluindo a seleção de uma mulher afro-americana como vice-Presidente '', disse segunda-feira Randi Weingarten, presidente da Federação Americana de Professores.

Outra solução para o lugar ao lado de Biden poderá ser Kamala Harris, ex-candidata nas primárias democratas, de origem indiana e afro-americana, que se tem destacado na luta contra o racismo nos EUA.

"Mas Biden precisa de ser mais agressivo com Trump e responder-lhe de forma mais incisiva. Sabemos que o atual Presidente aposta em desmoralizar os democratas e levar o povo republicano às urnas contra uma ameaça radical. Este episódio é perfeito para isso", conclui Nuno Gouveia.

Para este analista, Biden "precisa de escapar da armadilha" e motivar os indecisos, que geralmente são os que ficam politicamente mais confusos em tempos de crises sociais.

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