REPORTAGEM: Milhares de postais distribuídos em S. Pedro da Cova para exigir retirada de resíduos perigosos

Gondomar, Porto, 13 mai 2019 (Lusa) - Milhares de postais com a frase "Remoção total dos resíduos perigosos em São Pedro da Cova já", acompanhada de imagens a simbolizar sinais de perigo, começaram hoje a ser distribuídos em Gondomar, tendo como destinatário o primeiro-ministro.

"Isto é para tirarem daqui aquele lixo das minas? Então assino, claro. Assino já", disse Isabel Balio, auxiliar de educação na Escola Básica de São Pedro da Cova, quando Pedro Vieira, presidente da Junta de Freguesia, lhe entregava um dos 10.000 postais que vão ser dirigidos a António Costa.

A mensagem escrita, mesmo acima de um retângulo para a assinatura, é clara: "Pela gravidade da situação não compreendemos os sucessivos adiamentos. A população de São Pedro da Cova exige a retirada dos resíduos perigosos o mais rápido possível! Basta de adiamentos!".

Em causa está uma situação que remonta a 2001/2002, quando toneladas de resíduos industriais perigosos provenientes da Siderurgia Nacional, que laborou entre 1976 e 1996, na Maia (Porto), foram depositadas nas escombreiras das minas de carvão de São Pedro da Cova.

Isabel Balio é filha e neta de gente ligada à "escravidão" das minas que laboraram ao longo de 170 anos. Nos anos 30 e 40, cerca de 65% da produção nacional de carvão saia desta freguesia do distrito do Porto. O complexo mineiro encerrou em 1970.

"O meu avô era eletricista, o meu sogro mineiro e a minha sogra britadeira. Ah, e a minha mãe era 'mãe da mina', porque trabalhava no centro de saúde e acudia a todos. Tanto se sofreu aqui. E tanto deu São Pedro ao país. Mas ainda querem que se sofra mais", disse.

Maria Goreti Portela, adjunta da direção da escola onde esta manhã a junta deixou mais de 4.000 postais para serem distribuídos aos alunos, e estes distribuírem por avós, pais e vizinhos, concorda que a freguesia está "estigmatizada" por este problema.

"São Pedro da Cova já é muito desfavorecido, vive-se com muita dificuldade, e depois o problema dos resíduos. Os alunos conhecem a história. Não escamoteamos nada. Os riscos para a saúde pública também nos preocupam", referiu a responsável.

A retirada de resíduos começou em outubro de 2014, parando em maio do ano seguinte. Foram retiradas 105.600 toneladas, mas, entretanto, foi revelado que existem mais, sendo lançado um concurso com vista à remoção de 125 mil toneladas.

O Ministério do Ambiente, através do Fundo Ambiental, alocou 12 milhões de euros para a remoção total e o concurso registou sete candidatos.

Em abril de 2018 foi anunciado que a empreitada terminaria este ano, mas em junho do ano passado a retirada dos resíduos foi adiada, devido a uma impugnação judicial instaurada por um dos concorrentes que não ganhou o concurso.

Em resposta à agência Lusa, fonte do Ministério do Ambiente disse no início de abril que "não existem, neste momento, novidades sobre o processo".

"Basta que exista vontade política. Se o Governo declarar o caso como de superior interesse público consegue ultrapassar todos os constrangimentos legais", disse o presidente da União de Freguesias de Fânzeres/São Pedro da Cova.

O autarca falava aos jornalistas depois de deixar mais uma caixa de postais, desta vez na Escola Secundária, onde Pedro Guimarães, do 12.º ano, demonstrou interesse em "participar na sensibilização de todos para os perigos dos resíduos tóxicos".

"Ninguém gosta de saber que na terra deles há esta realidade. Isto preocupa toda a gente", disse o estudante.

Também as coletividades estão a participar na distribuição, como é o caso da Associação Recreativa, Desportiva e Cultural da Mó que no domingo "esgotou" os postais que tinha e já pediu reabastecimento.

O presidente da associação, Joaquim Marques, contou à Lusa que grande parte dos associados "nem quer ler, quer assinar e entregar logo", porque "o desgaste é tanto que só querem contribuir para a resolução definitiva".

O postal refere que "há 18 anos esta freguesia foi alvo do maior atentado ambiental realizado em Portugal" e que "a presença dos resíduos é uma lança apontada à cabeça dos 20.000 habitantes da freguesia", frase que resulta de uma citação de uma juíza do Tribunal de São João Novo do Porto usou recentemente quando seis acusados pelo Ministério Público pela deposição dos resíduos perigosos foram absolvidos.

"A população está confusa. Então os resíduos são perigosos, mas quem os trouxe é inocente?... Mas também está indignada e cansada e por isso ainda mais empenhada e unida", garantiu o autarca Pedro Vieira.

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