REPORTAGEM: Incêndios: Interesse de estrangeiros na compra de casa na região Centro esmoreceu

A região afetada pelos fogos de 15 e 16 de outubro de 2017 era uma das zonas prediletas de estrangeiros para comprar casa, mas, seis meses após os grandes incêndios, os agentes imobiliários registam uma quebra na faturação.

Ingleses, holandeses, franceses e alemães, entre outras nacionalidades, cresciam a bom ritmo entre o interior do distrito de Coimbra e do distrito de Viseu, encontrando em concelhos como Arganil, Mortágua, Oliveira do Hospital ou Góis oportunidades para reabilitar quintas e fazer uma vida em comunhão com a natureza, muitas vezes criando o seu negócio em torno do turismo ou da agricultura biológica.

Nuno Fernandes, agente imobiliário sediado em Góis, afirma que continua a ter clientes e muita gente a ir até ao terreno visitar casas, mas "agora não compram".

"Ficam desolados com o queimado e reparam que os acessos estão muito perigosos", contou à agência Lusa o responsável da agência Prodirecta, que praticamente não tinha clientes nacionais.

Os estrangeiros "vêm para ter uma casa de férias ou para criar o seu próprio negócio, no turismo ou na agricultura biológica. A ideia da grande maioria é cultivarem os seus próprios alimentos, produzirem a sua própria eletricidade e tentarem viver de uma forma sustentável", explicou, referindo que, seis meses após os grandes incêndios de outubro de 2017, apenas fez uma venda, apesar de ter clientes quase "todos os dias" que acabam por desistir.

Na Habitalva, agência de Arganil, a história é um pouco diferente.

"Tivemos esse medo de que poderia haver um decréscimo do interesse, mas não notámos isso. Há é mais questões sobre como está à volta e se a casa foi afetada ou não pelo fogo", contou à Lusa um dos sócios, Ludovic Costa.

Com a faturação repartida a meio entre clientes portugueses e estrangeiros, Ludovic Costa sublinha que para os britânicos surgem mais perguntas em torno do Brexit do que dos incêndios.

A holandesa Helena Terlouw, proprietária da agência imobiliária Terra dos Rios, sediada em Tábua, diz que, após os fogos, preparou-se para "um ano extremamente complicado".

"A região ficou muito feia e estávamos preparados, mas isso não aconteceu. Continuamos a ter trabalho e continua a haver pessoas com interesse pela região", frisou.

Apesar disso, afirma que há um grupo de estrangeiros que se assusta com "o cenário triste" e que acaba por não comprar, numa região que tinha registado "um crescimento" quer da comunidade estrangeira, quer de portugueses "de grandes cidades a quererem voltar às raízes e a fugir da confusão".

Helena Terlouw acredita que 2018 "não vai ser um ano muito bom" para os agentes imobiliários na região, mas, durante a crise de 2008, era "pior, que não havia dinheiro para investir".

Na Greenlands, sediada em Arganil, para além de se registar uma redução de vendas, os preços das propriedades "baixaram muito porque arderam ou porque a natureza envolvente, que era o encanto de muitas, desapareceu", explica um dos sócios da empresa Luís Quaresma, que acredita que a região sofreu um impacto de "milhões de euros na desvalorização das propriedades".

Com os fogos surgiu outro problema: "Tínhamos alguns negócios em curso, com contratos-promessa de compra e venda assinados e os compradores entenderam não avançar com os negócios, o que gerou uma questão de litigância".

A própria comunidade estrangeira que procura a zona aparece com "um novo olhar".

Se dantes vinham "muito focados com a natureza e locais isolados", agora procuram casas nas aldeias, aclara Luís Quaresma.

"Temos uma comunidade estrangeira bastante importante nestes concelhos, que tem bastante peso e já representa muito na economia local. São pessoas com massa crítica e é uma mais-valia para a região ter pessoas com outras ideias e hábitos e formas de estar na vida", notou, considerando que vai demorar "pelo menos dois anos" a recuperar o interesse de estrangeiros pela região.

Ler mais

Exclusivos

Premium

nuno camarneiro

Males por bem

Em 2012 uma tempestade atingiu Portugal, eu, que morava na praia da Barra, fiquei sem luz nem água e durante dois dias acompanhei o senhor Clemente (reformado, anjo-da-guarda e dançarino de salão) fixando telhados com sacos de areia, trancando janelas de apartamentos de férias e prendendo os contentores para que não abalroassem automóveis na via pública. Há dois anos, o prédio onde moro sofreu um entupimento do sistema de saneamento e pude assistir ao inferno sético que lentamente me invadiu o pátio e os pesadelos. Os moradores vieram em meu socorro e em pouco tempo (e muito dinheiro) lá conseguimos que um piquete de canalizadores nos exorcizasse de todo mal.

Premium

João Gobern

Há pessoas estranhas. E depois há David Lynch

Ganha-se balanço para o livro - Espaço para Sonhar, coassinado por David Lynch e Kristine McKenna, ed. Elsinore - em nome das melhores recordações, como Blue Velvet (Veludo Azul) ou Mulholland Drive, como essa singular série de TV, com princípio e sempre sem fim, que é Twin Peaks. Ou até em função de "objetos" estranhos e ainda à procura de descodificação definitiva, como Eraserhead ou Inland Empire, manifestos da peculiaridade do cineasta e criador biografado. Um dos primeiros elogios que ganha corpo é de que este longo percurso, dividido entre o relato clássico construído sobretudo a partir de entrevistas a terceiros próximos e envolvidos, por um lado, e as memórias do próprio David Lynch, por outro, nunca se torna pesado, fastidioso ou redundante - algo que merece ser sublinhado se pensarmos que se trata de um volume de 700 páginas, que acompanha o "visado" desde a infância até aos dias de hoje.