Vigília em Macau assinala 28.º aniversário de massacre de Tiananmen

As vítimas de Tiananmen foram hoje lembradas em Macau, com os participantes a invocarem a luta pela democracia, o controlo sobre a circulação de informação na Internet na China e a ausência do massacre dos manuais ou aulas de História.

Milhares de pessoas morreram a 04 de junho de 1989 quando o Governo chinês enviou o exército para reprimir manifestantes pró-democracia pacíficos concentrados na praça de Tiananmen, em Pequim.

O 28.º aniversário do massacre foi assinalado pela União para o Desenvolvimento Democrático de Macau, dos deputados Au Kam Sam e Ng Kuok Cheong, no Largo do Leal Senado, com uma vigília que juntou cerca de 200 pessoas, no pico do evento.

Sentados no chão iluminado com velas, os participantes assistiram à exibição de vídeos sobre o massacre, e a intervenções apelando à luta democrática e aos direitos do povo chinês.

Nascido em 1991, dois anos depois do massacre, o jovem Sulu Sou, da Novo Macau, a maior associação pró-democracia da região, tomou conhecimento da repressão através do Youtube - o acesso é livre em Macau, tal como em Hong Kong, ao contrário do interior da China onde é bloqueado.

Sulu Sou recordou que o tema continua esquecido nas escolas, que "não ensinam os últimos 50 anos da história chinesa, especialmente o período desde que o Partido Comunista governa a China", impedindo muitos estudantes de aprenderem a História "na sala de aula ou nos manuais escolares".

"O controlo da educação é um problema grave por parte do governo", sublinhou.

Jerald, estudante de 19 anos, que quer seguir Música, partilha a opinião de Sulu, apesar de ter tomado conhecimento do massacre através de professores.

"As escolas não ensinam sobre este incidente. Muitos adolescentes não sabem nada disto por isso não vêm. Penso que eles não estão interessados nestas coisas", disse.

Para aprender mais sobre a repressão de há 28 anos, Jerald tem marcado presença na vigília desde 2012.

"O governo chinês exerce um controlo muito forte sobre as liberdades, movimentos pró-democracia ou direitos humanos", acrescentou, observando que quem vive no interior da China "não consegue aceder a esta informação a partir da Internet ou mesmo na imprensa".

Macau e Hong Kong são os dois únicos locais da China onde as vítimas do massacre de Tiananmen podem ser publicamente recordadas e nas duas cidades realizam-se anualmente vigílias.

Este ano a adesão à vigília em Macau foi menor, comparando com outros anos, nomeadamente em 2014 - quando se assinalaram 25 anos sobre o massacre e Macau vivia uma onda de contestação a uma proposta sobre o Regime de garantias dos titulares dos principais cargos públicos.

O nível de participação não desmotivou o deputado Ng Kuok Cheong: "O meu desapontamento é contra o governo da China. Devemos lembrar o que aconteceu neste mesmo dia há 28 anos", disse.

"Se queremos que a China tenha uma verdadeira mudança de estrutura económica, e uma verdadeira justiça na distribuição de riqueza, e que se torne um lugar seguro para os cidadãos chineses, devemos construir um sistema político democrático na China", acrescentou.

Ng Kuok Cheong sublinhou que os da sua geração têm a obrigação de partilhar com os jovens o que aconteceu em 1989, ainda que muitos "talvez pensem que a China é forte e que não conseguem derrubar esta dinastia".

"Sentem que não há esperança e não se juntam [à vigília]. Eu consigo perceber, mas não acho que a China não tenha esperança no futuro", afirmou.

Em Hong Kong, a tradicional vigília da Aliança de Apoio aos Movimentos Democráticos e Patrióticos na China juntou cerca de 110.000 pessoas no Parque Vitória, segundo a organização, e 18.000 pessoas, segundo a polícia, de acordo com o jornal South China Morning Post.

O número é apontado como o mais baixo desde 2008.

À semelhança do ano passado, alguns líderes estudantis em Hong Kong apelaram ao boicote da vigília.

Sulu Sou discorda da visão de parte dos jovens da região vizinha, afirmando que é preciso "não esquecer a história".

"Talvez alguns 'localists' em Hong Kong não gostem da China, mas é facto que a China está próxima de Hong Kong e de Macau, por isso devemos recordar e devemos continuar a lutar, pelo menos pelas nossas democracias", disse.

"Penso que isso é mais fácil [de atingir] do que a democracia chinesa, mas não devemos esquecer esse objetivo", afirmou, sublinhando que "alguns advogados e ativistas [dos direitos humanos] estão na prisão na China".

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