"A Revolução portuguesa de 1974 foi um marco na Guerra Fria"

Odd Arne Westad, historiador norueguês e autor do livro A Guerra Fria, em entrevista ao DN.

Num tempo em que se receia o regresso da Guerra Fria, o historiador norueguês especialista no tema, Odd Arne Westad, considera que "nem todos os conflitos internacionais são guerras frias e a do século XX foi única". Se tivesse de escolher o grande símbolo desse tempo seria o Muro de Berlim: "É perfeito: feio, impenetrável e destinado a controlar as pessoas. Há outros: a nuvem nuclear em formato de cogumelo que se ergue sobre os primeiros locais de testes da bomba H ou a menina vietnamita que corre a fugir dos bombardeamentos, com o napalm a queimar-lhe a pele."

Na sua história sobre a Guerra Fria começa por dizer que o mundo em que nasceu, a Noruega dos anos 1960, foi delimitado por esse conflito. Conseguiu distanciar-se dessa influência?

Apenas em parte, o que pode ser uma das razões por que a Guerra Fria tem sido um tema tão recorrente nas minhas aulas em Harvard. Sou frequentemente atraído por temas históricos dos quais tenho algum tipo de experiência pessoal: China (onde estudei como universitário), a descolonização (que experimentei em jovem) ou a Guerra Fria, com que cresci.

Menciona várias vezes Portugal. Houve algum protagonismo deste país durante esses tempos?

Sem dúvida. A Revolução portuguesa de 1974 foi, em muitos aspetos, um marco na Guerra Fria global. O facto de Portugal ter escolhido o governo democrático e a integração na Europa Ocidental fortaleceu os europeus, ocidentais e de leste, que queriam cooperação, redução da tensão e o fim das ditaduras. A Revolução portuguesa também foi essencial para a África lusófona, onde nascem novos Estados que foram quase logo apanhados por uma estrutura da Guerra Fria. Em jovem, passei algum tempo em Angola e Moçambique logo após a independência e percebi como era difícil constituir novos Estados na conjuntura da Guerra Fria.

Também refere o Partido Comunista Português. Teve algum papel?

O Partido Comunista Português foi uma verdadeira força na década de 1960 e 1970 devido à resistência contra as ditaduras de Salazar e Caetano, das suas capacidades organizacionais e das suas ligações com a União Soviética. No contexto europeu, o desafio representado pelo PCP foi a sua relativa popularidade (embora nunca atingisse 20% dos votos, mesmo sob a forma da Aliança Povo Unido) e uma intransigente abordagem estalinista à política nos anos que se seguiram à Revolução. Foi um desafio não só para os anticomunistas em Portugal e em toda a Europa, mas também para os partidos comunistas em Itália e França (e depois em Espanha), que temiam que a tomada do poder pelos comunistas em Portugal enterrasse para sempre as suas hipóteses eleitorais nos respetivos países.

Refere que a Guerra Fria ajudou a manter a paz. Pode analisar-se a história desse tempo à luz desse aspeto positivo ou foi um efeito colateral?

A Guerra Fria só ajudou a manter a paz num sentido negativo, o que significa que o medo da guerra nuclear pode ter ajudado a evitar um conflito aberto entre as superpotências. A Guerra Fria não foi pacífica no mundo descolonizado, naquele a que chamamos Terceiro Mundo. Pensemos nas conotações sangrentas no Vietname, na Coreia ou nas antigas colónias portuguesas, especialmente em Angola.

Sem a queda do Muro de Berlim, seriam as mudanças económicas suficientes para alterar a conjuntura de confronto bipolar entre potências?

Acho que acabariam por ser, já que o Estado soviético simplesmente não conseguia produzir os resultados económicos que a população queria. Levaria mais tempo e o risco de guerra poderia ter aumentado. Foi Gorbachev quem tornou possível a queda do Muro de Berlim, com a reorientação das políticas soviéticas em toda a Europa de Leste.

Tem-se caracterizado a atualidade como de Guerra Fria. Repete 1945 a 1989 ou é uma apropriação fácil?

Muito fácil. Nem todos os conflitos internacionais são guerras frias. A do século XX foi única em muitos aspetos ou, pelo menos, tem poucos precedentes históricos: a ênfase na ideologia, a bipolaridade e a competição global fez que ela fosse muito diferente de outros conflitos da história ou do que acontece hoje entre os EUA, a Rússia e a China.

Refere que na década de 1980 a "explosão da informação contribuiu profundamente para o fim da Guerra Fria". Com um mundo digital tão forte, será possível repetir-se uma Guerra Fria?

A tecnologia da informação permite iniciativas dentro da própria sociedade que os Estados têm dificuldade em controlar. Mas também oferece aos governos oportunidades para manipularem quer a sua população quer as no exterior. Assim, diria que os efeitos da tecnologia da informação são, como muitas coisas hoje, pouco claros e incertos, embora não acredite muito que essas tecnologias nos vão levar para um novo cenário de Guerra Fria.

Qual o fator determinante na morte da Guerra Fria - a queda do Muro de Berlim ou o fim do império soviético?

A Guerra Fria como conflito ideológico terminou com o colapso da União Soviética, mas a maior parte da tensão na Europa tinha desaparecido no final de 1989 com a queda das ditaduras comunistas na Europa de Leste.

Acredita que os EUA e a URSS alguma vez teriam dado início a um apocalipse?

Sem dúvida. Se algum deles acreditasse que o outro lado estava a pôr em perigo os seus interesses fundamentais na Europa ou no leste da Ásia, penso que não se limitariam apenas a ameaçar com o uso de armas nucleares, provavelmente usá-las-iam. Ser o último a usar armas nucleares era um risco que nenhum dos lados estava disposto a correr.

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