Projeto ambiental quer conservar charcos temporários e espécies endémicas em Vila do Bispo

A proteção dos charcos temporários de Vila do Bispo, no Algarve, habitats prioritários para a conservação da biodiversidade, onde habitam animais com milhões de anos, está a ser promovida por cientistas através do projeto LIFE Charcos.

Protegidos por legislação europeia, através da Diretiva Habitats com o código 3170, os charcos temporários mediterrânicos são caraterizados pela sua vegetação específica, que se adapta aos períodos de encharcamento e de secura.

O Projeto LIFE Charcos (Conservação de Charcos Temporários na Costa Sudoeste de Portugal) decorre até dezembro, sendo coordenado pela Liga para a Proteção da Natureza (LPN), em parceira com as universidades de Évora e do Algarve e com as câmaras municipais de Vila do Bispo (Algarve) e de Odemira (Alentejo).

"É um projeto integrado por vários organismos, sendo as ações de educação ambiental dirigidas à população e às escolas, uma ferramenta das mais importantes para conseguirmos manter e conservar estes habitats num futuro, a médio longo prazo", disse à agência Lusa a bióloga Cristina Baião, da LPN.

Desenvolvido por especialistas em zonas húmidas, o LIFE Charcos visa proteger da "intervenção humana" as zonas consideradas de grande importância para a conservação da biodiversidade europeia, caraterizadas pela especificidade da vegetação, ao conseguir tolerar um período de encharcamento temporário (média de cinco meses) seguido da secura completa.

"No sudoeste português estão associadas aos charcos temporários mediterrânicos onze espécies de plantas com elevado valor para a conservação, entre elas a planta Pilularia, uma espécie ameaçada, além de organismos marinhos, alguns com milhões de anos de existência", observou Cristina Baião.

Segundo a bióloga, o valor ecológico, "tão específico e efémero", acresce quando associada à fauna se encontra, por exemplo, o Triops Vicentinus, "uma espécie marinha com milhões de anos e que só se encontra nos charcos temporário da Costa Vicentina".

"É no concelho de Vila do Bispo que se encontram alguns dos mais importantes núcleos de charcos temporários a nível nacional, dentro da Rede Natura 2000", sublinhou.

Na opinião de Cristina Baião, as ações de educação ambiental servem para "plantar sementes, ou seja, sensibilizar toda a comunidade para a importância destes habitats".

"As crianças já estão mais sensíveis a estas questões [ambientais], mas, sem dúvida, que é preciso trazê-las para o campo, para experimentarem e respirarem a natureza, porque sem esta componente é muito difícil conservar os charcos ou qualquer outro habitat", destacou.

Segundo a bióloga, as escolas do concelho de Vila do Bispo têm manifestado "um grande apoio ao projeto, verificando-se uma adesão significativa dos alunos dos vários escalões de ensino".

"Além de toda a fauna, o que desperta maior curiosidade nas crianças é o habitante Triops Vicentinus, um crustáceo de água doce, com milhões de anos, que tem movimentos constantes das patas para poder respirar", frisou Cristina Baião, acrescentando que "este tipo de crustáceo apenas existe nos charcos no concelho de Vila do Bispo.

Por seu turno, a bióloga e investigadora do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve Margarida Cristo disse à Lusa que o projeto de conservação dos charcos temporários, habitats prioritários, faz parte do projeto LIFE, financiado por fundos comunitários, desenvolvendo-se ao longo de quase todo o Parque Natural da Costa Vicentina.

"Já conhecíamos alguns charcos, mas temos descoberto outros com diferentes comunidades de animais, sendo os localizados mais a sul habitados por espécies endémicas da região, nomeadamente o Triops Vicentinus, só existente neste cantinho de Portugal, há muitos milhões de anos", observou.

Segundo a investigadora, os charcos são zonas muito sensíveis, espécies endémicas e únicas que precisam de muita proteção, integradas em áreas muito procuradas, quer a nível turístico como de agricultura", o que faz ameaçar o futuro destes charcos.

"São zonas que não podem ter qualquer atividade na sua área circundante, pelo risco de afetar a qualidade da água. O trabalho que tem sido feito por diversas entidades tem alertado para a importância da preservação destes charcos, sendo as crianças o principal veículo para essa educação ambiental", concluiu.

Iniciado em 2013, o projeto LIFE Charcos desenvolve-se até dezembro de 2017, com um orçamento de dois milhões de euros, 75 por cento financiado por fundos comunitários através do Programa LIFE-Natureza.

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