Caravana de migrantes bate à porta dos EUA

Chegaram a ser mais de 1200, mas menos de 300 devem passar hoje em San Ysidro de Tijuana para San Diego. Viajaram ao longo do último mês sob a ameaça constante de Trump

Andrés Rodríguez, de 51 anos, deixou a sua casa em El Salvador apenas com a roupa que tinha no corpo e alguns dólares, acompanhado do sobrinho e do filho, que tinha acabado de ser ameaçado de morte por um gangue ao qual não queria aderir. Ana Wuillams fugiu das Honduras com a filha, depois de ser violada. Ambos fazem parte do grupo de cem a 300 migrantes que, depois de um mês a atravessar o México, tentará hoje entrar nos EUA, onde querem pedir asilo. Uma caravana de migrantes que irritou o presidente norte-americano, Donald Trump, que ameaçou o México caso não travasse a sua chegada à fronteira.

Esta migração anual repete-se desde 2010, começando sempre na Semana Santa - daí ser conhecida como via-sacra dos migrantes. A deste ano cruzou a fronteira entre a Guatemala e o México a 25 de março, avançando desde então a pé, de autocarro ou de comboio. A ideia desta "peregrinação" é conseguir a proteção dos números, face a grupos de criminosos que podem encontrar no caminho ou até das autoridades. Mas também garantir a atenção pública para o problema, nomeadamente no México. Este ano, o grupo é o maior de que há registo, tendo chegado a mais de 1200 pessoas: entre elas 300 menores (o mais jovem com apenas um mês), 400 mulheres e 20 membros da comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais). 80% dos migrantes vinham das Honduras, fugindo à violência pós-eleitoral, aos quais se juntaram pessoas de El Salvador, Nicarágua e Guatemala.

Mas a caravana podia ter passado sem ser notada não fosse o caso de uma reportagem ter passado num dos programas de televisão favoritos do presidente dos EUA, Donald Trump, que reagiu como sempre: no Twitter. "Caravanas estão a vir para cá. Temos que passar leis mais duras e construir o muro", escreveu no início de abril, apontando o dedo aos países de origem destes migrantes, ao México, mas também às "fracas políticas de imigração" dos EUA. "É melhor a caravana ser parada antes de chegar aqui. A vaca gorda do NAFTA [Tratado de Livre Comércio da América do Norte] está em jogo", acrescentou.

Caravanas estão a vir para cá. Temos que passar leis mais duras e construir o muro

Desde então, voltou várias vezes ao tema, anunciando que ia enviar as tropas para a fronteira com o México e dando ordem para que as caravanas não entrassem. "É uma desgraça. Somos o único país do mundo tão ingénuo", escreveu na última segunda-feira, voltando a acusar o México e indicando que o tema será "uma condição para a renegociação" do NAFTA. O México respondeu dizendo que tomas as suas decisões "soberanas" sobre a imigração e que a cooperação com os EUA é ditada por interesses mexicanos.

"O muro não parece assim tão grande", disse à Reuters Kimberly George, uma jovem hondurenha de 15 anos, em Tijuana. "Quero mesmo atravessar", contou. Esta semana, os migrantes foram chegando em autocarros, ficando nos abrigos a poucos minutos da fronteira. Angel Caceres fugiu das Honduras depois de o irmão e da sobrinha terem sido mortos e da sua mãe quase ter acabado da mesma forma depois de ser violada. "82 anos, ela tem 82 anos", indicou à jornalista da agência noticiosa, mostrando as fotografias no telemóvel de uma mulher idosa brutalmente agredida numa cama de hospital. Espera poder entrar nos EUA com o filho de cinco anos.

O muro não parece assim tão grande

Segundo os organizadores da caravana, o grupo Pueblos Sin Fronteras que tem prestado apoio jurídico aos migrantes pelo caminho, entre cem e 300 pessoas vão pedir asilo na fronteira - muitos, desde o início, tinham planos para ficar no México e a atenção de Trump convenceu outros a não arriscar atravessar em grupo, preferindo cruzá-la de forma individual. Os EUA aceitam os pedidos caso provem que foram vítimas de perseguição por causa da raça, nacionalidade, crença política ou outros fatores. Mas o processo pode demorar anos. "Ainda falta muito caminho", disse um dos migrantes ao The New York Times.

Mas a secretária da Segurança Interna, Kirstjen Nielsen, deixou claro que qualquer pessoa que tente entrar nos EUA apoiando-se em declarações falsas será acusada de crime. "Os indivíduos da caravana que procuram asilo ou outras reivindicações semelhantes devem procurar proteção no primeiro país seguro que encontram, incluindo o México", indicou num comunicado que emitiu, avisando também que quem os auxilia também pode ser alvo de processos. "Os contrabandistas, traficantes e criminosos percebem as nossas lacunas legais melhor que o Congresso e são eficazes a explorá-los", acrescentou.

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