Barricadas e confrontos na greve geral contra Maduro

Presidente denunciou "tentativa fracassada de travar a economia". No Twitter, guerra de hashtags entre os que mostravam ruas vazias e os que diziam que tudo estava normal

Caracas amanheceu ontem com várias estradas desertas, bloqueadas por barricadas, e com lojas encerradas por causa da greve geral de 24 horas convocada pela oposição venezuelana. Nas redes sociais, foram partilhados vídeos das forças de segurança a utilizar gás lacrimogéneo nos confrontos com manifestantes e a desfazer alguns desses bloqueios. O presidente Nicolás Maduro lembrou contudo que o setor petrolífero e as 700 maiores empresas do país estavam a funcionar a 100% e denunciou o ataque de "terroristas fascistas", isto é, grupos de opositores, à sede da televisão estatal VTV, cujos funcionários se defenderam com o apoio de militares. De acordo com a Reuters, ao início da tarde mais de 80 pessoas tinham sido presas.

A oposição venezuelana, revigorada com a participação de 7,5 milhões de pessoas no referendo simbólico de domingo, convocou a greve geral de 24 horas como parte da estratégia da chamada "hora zero", um conjunto de protestos com o objetivo de travar a Assembleia Constituinte de Maduro. O presidente espera inscrever na Constituição, entre outras coisas, os programas sociais do falecido presidente Hugo Chávez ou o controlo de preços para limitar a inflação - que o Fundo Monetário Internacional estima poder chegar aos 720% este ano. Maduro alega que o país está a ser alvo de uma "guerra económica" apoiada pelos EUA. Mas, para a oposição, a Constituinte servirá para instaurar uma ditadura.

No Twitter, foi a guerra das hashtags . De um lado #ParoCivicoActivo (greve geral ativa), através da qual os opositores partilhavam imagens das ruas vazias, das barricadas ou da repressão por parte das forças de segurança venezuelanas. Do outro, #ConstituyenteImparable (Constituinte Imparável), usada pelos apoiantes do governo para partilhar imagens de um dia que consideravam normal e de funcionários a trabalhar sem problemas, assim como dos preparativos para a eleição dos 545 membros da Assembleia, a 30 de julho.

Num evento com jovens candidatos à Constituinte, Maduro denunciou uma "tentativa fracassada de travar a economia do país". Segundo o presidente, o setor petrolífero esteve a trabalhar a cem por cento - a estatal Petróleos da Venezuela não apoiou a greve -, assim como as 700 maiores empresas do país e o setor dos transportes públicos (oposição diz que houve estações de metro fechadas e menos autocarros). Marcela Maspero, da União de Trabalhadores da Venezuela, um dos principais sindicatos do país, assegurou à agência AFP que muitos trabalhadores "estão sujeitos às pressões", mas mesmo assim participaram na greve.

"Maduro não trabalha. Os que hoje trabalham decidiram parar em protesto contra o governo nacional, a fraude constituinte, a favor de uma solução no nosso país, queremos que se restabeleça a ordem constitucional", indicou o ex-candidato da oposição às presidenciais e governador do estado de Miranda, Henrique Capriles. em mais de três meses de protestos, já morreram cerca de cem manifestantes.

Sanções e Portugal

A comunidade internacional aumentou entretanto a pressão para que Maduro suspenda a Assembleia, mas este já disse que a Constituinte avança "quer chova ou faça sol". Os EUA ameaçam com sanções - não descartando acabar com a importação de petróleo da Venezuela, que assim perdia o seu principal mercado - assim como a Mercosul (a Venezuela está suspensa) e a União Europeia

Ontem, o governo português reiterou que, no último Conselho de Negócios Estrangeiros da UE de 17 de julho, não foi discutida em concreto a aplicação de sanções de qualquer tipo à Venezuela, depois de um artigo do jornal espanhol El País alegar que só Portugal era contra a medida. "A situação vivida na Venezuela, os seus efeitos regionais e, em particular, as suas consequências para a numerosa Comunidade portuguesa e luso-venezuelana ali residente são suficientemente delicadas para exigir prudência e rigor", lê-se na nota à comunicação social.

Mas, acrescenta o texto, a Alta Representante da UE para os Assuntos Externos e Política de Segurança, Federica Mogherini, informou os presentes que "iria abordar o tema nas suas declarações à imprensa", tendo depois dito aos jornalistas que "todas as possibilidades estavam em cima da mesa, incluindo sanções". O PSD questionou ontem o governo, acusando-o de mentir num primeiro comunicado em relação ao discutido no conselho.

Na véspera, o Ministério dos Negócios Estrangeiros disse que Portugal "não se opôs, no seio da União Europeia, à aplicação de sanções à Venezuela, pela simples razão de que essa questão não foi ainda discutida entre os Estados-Membros". Já a líder do CDS-PP, Assunção Cristas, desafiou o governo a explicar porque é que não esteve representado ao mais alto nível na conselho - esteve lá o embaixador representante permanente junto da UE.

O "Relatório sobre emigração proveniente da Venezuela", divulgado ontem pela Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus da Madeira, estima que devido à instabilidade tenham regressado ou chegado à ilha entre três mil e quatro mil pessoas desde 2016. Entre estes cidadãos contam-se emigrantes de primeira geração, lusodescendentes e cônjuges.

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