Mulheres no boxe aumentam em Portugal em galas que combatem o domínio masculino

As praticantes de boxe portuguesas treinam ainda num ambiente sobretudo masculino, mas dados da Federação Portuguesa da modalidade apontam para um crescimento do desporto entre raparigas, sobretudo no norte do país.

A comprová-lo, cerca de 300 assistentes, entre colegas, familiares e apoiantes, aplaudiram o combate entre Marta Martins, 18 anos, atleta do Sporting Clube de Braga, e Tatiana Almeida, de 17, pugilista na União Desportiva da Sé, no Porto.

Na noite de 22 de julho (sábado), debateram-se ao longo de quatro assaltos renhidos - resolvidos só 'aos pontos' - na gala de boxe 'Golden Warriors' organizada pelo clube bracarense, numa iniciativa em que se pretendeu "divulgar ainda mais a modalidade".

"As mulheres são psicologicamente mais fortes do que os homens, então é mais fácil incutir certas filosofias de treino", disse à agência Lusa Luciano Machado, treinador da jovem bracarense, dias antes do combate que ajudou a organizar no sentido de promover "a mentalidade em Portugal do boxe enquanto um desporto qualquer, mais como o futebol".

Para Marta Martins, o principal combate seria feito contra a própria falta de confiança - a "maior adversária" com que tem vindo a debater-se há dois anos e meio, em busca de "uma adrenalina que nenhum outro desporto consegue provocar".

Já o mentor de Tatiana, Carlos 'Litos' Costa, lamenta que no bairro da Sé, onde treina, se observa uma tendência para a desistência da modalidade: "O maior problema que existe no boxe, para as raparigas e comigo aqui no [União Desportiva da] Sé, é quando começam a namorar e se esquecem um bocado do boxe."

"Andava sempre com rapazes", confirmou à Lusa a atleta do Porto, referindo o hábito de "andar todos os dias à porrada na escola", pelo que decidiu "juntar o útil ao agradável" e cingir o pugilato aos ringues ou às mãos abertas do treinador.

Enquanto se preparava para a luta, Marta Martins garantia que continuaria a combater, independentemente do desfecho do encontro com Tatiana: "Se perder, vou tentar redimir-me no próximo combate", disse à Lusa, em contraste com a atleta do Porto, que no ginásio da Sé revelava uma aposta num "pensamento mais positivo".

"Vou para lá já a pensar que vou ganhar, depois seja o que Deus quiser", dizia, minutos antes do treino diário.

Para os treinadores em ambos os cantos do ringue, o combate entre Tatiana Almeida e Marta Martins fez-se de ansiedade, suores e ordens gritadas em constante apelo às atletas para que esquivassem o corpo de golpes diretos e respondessem à mínima abertura da adversária.

Ao longo de oito minutos e quatro assaltos, interrompidos por constantes intervenções e separações pelo árbitro, Tatiana Almeida, classe de 64 quilos, ainda teve dúvidas quanto à vitória, depois de perder e empatar nos dois últimos 'rounds'.

"Não é fácil ouvir os insultos de fora, porque eu sou uma pessoa que ouve tudo. Estava-me a doer não os socos que ela me dava, mas as faltas que ela fazia. Não me contive muito", disse à Lusa, imediatamente após o embate que venceria aos pontos, por decisão unânime do júri.

"Acho que não há melhor do que eu. Mesmo que perdesse, iria para casa com esse pensamento", disse, ainda ofegante.

"Perdi, mas consegui aprender com os meus erros", assumiu Marta Martins, ainda sob nítido efeito da adrenalina do combate, esclarecendo: "quero voltar a competir com ela."

A Associação de Boxe do Porto revelou à Lusa que 40% dos seus atletas inscritos são mulheres e a Associação de Boxe do Algarve avançou que 29% dos seus quase 100 atletas são do sexo feminino.

"Há cada vez mais mulheres que escolhem praticar boxe até a nível profissional", considera Raquel Soares, membro da Associação de Boxe do Porto, ressalvando que "a maternidade costuma pôr um prazo de validade" nas carreiras desportivas das atletas.

Por seu lado, o presidente da Federação Portuguesa de Boxe, eugénio Pinheiro revelou ter ficado "profundamente surpreendido com o crescimento da prática" entre as mulheres, garantindo que "havia um estigma em relação ao boxe, mesmo masculino, por estar ligado à violência e a outras práticas".

"Quando entrei nisto, enquanto praticante, há mais de 20 anos, nunca pensei que o boxe feminino viesse a crescer tanto", referiu, "satisfeito", recordando os tempos em que o desporto era "praticamente todo masculino".

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