Facebook faz censura política, dizem ex-funcionários

Ocultar notícias, promover outras. Ex-colaboradores da rede social criada por Zuckerberg afirmam ter tido ordens para selecionar conteúdos segundo orientação ideológica

Há um pressuposto na rede social de Mark Zuckerberg: o que surge na cronologia dos utilizadores é o que, organicamente, é viral. Ou seja, na teoria, as notícias que aparecem no feed são aquelas que estão a conquistar mais leitores. Tal critério deveria reger-se, teoricamente, segundo um algoritmo, um mecanismo automático.

Ora, de acordo com o site Gizmodo, o Facebook obedece a critérios editoriais na escolha das notícias que os utilizadores veem surgir na sua cronologia. Segundo a reportagem, uma equipa de "curadores de notícias" (termo que designa um conjunto de jornalistas que trabalham na empresa fundada por Mark Zuckerberg) fará esse trabalho.

Sob anonimato, com receio de represálias, um antigo elemento da equipa de curadores explica que a maioria das notícias sobre a ala mais à direita do espectro político norte-americano eram colocadas numa "lista negra", mesmo que estivessem a ser tendência. "Eu entrava para fazer o meu turno e descobria que a CPAC [Conservative Political Action Conference, conferência anual para ativistas da ala conservadora], Mitt Romney [candidato republicano às eleições presidenciais de 2012], Glenn Beck [comentador político da direita conservadora] ou tópicos populares relacionados com a ala conservadora não eram tendência porque os curadores não lhes reconheciam valor noticioso ou então tinham algum tipo de preconceito contra Ted Cruz [pré-candidato republicano às eleições que, há uma semana, desistiu da corrida à Casa Branca]."

A mesma fonte adianta que a mesma equipa recorre ao método de "injeção" de histórias que consideram relevantes na estrutura da rede social, mesmo que estas não estejam a ter popularidade entre os utilizadores. "Disseram-nos que se víssemos uma notícia nas páginas iniciais de sites como a CNN, o The New York Times ou a BBC, as podíamos injetar como tópico", explica outro antigo colaborador do Facebook.

Nos relatos citados pelo Gizmodo é ainda explicado que os curadores de notícias teriam, alegadamente, ordens específicas para ignorar peças virais oriundas de plataformas com linhas editoriais de direita, como a Fox News, o Drudge Report ou o Washington Examiner.

Esta tomada de posição, ainda que não publicamente assumida, é de alguma forma consonante com declarações públicas feitas recentemente por Mark Zuckerberg. O fundador do Facebook disse, em abril passado, sempre sem referir o nome de Donald Trump: "Oiço vozes temerosas a pedir que se construam muros e que se afastem pessoas catalogadas como "os outros". Oiço-os pedirem para bloquear a liberdade de expressão, para abrandar a emigração, para reduzir o comércio e, em alguns casos, banir o acesso à internet." Declarações em tom político, inéditas da parte do empresário, e que indiciam uma tomada de posição ideológica.

O Gizmodo revelou ainda que, internamente, os funcionários do Facebook fizeram uma sondagem para saber se deveriam questionar Zuckerberg sobre o seguinte tema: "Que responsabilidade tem o Facebook para ajudar a prevenir Trump presidente em 2017?"

Esta reportagem levanta questões sobre o poder que as redes sociais têm no condicionamento do acesso à informação. Segundo um estudo do Pew Research Center em conjunto com a Knight Foundation, 63% dos utilizadores do Facebook e do Twitter afirmam que as redes sociais são a sua primeira fonte de notícias.

O Facebook tem 1,04 mil milhões de utilizadores, 167 milhões dos quais são norte-americanos.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG