Óbito/Dhlakama: Morte "pode fragilizar" processo democrático moçambicano - investigador

O investigador italiano Luca Bussotti considerou hoje que a morte do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, "pode fragilizar" o processo democrático em Moçambique, que já tem vindo a enfrentar "vários problemas" nos últimos anos.

Em declarações à agência Lusa, o investigador do ISCTE referiu que o processo democrático em Moçambique tem sido afetado por várias situações como a transição do Governo de Armado Guebuza ou as eleições de 2014 em que "houve sérios problemas em termos de credibilidade e transparência".

Além disso, com a descoberta da dívida oculta de mais de 2 mil milhões de dólares "o país ficou ainda mais fragilizado" e em termos de liberdade de imprensa "o país caiu nos 'rankings' internacionais, devido a mortes e torturas de jornalistas", referiu, considerando que a morte do líder da oposição "fragiliza ainda mais" a situação democrática de Moçambique, que já "é extremamente preocupante".

Mas, considerou o académico, que vive atualmente em Moçambique, a morte de Dhlakama fragiliza sobretudo a Renamo "porque não existe uma figura que o substitua de imediato".

Questionado sobre se a morte do líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) pode significar um revés nas negociações de paz com o Governo, Luca Bussotti considera que "pode até acelerar o processo porque a Renamo quer desencadear a sua campanha eleitoral sem grandes constrangimentos"

"As eleições estão muito próximas, em outubro haverá as autárquicas e no próximo ano as eleições gerais, acho que neste momento há vontade da Renamo de voltar a fazer campanha eleitoral, é a primeira força política que vai querer paz para que possa desencadear a sua campanha eleitoral sem grandes constrangimentos", referiu.

O atual diretor de pós-graduação da Universidade Técnica de Moçambique considerou que Dhlakama foi "uma figura muito controversa", que liderou a oposição armada e que teve como aliados o regime segregacionista sul-africano do apartheid ou da Rodésia de Ian Smith, atual Zimbabué, "aliados pouco simpáticos".

No entanto, referiu que o líder da Renamo tornou-se nos últimos anos "quase o pai da democracia moçambicana", conseguindo criar essa imagem junto da opinião pública moçambicana "por estar a sacrificar a sua vida isolado na serra da Gorongosa porque pretendia afirmar o ideal de democracia".

"Acho que ele conseguiu uma viragem na sua figura de um guerrilheiro para um homem político que dominou a cena política moçambicana nos últimos anos", disse Luca Bussotti.

O investigador manifestou a esperança de que a morte do líder não fragilize a Renamo, justificando: "Moçambique precisa, não sei se de uma mudança, mas pelo menos de duas forças políticas que consigam concorrer para o Governo do país, não faria muito sentido voltarmos a ter uma Frelimo que consiga 70 ou 80 por cento dos votos, isso seria um retrocesso".

O presidente da Renamo morreu hoje pelas 08:00 (menos uma hora em Lisboa) na Serra da Gorongosa, centro de Moçambique, devido a problemas de saúde.

O corpo deverá ser transferido na sexta-feira para o Hospital Central da Beira, acrescentou a mesma fonte.

Afonso Dhlakama, 65 anos, vivia refugiado na serra da Gorongosa, no centro do país, desde 2016, como havia feito noutras ocasiões, quando se reacendiam os confrontos entre a Renamo e as forças de defesa e segurança de Moçambique.

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